Tive a sorte de conhecer Eugénio ainda criança e posso dizer que desde aí nos tornámos inseparáveis. O primeiro livro de Eugénio de Andrade que eu tive foi um livro de poemas chamado “Aquela nuvem e outras”. Ainda hoje sei alguns de cor, de tão musicais que são e de tão lidos que foram. A “História da Égua Branca” foi outro livro de Eugénio de Andrade que me acompanhou na infância. Estes dois livros estão agora guardados, à espera da criança que um dia sairá de mim para os ler. Mais tarde, na adolescência, recebi o “Branco no Branco” que marca o princípio da poesia em mim, e para mim. A oferta, essa, devo-a aos meus tios, num momento que só posso considerar de iluminado, o Natal de 92. A dedicatória transcrevia o principiar de uma ligação inseparável à poesia de Eugénio: “Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca, vou dizer-te um segredo…”. Branco no Branco começou por ser um explorar da musicalidade das palavras, e é engraçado como algumas delas estão sublinhadas, talvez porque na altura eu ainda esbarrasse contra a barreira dos significados (ai tão pequenina que eu era!). Depois veio a descoberta, o saborear de cada imagem, de cada impressão (os meus livros, principalmente os de poesia, estão todos sublinhados, em diferentes locais e de várias maneiras, reflectindo quase o número de leituras que faço deles, repetidamente, ao longo do tempo). Acho que a partir daí nos tornámos inseparáveis. Outros poetas se seguiram, outras descobertas e intimidades. Mas o branco no branco ficou a dever-se a Eugénio. E o segredo também. E a lágrima acesa em cada um dos meus dias.

“Eles voltaram, com o rumor da chuva aquecem as mãos./Aos lábios de pouca idade volta o sorriso extraviado./A verdade é que nunca soube o nome dessa flor/ que nalguns olhos abre logo de madrugada./ Agora para saber é tarde./O que sei é que mesmo no sono/há um rumor que não dorme,/ um jeito da luz pousar, um rasto de lágrima acesa./ É sobre o meu corpo que chove” Eugénio de Andrade (in Branco no Branco)

Este “Sal da Língua” é a minha sincera homenagem à escrita luminosa de Eugénio. A missão é simples, trata-se apenas de deixar escorrer, dia após dia, a poesia e a prosa de Eugénio para este espaço.  E o resto é vosso.

Raquel Agra

Comentários e sugestões: raquelagra@gmail.com


20 Respostas to “Acerca de “Sal da Língua””


  1. Janeiro 27, 2008 ás 2:26 am

    muy bueno puse un link en mi blog, salud!

  2. Janeiro 29, 2008 ás 7:50 pm

    Também Eugénio me marcou, igualmente o Branco no Branco… Não tão precocemente como a autora do blog…

  3. Julho 24, 2008 ás 11:28 am

    Cara Raquel.
    Também gosto muito de Eugénio de Andrade, apesar de não ter tido o prazer de o conhecer. Se o tivesse conhecido pessoalmente a minha admiração seria, sem dúvida, incomensuravelmente maior! Adoro poesia e admiro os poetas portugueses. E vou tentando a minha parte, apesar de saber que não sei escrever!
    Lanço-te um desafio: homenageia o teu amigo com algo teu e presenteia-nos com um poema da tua autoria. Tenho certeza que o teu mentor iria adorar!
    Parabéns pelo blog.

  4. 4 Raquel Agra
    Agosto 18, 2008 ás 9:58 am

    Faure, Homem da Cave e Soola Jave,
    obrigada pelos comentários.
    Soola Jave, em relação ao poema da minha autoria, obrigada pelo desafio, não o vou esquecer.

    Abraço,
    Raquel

  5. Setembro 28, 2008 ás 2:21 pm

    Ola, acolhimentos de Bulgária :D
    Posso traduzir o que escreves e postá-lo na minha blogue com um link a te?

  6. 6 Raquel Agra
    Setembro 28, 2008 ás 11:15 pm

    Olá Aeren,

    Cumprimentos de Portugal.
    Podes sim traduzir os poemas de Eugénio de Andrade, mas ficas a saber que Eugénio de Andrade tem livros seus (de poesia) traduzidos em búlgaro, para o caso de estares interessado em conhecer melhor a sua obra.

  7. Novembro 13, 2008 ás 1:16 am

    Olá Raquel,

    Sou sincero e directo, de poesia e prosa pouco li ou leio, mas dou-me ao trabalho de TENTAR pôr em escrita o que me vai cá dentro, não sei se bem se mal, apenas escrevo, no entanto achei de uma beleza divina que tentes transmitir o que sentes pela escrita de um dos maiores poetas Portugueses, dou-te os meus parabéns e se me autorizares, colocarei o teu link do blog, no meu.

    Adorei, continua

    Paulo

  8. 8 Raquel Agra
    Novembro 13, 2008 ás 11:04 am

    Olá Paulo,

    Obrigada pela sinceridade e pelo incentivo. Escrever é muito bom, mas ler as palavras dos outros também, por isso força na leitura, seja poesia seja prosa, o importante é ler!
    Podes pôr o link se assim o quiseres,

    Boas leituras e boas escritas.

  9. Novembro 18, 2008 ás 11:37 am

    Deixo-lhe ficar o endereço do meu sítio, onde incluo vários ensaios de minha autoria sobre a obra de Eugénio de Andrade. Encontro-me presentemente a elaborar pós-doutoramento sobre a presença intertextual e temática de poetas de língua inglesa na obra eugeniana:

    João de Mancelos: Trabalhos/Works
    http://mancelos.com.sapo.pt

  10. 10 Raquel Agra
    Novembro 18, 2008 ás 5:31 pm

    Caro João,

    Obrigada pela visita e por ter dado a conhecer o seu “sítio”, que acabei de adicionar aos outros endereços sobre Eugénio que também dou a conhecer no meu espaço.

    Uma vez que se debruça sobre a obra eugeniana e ainda para mais o faz em Aveiro (a minha cidade), pergunto-me se não estará nos seus planos dinamizar algum tipo de actividade aberta à comunidade, como por exemplo um ciclo de poesia de homenagem a Eugénio de Andrade ou um debate em torno da sua obra.

    Continuação de bom trabalho.

  11. 11 Álvaro de Sousa Holstein
    Maio 7, 2009 ás 12:08 am

    Ao seguir um link do João de Mancelos vim aqui ter. Pena não partilhar um tal entusiasmo pela obra do EA, mas muito me apraz ver um tal entusiasmo pela poesia.

    • 12 Raquel Agra
      Maio 7, 2009 ás 8:32 am

      Caro Álvaro,

      Seja bem vindo, então, ao Sal da Língua!
      A obra de Eugénio tem um grande significado para mim, mas quando se fala de poesia as paixões são imensas. Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Álvaro de Campos, são alguns dos bons motivos para gostar tanto de poesia.

      Um abraço,
      Raquel

  12. 13 Álvaro SHF
    Maio 15, 2009 ás 1:42 pm

    Estou completamente de acordo com os nomes que aparecem neste seu post, acrescento mais alguns: Teixeira de Pascoaes, Ilidio Sardoeira, Carlos Alberto Braga, Jorge de Senna, David Mourão Ferreira, Maria Teresa Horta e Natália Correia. Para mim são incontornáveis.

    Parabéns pelo “Sal da Língua”

    Beijo,
    Álvaro

  13. 14 Raquel Agra
    Maio 15, 2009 ás 2:01 pm

    Obrigada mais uma vez.
    Somos verdadeiramente um país de poetas e por isso torna-se bastante fácil destacar nomes e enumerar preferências. A nossa expressão poética é incomparavelmente superior à nossa prosa. Um abraço e boas leituras,
    Raquel

  14. 15 opinadeiro
    Maio 18, 2009 ás 9:12 am

    Nunca li Eugénio de Andrade… Mas nunca é tarde!
    Sempre gostei de Cesário Verde pela forma crua e realista que descreve o quotidiano… Vejo parecenças, na actualidade, com a realidade de outrora…
    Bem haja estes maravilhosos textos que nos remetem aonde apenas a inércia de escrever nos mata…!

    • 16 Raquel Agra
      Maio 18, 2009 ás 9:29 am

      Caro amigo,

      As possibilidades de fazer novas descobertas são infinitas! E estamos sempre a tempo de uma nova descoberta que nos enriqueça um pouco mais. Espero que o meu “Sal da Língua” possa ser o ponto de partida para descobrires Eugénio de Andrade. O resto é teu.

      Boas leituras e boas descobertas,
      Raquel

  15. 17 Goreti Rocha
    Setembro 4, 2009 ás 2:18 pm

    Raquel que nostalgia me causou acidentalmente “esbarrar” com esta página, que me fez acordar de novo para a minha admiração por este homem…Aos anos que não o lia e que bem me soube nesta tarde de trabalho parar, ainda que por breves instantes, para o ler…
    “Urgentemente”, vou vasculhar as estantes da minha casa (e do meu coração) à procura das páginas que mais me marcaram na vida…
    Obrigada!
    Goreti

    • 18 Raquel Agra
      Setembro 5, 2009 ás 11:30 am

      Cara Goreti,

      Obrigada pela visita.
      Sou uma amante da poesia portuguesa e Eugénio de Andrade foi o primeiro poeta português com quem “esbarrei” :-)
      Fico tão feliz como a Goreti por este seu encontro acidental com o “Sal da Língua”, mas fundamentalmente por este lhe ter permitido o reencontro com Eugénio.
      Boas leituras,
      Raquel
      O

  16. 19 Lídia Cruz
    Setembro 27, 2009 ás 12:25 am

    Olá Raquel,

    Tive a honra de o conhecer só há dois anos, mas o eco da fluidez das suas rimas acompanham-me quase diariamente. Reflicto nas palavras “…é urgente o amor, é urgente permanecer.” regularmente e digo para comigo quando me sinto triste: “…faz como eles: dança de ramo em ramo.” e de novo consigo enfrentar a vida. Imagino que a magia deste senhor mexe com muita gente. Fala do universal: do amor e da alma. Quem não o sente? Quem não a têm? E fala sempre duma forma tão comovente…

    Parabéns pela iniciativa deste lindíssimo blog. Pelo que vi, tenho a certeza de que lhe presta uma homenagem digna e à altura da sua admiração. Gostei particularmente da sua dedicatória, tão genuína, tão sentida. A mim, soa-me a poeta… Força!

  17. 20 Raquel Agra
    Setembro 27, 2009 ás 9:29 pm

    Cara Lídia,

    Obrigada pela visita e pelas palavras tão generosas.
    A poesia de Eugénio de Andrade é realmente de uma simplicidade desarmante, mas que causa, a quem a lê, imagens e emoções muito fortes. Espero que este “Sal da Língua” seja mais uma porta aberta para a força da poesia de Eugénio.

    Boas leituras,

    Raquel


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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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