Havia
uma palavra
no escuro.
minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.
Havia
uma palavra
no escuro.
minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.
- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.
- Leva-me contigo.
Quero ver Granada.
Quero ver o mar.
- Granada é longe,
o mar é distante,
não podes voar.
- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?
- Serve para te ver.
E passar, passar.
Sempre assim foi: entras na noite
completamente desarmado,
conduzido pelo ardor
dos decassílabos cambados
onde só a memória
da luz vive ainda, senhor apenas
de mãos tão inseguras
que tanto ocultam como desvendam
o minúsculo motor da vida –
mãos propícias aos trabalhos do barro,
mortais, dizia eu, e tão comuns,
tão desiguais.
É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.
Já estiveras na morte muita vez
e sempre regressaras. Para a conheceres
bastava-te afinal seres português,
a morte é o nosso aprendizado.
Agora lá ficaste: o outono foi duro.
Não cheguei a dizer-te como
tu e eu sobrávamos na festa.
Tu já partiste, eu não tardarei.
Aos corvos deixemos o que resta.
… Sobre Mário Botas
Mário Botas (1952-1983) – pintor português, natural da Nazaré.
Médico de formação, Mário Botas iniciou o seu trabalho como pintor em 1971, mas foi a partir de 1977, quando lhe foi diagnosticado uma leucemia, que passou a dedicar-se exclusivamente à pintura. A sua obra é fortemente marcada pelo universo literário, dado que desde cedo manifestou um profundo interesse pelos movimentos literários da época e manteve um convívio estreito com muitos poetas, entre eles Eugénio de Andrade, os quais lhe deram a oportunidade de se expressar plasticamente, nessa simbiose entre o literário e o pictórico. Para saber mais sobre o pintor: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/figuras/mariobotas.html
Tenho na minha biblioteca um livro de Almeida Faria – “Os passeios do sonhador solitário” – que possui ilustrações de Mário Botas e de facto percebe-se a profunda ligação entre o pintor e as palavras dos outros, que acalenta como um pouco suas também.
Aqui fica um excerto do livro de Almeida Faria:
“A vida é um xerox; tu uma cópia apenas. Recordo agora que, na noite do parque, ao caminhar sonâmbulo para casa, passei por uma loja de audiovisuais, parei ao ver num dos écrans, em feedback, o que a minha vida foi, e noutro vídeo o que poderia ter sido. Entre ambos a distância era infinita.”
NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO: Para encerrar o ciclo Encontros com Poetas do Porto II, a Fundação Eugénio de Andrade irá receber, no próximo sábado, dia 26 de Julho, Helga Moreira. Tal como aconteceu nas outras sessões, haverá uma breve apresentação da Poeta, seguida de leitura de poemas e diálogo com o público. A sessão terá início às 18h30 e a entrada é livre.
Quando todo o brilho da cidade
me escorre pelas mãos, que já não são
mais que fugidios ecos de verão,
a música dos dias sem idade
subitamente como fonte ou ave
rompe dentro de mim – e eu nem sei,
neste rumor de tudo quanto amei,
se a luz madrugou ou chegou tarde.
Concentro os olhos no mais precário
lugar do teu corpo: morre-se
em Agosto com as aves:
de solidão.
Neste instante sou imortal:
tenho os teus braços em redor
do corpo todo:
as areias escaldam: é meio-dia.
Do teu peito avista-se o mar
caindo a prumo:
morre-se em Agosto na tua boca:
com as aves.
Devia ser verão, devia ser jovem:
ao encontro da manhã ia cantando
como quem entra na água.
Um corpo nu brilhava nas areias
– corpo ou pedra?, pedra ou flor?
Verde era a luz, e a espuma
do vento rolava pelas dunas.
Soltei os olhos sobre aquele corpo,
o coração latindo de alegria.
De repente vi o mar subir a prumo,
desabar inteiro nos meus ombros.
Sem muros era a terra, e tudo ardia.
Este sol, não sei se já o disse,
este sol é o mar todo
da minha infância.
É como se fora a manhã alta,
os seus cabelos ardem,
mas eu sonho com outra boca.
Onde aprenda a ser água.
NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO:
Aproximando-se o final do segundo ciclo dedicado a Encontros com Poetas do Porto, no próximo sábado, 19 de Julho, a Fundação recebe Daniel Jonas. Haverá uma breve apresentação do Poeta, feita por Marta Afonso, à qual se seguirá a leitura de poemas e diálogo com o público. A sessão terá início às 18h30 e a entrada é livre.
Nada, nem sequer o verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.