Nesses lugares, nesses lugares onde o ar perde a mão, os meus amigos começam a morrer. Falar tornou-se insuportável. Falar dessa luz queimada. deserta. Que fazer desta boca, do olhar, tão perto outrora de ser música?
Arquivo de Agosto, 2009
30
Ago
09
Nesses lugares
28
Ago
09
Obscuro Domínio
Amar-te assim desvelado entre barro fresco e ardor. Sorver entre lábios fendidos o ardor da luz orvalhada. Deslizar pela vertente da garganta, ser música onde o silêncio flui e se concentra. Irreprimível queimadura ou vertigem desdobrada beijo a beijo, brancura dilacerada. Penetrar na doçura da areia ou do lume, na luz queimada da pupila mais azul, no oiro anoitecido entre pétalas cerradas, no alto e navegável golfo do desejo, onde o furor habita crispado de agulhas, onde faça sangrar as tuas águas nuas.
A chuva cai na poeira como no poema de Li Bai. No sul os dias têm olhos grandes e redondos; no sul o trigo ondula, as suas crinas dançam no vento, são a bandeira desfraldada da minha embarcação; no sul a terra cheira a linho branco, a pão na mesa, o fulvo ardor da luz invade a água, caindo na poeira, leve, acesa, Como no poema.
26
Ago
09
Corpo
O mar – sempre que toco um corpo é o mar que sinto onda a onda contra a palma da mão. Vésper está agora tão próxima que já não posso perder-me naquela infatigável ondulação.
25
Ago
09
Berlim
Há uma ruptura uma fenda no escuro do silêncio: ouve-se o murmúrio da urina dos soldados contra o muro.
23
Ago
09
Acorde
Onde passou o vento são altas as ervas, e os olhos água só de olhar para elas.
17
Ago
09
Fim de verão
Talvez nem seja um tordo. Um pássaro cantava. Seria o último desse verão. A própria luz não ajudava: não era barco de manhã nem brisa ao fim da tarde. Talvez o anjo do poema pudesse em seu lugar subir aos ramos e cantar. Mas os anjos são tão distraídos! Deles não há nada a esperar, a não ser fogo de palha. Talvez nem seja um tordo. O seu canto, só vibração do ar.
16
Ago
09
Com as gaivotas
Contente de me dar como as gaivotas bebo o Outono e a tarde arrefecida. Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor por mais que digam é perfeito como a vida. Tenho tristezas como toda a gente. E como toda a gente quero alegria. Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas, leve o diabo essa morte dia a dia.