Sete palmos, sete metros,
anda a formiga por dia
(sete palmos a correr,
sete metros devagar),
só para lamber o mel
que lentamente escorria
quer da boca quer do pão,
quer dos dedos do Miguel.

Eugénio de Andrade por Graça Martins
Sete palmos, sete metros,
anda a formiga por dia
(sete palmos a correr,
sete metros devagar),
só para lamber o mel
que lentamente escorria
quer da boca quer do pão,
quer dos dedos do Miguel.

Eugénio de Andrade por Graça Martins
Para assinalar o Dia Mundial da Poesia, Eugénio na poesia de outros:
É a labareda da seda sob os dedos transmitida
ao corpo todo, seda extraída ao segredo –
tocar e ser tocado, sentir em si
a ligeireza do fogo, a profundeza,
e estremecer, ficar em chaga:
e com dedos e sedas manter às labaredas, entre
terror e louvor,
a comburente, combustível composição de tudo: ser
queimado vivo,
ser luminoso.
Herberto Hélder
1
Nada está prescrito, nada se cumpre como um destino. A anterioridade
situa-se diante de um olhar que a atravessa e a transforma na possibilidade
do acto de ser um puro começo. Cada palavra consuma o
seu início no extremo de si própria e deixa o campo intacto para a
liberdade do sopro anónimo e dos nomes novos no seu espaço aberto.
2
A relação do ser e do horizonte é circular. É talvez o aberto que cria o
horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não
poderia romper sem a linha pura do horizonte e a lâmpada da respiração
não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto.
Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade
de uma palavra livre mais fiel à simplicidade nova de um começo.
António Ramos Rosa
Os dois poemas escolhidos encontram-se publicados no livro “Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas”, das Edições Asa. “Uma prenda para Eugénio com algumas túlipas” conta com prefácio de Miguel Veiga e 67 pinturas e poemas dedicados a Eugénio de Andrade nos seus 80 anos, da autoria de pintores como Graça Morais, José Rodrigues, Júlio Resende e de poetas como Herberto Hélder, António Ramos Rosa, José Viale Moutinho, Luísa Dacosta, Manuel Alegre, Manuel António Pina, Maria Alzira Seixo, Mário Cláudio e Vasco Graça Moura.

Eugénio de Andrade - Pintura de Graça Martins
Eugénio escorreu para outras fontes há precisamente 3 anos. E tanto dele podemos ainda beber…
Às 11h de hoje, no cemitério do Prado do Repouso, terá lugar a cerimónia de trasladação dos restos mortais de Eugénio de Andrade, do jazigo municipal para o túmulo desenhado pelo arquitecto Siza Vieira.
Nota: A ilustração encontra-se no livro ”Os Dóceis Animais”