Havia ainda outro jardim o da minha vida exíguo é certo mas o do meu olhar são talvez dois pássaros que se amam um sobre o outro ou dois cães não sei é sempre a mesma inquietação este delírio branco ou o rumor da chuva sobre flancos e barcos o Inverno vai chegar na palha ainda quente a mão uma doçura de abelha muito jovem era o sopro distante das manhãs sobre o mar e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração é o silêncio é por fim o silêncio vai desabar.
Arquivo de Junho, 2009
25
Jun
09
A manhã parada
A manhã parada. O azul. A fundura da pupila. Não é ainda a sede, a matilha, a febre. O tronco nu — a luz vacila.
22
Jun
09
Eugénio & Sophia
Hoje trago Sophia para a companhia de Eugénio. Cinco anos depois da sua morte, o Jornal Público, na edição do passado domingo, dá-nos conta de alguns excertos de diários, poemas e cartas do espólio de Sophia de Mello Breyner, presente no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, entre histórias contadas na primeira pessoa por dois dos seus filhos. Do nosso querido Eugénio de Andrade, para Sophia, há cartas, postais, poemas e textos, como aquele que diz: "De repente ouvia-se uma voz: Onde está a Sophia? Não havia Sophia, mas o ar era fresco como se atravessássemos uma alameda de tílias". Do mundo de Sophia resolvi trazer um poema inédito apresentado nesse artigo do Público, um poema escrito a tinta permanente azul, num pequenino papel, com data de 31 de Agosto de 1943. O seu nome - Inocência e possibilidade: As imagens eram próximas Como coladas sobre os olhos O que nos dava um rosto justo e liso Os gestos circulavam sem choque nem ruído As estrelas eram maduras como frutos E os homens eram bons sem dar por isso.
18
Jun
09
Ouço correr a noite pelos sulcos
Ouço correr a noite pelos sulcos do rosto – dir-se-ia que me chama, que subitamente me acaricia, a mim, que nem sequer sei ainda como juntar as sílabas do silêncio e sobre elas adormecer.
15
Jun
09
O silêncio
Dai-me outro verão nem que seja de rastos, um verão onde sinta o rastejar do silêncio, a secura do silêncio, a lâmina acerada do silêncio. Dai-me outro verão nem que fique à mercê da sede. Para mais uma canção.
Eugénio voou com as aves há precisamente quatro anos. Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia. (Num exemplar das Geórgicas - In Ofício de Paciência)
10
Jun
09
Árvores
Sem fadiga, as árvores regressam ao poema. Primeiro as laranjeiras, a seguir entram as tílias. Sempre estiveram perto, incapazes de se afastarem dos pequenos olhos imensos. À sombra dos cavalos podia vê-las chegar carregadas do seu aroma, dos seus frutos frios. A tarde chegava ao fim mas tive tempo ainda de as sentir, com um sorriso, aproximar.
07
Jun
09
Eros Thanatos
1 Ó pureza apaixonadamente minha: terra toda nas minhas mãos acesa. 2 O que sei de ti foi só o vento a passar nos mastros do verão. 3 Um corpo apenas, barco ou rosa, rumoroso de abelhas ou de espuma. 4 Entre lábios e lábios não sabia se cantava ou nevava ou ardia. 5 Amo como as espadas brilham no ardor indizível do dia. 6 Seria a morte esta carícia onde o desejo era só brisa?
05
Jun
09
Talvez
Talvez nem tenha nome. Anunciado só pelo frémito da folhagem. O riso invisível, o grito de um pássaro, o escuro da voz. Certa doçura, certa violência. O espesso, volúvel tecido da noite agora a roçar o corpo da água. E por fim a muito lenta paixão do fogo, sufocada. Era o verão.
03
Jun
09
Sem ti + Sem Mário Benedetti
É um fardo aos ombros o corpo, sem ti. Até o amarelo dos girassóis se tornou cruel. Não invento nada, na arte de olhar a luz é cúmplice da pele. Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado. Cuando éramos niños Quando éramos meninos los viejos tenían como treinta os velhos não teriam mais de trinta un charco era un océano um charco era um oceano la muerte lisa y llana a morte lisa e plana no existía. não existia. Luego cuando muchachos Já quando rapazes los viejos eran gente de cuarenta os velhos eram gente de quarenta un estanque un océano um tanque um oceano la muerte solamente a morte apenas una palabra. uma palavra. Ya cuando nos casamos E quando nos casamos los ancianos estaban en cincuenta os anciãos estavam pelos cinquenta un lago era un océano um lago era um oceano la muerte era la muerte a morte era a morte de los otros. dos outros. Ahora veteranos Agora veteranos ya le dimos alcance a la verdad e que alcançamos a verdade el océano es por fin el océano o oceano é por fim o oceano pero la muerte empieza a ser mas a morte começa a ser la nuestra. a nossa.