03
Jun
09

Sem ti + Sem Mário Benedetti

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado.

Cuando éramos niños                                   Quando éramos meninos                  
los viejos tenían como treinta                        os velhos não teriam mais de trinta
un charco era un océano                               um charco era um oceano
la muerte lisa y llana                                a morte lisa e plana
no existía.                                           não existia.

Luego cuando muchachos                                Já quando rapazes
los viejos eran gente de cuarenta                     os velhos eram gente de quarenta
un estanque un océano                                 um tanque um oceano
la muerte solamente                                   a morte apenas
una palabra.                                          uma palavra. 

Ya cuando nos casamos                                 E quando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta                     os anciãos estavam pelos cinquenta
un lago era un océano                                 um lago era um oceano
la muerte era la muerte                               a morte era a morte
de los otros.                                         dos outros.
 
Ahora veteranos                                       Agora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad                       e que alcançamos a verdade
el océano es por fin el océano                        o oceano é por fim o oceano
pero la muerte empieza a ser                          mas a morte começa a ser
la nuestra.                                           a nossa.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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