Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro do que um gato persa;
nesta Lisboa, onde mansos e lisos
os dias passam a ver as gaivotas,
e a cor dos jacarandás floridos
se mistura à do Tejo, em flor também;
só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.
Só ele ajusta a luz feliz dos seus
Versos aos olhos ardidos que são
os meus agora; só ele traz a sombra
de um verão muito antigo, com corvetas
lentas ainda no rio, e a música,
sumo do sol a escorrer da boca,
ó minha infância, meu jardim fechado,
ó meu poeta, talvez fosse contigo
que aprendi a pesar sílaba a sílaba
cada palavra, essas que tu levaste
quase sempre, como poucos mais,
à suprema perfeição da língua.
Sobre Cesário Verde…
Cesário Verde (1855-1886), poeta de referência da segunda metade do séc. XIX, natural de Lisboa, cidade onde inicia a formação superior no Curso de Letras da Universidade de Lisboa. Aí conhece o escritor Silva Pinto, um amigo para a vida. Interrompe o curso para trabalhar para a loja de ferragens que seu pai tinha na Rua dos Bacalhoeiros. Começa a publicar poesias a partir de 1873 no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, no Ocidente, entre outros. Embora vivendo e trabalhando em Lisboa, vive, a espaços, o ambiente rural de uma quinta familiar em Linda-a-Pastora. Dessas vivências resulta o profundo conhecimento da dictomia campo-cidade, patente numa poesia repleta de motivos populares e na utilização verbal dos objectos mais triviais. Em 1881 Cesário participa no “Grupo do Leão” e convive com Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Fialho de Almeida, Gualdino Gomes e com os pintores José Malhoa, Silva Porto, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. A partir de 1885 o seu estado de saúde agrava-se, vindo mesmo a falecer um ano mais tarde, tuberculoso. Em 1887 o seu amigo Silva Pinto publica uma compliação dos seus poemas em “O Livro de Cesário Verde”, uma obra incontornável de um dos incontornáveis da produção literária portuguesa.
(Fontes: vidaslusofonas.pt/ astormentas.com/ alfarrabio.di.uminho.pt/ wikipédia)