Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
In: Ostinato Rigore (1964)
Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
In: Ostinato Rigore (1964)
Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.
Transparência e sombra em Eugénio de Andrade, por Gastão Cruz
26.06.2005
O que tem sido dito e escrito sobre Eugénio de Andrade tende, muitas vezes, para a apresentação da sua poesia com uma tonalidade, se não única, largamente dominante: diurna, transparente, de uma harmonia sem dissonâncias. Ele próprio se definia como “um poeta solar”.
Lembro-me de o ouvir dizer, não há muitos anos, que o seu desejo de escrever diminuíra, já que começava a impor-se-lhe uma visão mais amarga da vida, determinada pelo envelhecimento, e não queria ceder à adopção de uma atitude que contrariava a verdadeira natureza da sua poesia. Apesar disso, ela irrompe, com terrível veemência, em alguns poemas escritos “às portas da velhice” – expressão usada no livro “O Sal da Língua”. Entre os poemas finais de “Rente ao Dizer”, por exemplo, uns quantos há que fazem parte dos mais sombrios que Eugénio alguma vez escreveu: “Fim de tarde em S. Lázaro”, “Versos de inverno”, “À boca do poço”, “Último poema”; ou “Cerco”, em que o corpo, “que foi afável/e crédulo e solar”, surge agora “distante e tão cercado/de apagadas águas”.
Não creio, todavia, que este modo menos diurno e solar de encarar o mundo, a vida e, acima de tudo, o corpo, seja exclusivo da última fase de Eugénio de Andrade. Já em escritos anteriores procurei mostrar como, desde sempre, na sua poesia existiram fortes contrastes, que encontram formulação particularmente expressiva num poema como “Litania”: “as mãos, de certo modo, irresponsáveis,/e contudo sombrias, e contudo transparentes”; “as palavras mordendo a solidão,/atravessadas de alegria e de terror”.
O valor atribuído ao corpo, ao desejo do corpo (“como se o teu corpo/fora a vida toda//o desejo hesita/em ser espada ou flor”), faz temer a sua perda, ou, mais exactamente, a perda do seu esplendor. Em “Mar de Setembro”, que o poeta publica em 1961, aos trinta e oito anos, já ele fala da juventude como coisa passada: “Diremos prado bosque/primavera,/e tudo o que dissermos/é só para dizermos/que fomos jovens.”
Não se tem, talvez, também reparado muito como, naquele que continua a ser, porventura, o seu livro mais emblemático, “As Mãos e os Frutos”, o grande livro de exaltação do corpo amoroso e do desejo (“Foi para ti que deitei no chão/um corpo aberto como os animais.”), a noite (“Só sei que passo aqui a tarde inteira/tecendo estes versos e a noite/que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.”), a solidão (“Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.”), a sombra (“A tua vida é uma história triste./ A minha é igual à tua./Presas as mãos e preso o coração,/enchemos de sombra a mesma rua.”), a própria morte (“Em cada fruto a morte amadurece”), têm uma presença decisiva, que acentua a melancolia do poema (na verdade, de um só poema se trata) e o matiza com tonalidades elegíacas, como bem compreendeu Fernando Lopes Graça, no belíssimo ciclo de melodias que, a partir dele, compôs (para quando a regravação, ou, pelo menos, a reedição da gravação existente?).
Eugénio esteve sempre bem consciente de que há duas faces na vida, uma diurna e outra nocturna. Quis vencer o “obscuro domínio”, “penetrar (…) na luz queimada”, rasgar a sombra, perder-se na face transbordante da vida: “Canção, vai para além de quanto escrevo/e rasga esta sombra que me cerca./Há outra face na vida transbordante:/que seja nessa face que me perca.” (“As Mãos e os Frutos”)
Mesmo nos últimos livros, por entre momentos de quase desespero, ressurge a vontade de salvar o corpo da dor da velhice, que é “doença da alma”. E este momentâneo regresso à crença no corpo como “exaltação”, ainda que passada, como “cristal” que importa preservar, proporciona-lhe poemas admiráveis; é o caso de “De ramo em ramo”, de “Ofício de Paciência” (1994): “Não queiras transformar/em nostalgia/o que foi exaltação,/em lixo o que foi cristal./A velhice,/o primeiro sinal/de doença da alma,/às vezes contamina o corpo./Nenhum pássaro/permite à morte dominar/o azul do seu canto./Faz como eles: dança de ramo/em ramo.” Ou, no mesmo livro, “O lugar mais perto”: “O corpo nunca é triste;/o corpo é o lugar/mais perto onde o lume canta./É na alma que a morte faz a casa.”
Fiel, até o fim, ao seu destino de poeta solar, Eugénio jamais ignorou que a amizade íntima com o sol, de que falou Luís Miguel Nava, estava permanentemente ameaçada, sendo preciso lutar por ela. Porque esse “sol” não era, afinal, senão o próprio corpo, astro vulnerável ao tempo e à sua passagem.
O Sal da Língua comemora, no dia em que se completam os 25 anos da sua morte, a pessoa, o poeta, o músico e o homem que foi e que continua a ser Zeca Afonso. Figura maior das artes, Zeca foi um verdadeiro combatente de causas e de convicções e será recordado sempre pela sua força e persistência incansáveis em lutar contra todas as formas de opressão intelectual e humana a favor da liberdade de espírito e de opinião.
Estão marcadas várias iniciativas para hoje e para os próximos dias, que podem ser consultadas na página da Associação José Afonso (AJA).
Deixo-vos com um poema do Zeca e com o convite para revisitar a sua obra musical e poética.
De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mão e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingamos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta.
Dia 24, sexta-feira, 10h30 – Auditório Municipal
Mesa 2: “O fim da arte superior é libertar” – Fernando Pessoa
Alberto S. Santos, Fernando Pinto do Amaral, José Jorge Letria, Luís Quintais, Sofia Marrecas Ferreira, Care Santos, João Gobern – moderador
Dia 24, sexta-feira, 15h00 – Auditório Municipal
Mesa 3: A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras
Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Manuel António Pina, Manuel Rui, Margarida Vale de Gato, Ivo Machado – moderador
Dia 24, sexta-feira, 17h30 – Auditório Municipal
Mesa 4: Toda a literatura é pura especulação
Eduardo Sacheri, Inês Pedrosa, João Bouza da Costa, Manuel Jorge Marmelo, Pedro Rosa Mendes, Rosa Montero, Bia Corrêa do Lago – moderadora
Dia 24, sexta-feira, 22h00 – Auditório Municipal
Mesa 5: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink, Valter Hugo Mãe, Henrique Cayatte – moderador
Dia 25, sábado, 10h30 – Auditório Municipal
Mesa 6: Da crise da escrita não se pode fugir
Carmo Neto, João Pedro Marques, Miguel Real, Sandro William Junqueira, Valeria Luiselli, Salgado Maranhão, Onésimo Teotónio Almeida – moderador
Dia 25, sábado, 16h00 – Auditório Municipal
Mesa 7: “As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento” – Antoine Rivarol
Eugénio Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, João de Melo, Luís Sepúlveda, Onésimo Teotónio Almeida, Maria Flor Pedroso – moderadora
Dia extra, em Lisboa.
Dia 28, terça-feira, 18h30, Instituto Cervantes, Lisboa
Mesa 8: Traços de crise enriquecem o texto literário
Afonso Cruz, Ana Paula Tavares, Care Santos, Manuel Moya, Valeria Luiselli, Helena Vasconcelos – moderadora
O assédio do verão, as rolas
dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo,
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.
In: Rente ao Dizer (1992)
Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?
Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.
Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
– que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?
In: Coração do Dia (1958)
O Sal da Língua sugere a exposição “Fernando Pessoa, Plural como o Universo“, uma exposição dedicada a Fernando Pessoa e seus heterónimos e que estará patente, a partir do dia 10 de Fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Esta exposição, com curadoria de Carlos Felipe Moisés e Richard Zenith, pretende mostrar toda a multiplicidade da obra de Pessoa, apresentando um espaço repleto de poemas, textos, documentos, fotografias e pintura, onde se incluem raridades como a primeira edição do livro Mensagem, com uma dedicatória escrita pelo poeta.
De 10 Fev 2012 a 30 Abr 2012
Das 10:00 às 18:00
Encerra Segunda-feira e domingo de Páscoa
Edifício Sede
Entrada: €4