Agora é verão, eu sei. Tempo de facas, tempo em que se perdem os anéis as cobras à míngua de água. Tempo em que se morre de tanto olhar os barcos. É no verão, repito. Estás sentada no terraço e para ti correm todos os meus rios. Entraste pelos espelhos: mal respiras. Vê-se bem que já não sabes respirar, que terás de aprender com as abelhas. Sobre os gerânios te debruças lentamente. Com rumor de água sonâmbula ou de arbusto decepado dás-me a beber um tempo assim ardente. Pousas as mãos sobre o meu rosto, e vais partir sem nada me dizer, pois só quiseste despertar em mim a vocação do fogo ou do orvalho. E devagar, sem te voltares, pelos espelhos entras na noite.
20
Mai
09
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