Arquivo de Outubro, 2008

31
Out
08

Em Lisboa com Cesário Verde

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que um gato persa;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também;

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu já sei bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

Versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

de um verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua.

 

Sobre Cesário Verde…

 

Cesário Verde (1855-1886), poeta de referência da segunda metade do séc. XIX, natural de Lisboa, cidade onde inicia a formação superior no Curso de Letras da Universidade de Lisboa. Aí conhece o escritor Silva Pinto, um amigo para a vida. Interrompe o curso para trabalhar para a loja de ferragens que seu pai tinha na Rua dos Bacalhoeiros. Começa a publicar poesias a partir de 1873 no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, no Ocidente, entre outros. Embora vivendo e trabalhando em Lisboa, vive, a espaços, o ambiente rural de uma quinta familiar em Linda-a-Pastora. Dessas vivências resulta o profundo conhecimento da dictomia campo-cidade, patente numa poesia repleta de motivos populares e na utilização verbal dos objectos mais triviais. Em 1881 Cesário participa no “Grupo do Leão” e convive com Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Fialho de Almeida, Gualdino Gomes e com os pintores José Malhoa, Silva Porto, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. A partir de 1885 o seu estado de saúde agrava-se, vindo mesmo a falecer um ano mais tarde, tuberculoso. Em 1887 o seu amigo Silva Pinto publica uma compliação dos seus poemas em “O Livro de Cesário Verde”, uma obra incontornável de um dos incontornáveis da produção literária portuguesa.

 (Fontes: vidaslusofonas.pt/ astormentas.com/ alfarrabio.di.uminho.pt/ wikipédia)

30
Out
08

A custo

Embora a custo, desprende-se,

abandona-me,

o verão – ganhara raízes

fundas no que fora

terra aberta ao seu fulgor.

Deixou marcas, o cabrão:

dói-me a cara toda, o cabelo,

os lábios, sobretudo

as pálpebras porosas.

Vai sendo tempo de

considerar as minúsculas veredas

que por todo o corpo correm

não sei para que estrela,

escutar com atenção

a narrativa do silêncio.

Por mais solar

que seja o coração chega-se sempre

a isto – e isto

tem a forma da elegia

onde um rio e outro rio vão morrendo.

28
Out
08

Sem memória

Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?

Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas,

a luz do corpo levada aos lábios,

os primeiros lilazes do jardim.

Haverá outro nome para o lugar

onde não há lembrança de ti?

27
Out
08

Do fundo do corpo

Não dormia, passava horas e horas à escuta acabando por distinguir no emaranhado de sons os rumores mais ínfimos, a aranha a tecer a teia ou, ainda menos audível, a luz abrindo caminho a pulso entre a espessura dos reposteiros. O silêncio chegava tarde, perdido na rua o eco dos passos derradeiros. Só então ganhavam relevo aquelas pancadas vindas do fundo do seu corpo. Sempre ali estiveram, mas só nessas alturas surgiam limpas de outros ruídos, cada uma delas com perfil de espada. Até quando iriam durar? Porque chegaria um momento, disso não tenho a menor dúvida, em que o deserto da noite e o silêncio do corpo formariam uma substância única, para sempre inseparável do ardor do orvalho, subindo matinal os últimos degraus.

25
Out
08

Somos como árvores

Somos como árvores

só quando o desejo é morto.

Só então nos lembramos

que dezembro traz em si a primavera.

Só então, belos e despidos,

ficamos longamente à sua espera.

23
Out
08

Frésias

Uma pátria tem algum sentido

quando é a boca

que nos beija a falar dela,

a trazer nas suas sílabas

o trigo, as cigarras,

a vibração

da alma ou do corpo ou do ar,

ou a luz que irrompe pela casa

com as frésias

e torna, amigo, o coração tão leve.

21
Out
08

Escrevo

Escrevo já com a noite

em casa. Escrevo

sobre a manhã em que escutava

o rumor da cal ou do lume,

e eras tu somente

a dizer o meu nome.

Escrevo para levar à boca

o sabor da primeira

boca que beijei a tremer.

Escrevo para subir

às fontes.

E voltar a nascer.

19
Out
08

Fábula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.

Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.

Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem: rígido e fremente ao mesmo tempo, à força de concentrar todo o ímpeto nas nádegas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.

Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, eram os olhos da própria solidão.

Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar. A rapariga levantou-se a seguir e, de costas, parecia limpar as pernas. Eu escondi-me melhor atrás dos amieiros, não vi mais nada. Senti os passos de ambos afastarem-se, cada um para seu lado, com o coração apertado. De um salto, atirei-me à cama que os seus corpos haviam feito na areia, respirando avidamente, como se o ar pudesse trazer-me mais do que o cheiro acidulado da urina, e deixei de perceber os passos já distanciados, o estalar dos ramos secos aqui e ali, para só ouvir o silêncio. O doloroso, insuportável silêncio.

(1946)

17
Out
08

Raivosos, atiram-se contra a sombra

Raivosos, atiram-se contra a sombra

de umas acácias que por ali havia,

o corpo dorido de tanto desejar.

Olharam em redor, ninguém os vira,

 

a terra era de areia, a sombra dura,

também a carne endurecera

e secara a boca, só os olhos

tinham ainda alguma água fresca.

 

Os dedos cegos foram os primeiros

a rasgar, ferir, e logo os dentes

morderam, nem sequer

ao sexo deram tempo de penetrar.

 

Eram muito jovens; a terra não,

a terra estava exausta,

o coração mordido pelas vespas,

só queria morrer.

15
Out
08

Às vezes

Às vezes oiço morrer o silêncio –

é o mar que se afasta,

um ramo que partiu com

o insuportável peso

 

do mundo sobre o verde das suas

folhas, o silvo da lua

nova rasgando o chão das águas

estremunhadas, a rouca

 

respiração da casa

sufocada pelo glacial

ar das ruas, os passos de Abril

descendo os últimos degraus.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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