Quem me traz morangos não sabe que também me traz um punhado desses tão delicados e carnais frutos silvestres que os garotos de Roma vendem pelas ruas, sorrindo, ao fim da tarde. Só eles me trazem juntos a sombra dos bosques de verão e o canto do rouxinol na frescura da sua pele.
Arquivo de Setembro, 2009
30
Set
09
O cheiro do Verão
29
Set
09
Era setembro
Era setembro ou outro mês qualquer propício a pequenas crueldades: a sombra aperta os seus anéis. Que queres tu ainda? O sopro das dunas sobre a boca? A luz quase despida? Fazer do corpo todo um lugar desviado do inverno?
28
Set
09
Sobre a palavra
Entre a folha branca e o gume do olhar a boca envelhece. Sobre a palavra a noite aproxima-se da chama. Assim se morre dizias tu. Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura. Na porosa fronteira do silêncio a mão ilumina a terra inacabada. Interminavelmente.
26
Set
09
Num exemplar das Geórgicas
Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia.
24
Set
09
F. P.
De rosto em rosto a ti mesmo procuras e só encontras a noite por onde entraste finalmente nu – a loucura acesa e fria iluminando o nada que tanto procuraste. 5-4-78
20
Set
09
Como no início
É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
14
Set
09
O sal da terra
Eram o sal da terra, as abelhas, no ar leve e verde das tílias. Iam e vinham ligeiras como se a fadiga lhes fosse alheia: algumas regressavam à colina onde tecem a seda da sombra; outras caem a prumo, embriagadas com a violenta fragância das tímidas flores quase apagadas. Basta estar atento à luz oblíqua para descobrir como a perfeição é completa deste lado do mundo. Mas só eu agora de olhos fechados sigo o seu rumor.
13
Set
09
Também, também o pulso
Também, também o pulso, também o pulso arde, e morre a luz na pele; arde com rumor de amêndoa dentro do caroço, de criança no escuro; será por setembro, quando a água da neve ainda não conhece a boca dos poços; quando a frágil alegria do olhar quebra na sombra o seu azul, o seu aroma.
07
Set
09
Eu vi essas muralhas ruírem
Eu vi essas muralhas ruírem sobre o rio — eram calmas as águas de setembro, e sucessivas. Despedia-me das folhas, também eu preparava esse abandono da cidade e das suas almas. Eu vi essas muralhas. Eram espessas broncas frias. Ruíram, quando as olhava.
Notícias da Fundação EA: Il Mondo che non Vedo (O mundo que não vejo) é o título de uma nova e extensa colecção de poemas de Fernando Pessoa ortónimo traduzidos para italiano. Com um posfácio assinado por José Saramago, a edição - bilingue -, que tem cerca de mil páginas, deve-se à prestigiada BUR Rizzoli de Milão, e foi organizada pelo professor de literatura portuguesa e brasileira da Universidade de Florença, Piero Ceccucci, que é também responsável pela introdução, pelas notas e pelas traduções, estas em colaboração com a professora Orietta Abbati. Para falarem desta edição, dos problemas da tradução poética e da fortuna de Pessoa em Itália os dois prestigiados professores italianos estarão na Fundação Eugénio de Andrade no próximo dia 12, às 18h30. Entrada livre.