Cantas. E fica a vida suspensa. É como se um rio cantasse: em redor é tudo teu; mas quando cessa o teu canto o silêncio é todo meu.
Arquivo de Novembro, 2009
26
Nov
09
Cantas. E fica a vida suspensa.
24
Nov
09
Cante Jondo
A mão onde pousava o que a noite trazia é quase imperceptível; memória só seria do que nem nome tinha: um arrepio na água?, um ligeiro tremor nas folhas dos álamos?, um trémulo sorrir em lábios que não via? Memória só seria de ter sonhado a mão onde nada pousava do que a noite trazia.
20
Nov
09
Manhã de Junho
Talvez, talvez sejam os últimos dias. Se for assim, são um esplendor. Apesar dos aviões da Nato despejarem bombas e bombas no Kosovo, a perfeição mora neste muro branco onde o escarlate da flor da buganvília sobe ao encontro da luz fresca da manhã de junho. A beleza (não há outra palavra para dizê-lo), a beleza desta manhã é terrível: persiste, domina – apesar dos aviões, mesmo com bombas a cair e crianças a morrer.
18
Nov
09
Prato de figos
Também a poesia é filha da necessidade – esta que me chega um pouco já fora do tempo, deixou de ser sumarenta alegria do sol sobre a boca; esta, perdida a húmida e nacarada pele adolescente, mais parece um desses figos secos ao sol de muitos dias que no inverno sempre se encontram postos num prato para comeres junto ao fogo.
15
Nov
09
Gatos
Gato dos quintais Gato dos portões, Gato dos quartéis Gato das pensões. Vêm da Índia, da Pérsia, De Ninive, Alexandria. Vêm do lado da noite, Do oiro e rosa do dia. Gato das duquesas, Gato das meninas, Gato das viúvas, Gato das ruínas. Gatos e gatos e gatos. Arre, que já estamos fartos! Um bom domingo para todas as crianças!!! Para este Natal: www.unicef.pt
11
Nov
09
Numa fotografia
Não sejas como a névoa, nem quimera. Demora-te, demora-te assim: faz do olhar tempo sem tempo, espaço limpo – do deserto ou do mar.
08
Nov
09
Estou aqui
Estou aqui sentado – ali o mar, as palmeiras. O leite fresco, o pão na mesa. O gesto sempre igual da luz, o mesmo olhar da ave. Existe uma secreta harmonia entre a luz e o mar, a mesma provavelmente entre a palmeira e a ave, o leite e o pão. E com a palavra, o seu voo a prumo, com a palavra qual é a relação?
05
Nov
09
Lume de Inverno
O lume. O lume rasteiro. O lume ainda. Vem de tão longe. Da casa térrea sobre a eira, casa onde qualquer coisa pequena pulsava: um coração, a água no cântaro, o trigo a crescer. Era tão pequeno que nem sabia como pedir uma laranja, um pouco de pão. Menos ainda, um beijo. Parecia só saber estender as mãos para aquele sol rasteiro e para o olhar que dos sortilégios do lume o defendia.
02
Nov
09
A casa
Nem sempre a luz vem assim: salta como um rapaz muro após muro, entra pela janela. O brilho dos medronhos chega ao fim: extrema ponta dos dias, aproximação da água. Dia feito para a música, dizias; ou para a dança, acrescentavas: ritmo puro, sustido. De muro em muro, sem nenhum peso, entra pela casa. Agora é ela que dorme comigo.