Arquivo da categoria 'O LUGAR DOS AMIGOS'

02
Abr
12

O lugar dos amigos – Jorge Pinheiro

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

(texto de Jorge Pinheiro publicado na revista de poesia “Relâmpago”, n.º 15, Outubro de 2004, dedicado a Eugénio de Andrade)

O meu relacionamento com Eugénio de Andrade tem dois tempos completamente distintos: o primeiro, nos anos 60, quando, após o almoço, o grupo que gravitava em torno de Belas-Artes se reunia no Café de São Lázaro. Aí, a nossa troca de ideias não ultrapassava o que a cada um cabia na rodada de argumentos que circulavam em torno da mesa. Para além deste ritual do café, só acidentalmente nos encontrávamos em casa de algum amigo comum, e as conversas arrastavam-se na modorra emoliente, como é frequente nos serões rotineiros.

Entretanto, em 1976, transferi-me de Belas-Artes do Porto para Lisboa e a parte da semana em que estava no Porto deixava-me pouco tempo livre; acabou, assim, a tertúlia no Café São Lázaro, restando-nos, mas cada vez mais raros, os tais serões.

O segundo tempo deve-se a um amigo de ambos, o incansável José Cruz Santos – editor de sempre da obra de Eugénio de Andrade, seu devotado admirador e amigo – que, sabendo-me, também eu, sensível à sua poesia, me desafiou a “fazermos qualquer coisa” de parceria com o Eugénio.

A ideia foi germinando até se concretizar: seria um álbum, teria 15 poemas e outros tantos desenhos. Uma vez assente este ponto de partida, logo que nos foi possível reunimo-nos os três, a meu pedido, na sua casa da Foz.

Confesso que o meu propósito neste encontro, tão formalmente combinado, não era tanto afinar agulhas em relação ao álbum mas, principalmente, perscrutar algo vindo do próprio autor, cuja poesia eu conhecia bem. Porém, sempre me recusei a aceitá-la apenas espartilhada no estereótipo do “Poeta do sol, da cal, do corpo apolíneo, da linguagem simples”, etc., etc. Não sei se a obra do artista é apenas o resultado da reflexão do seu fruidor, mas, seja como for, decididamente, não era por este caminho que eu queria seguir para chegar aos desenhos, porque a tão apregoada simplicidade de linguagem dos seus poemas recorda-me, frequentemente, a aparente simplicidade

musical dos “Lieder” de Schubert, tão facilmente trauteáveis, mas onde se esconde, igualmente, uma sublinear e enorme complexidade.

Em suma, não pretendendo nenhum de nós a ilustração do que quer que fosse, mas, talvez, a construção de um discurso tão paralelo quanto possível à substância do conteúdo da poesia do autor, atrevi-me, em dada altura da conversa, a perguntar-lhe quais eram os seus “fantasmas”. Respondeu-me assim: “São o pastor, a criança e a mulher de negro.” Referia-se, obviamente, às camponesas da sua terra.

Perdoe-se-me a expressão: “fui buscar lã e voltei tosquiado”! Cada autor só sabe fazer, honestamente, aquilo de que tem necessidade e eu não estava, naquele período, necessitado de nenhum destes “fantasmas”.

Encurtando razões: não consegui, com grande mágoa minha e depois de imensas tentativas ao longo de meses, fazer um único desenho para o álbum. Acabei por fazer um retrato, embora não seja uma forma de expressão que tenha por hábito cultivar, mas como o Eugénio de Andrade tem uma “máscara” muito marcada… saiu. Enviei-lho acompanhado de uma carta onde tentei explicar-lhe as razões do meu insucesso em relação ao álbum.

Entretanto, no Natal, pediu-me que lhe desenhasse, para um cartão de cumprimentos aos amigos, um pássaro. Enviei-lhe um aviário com “croquis” de pássaros.

E passaram muitos meses.

Certo dia, quando regressei a casa, disseram-me que tinha telefonado, desejava falar comigo e estava muito doente! Infelizmente, eu já tinha conhecimento do seu estado de saúde. Telefonei-lhe de imediato porque o sabia já em casa e, então, tive o imenso privilégio de ouvir o Eugénio de Andrade, com uma voz absolutamente firme, ler-me, com a sua proverbial qualidade de leitura, aquele que, se não erro, terá sido, até hoje, o seu último poema:

“Também ele vai morrer, o verão.

Do verde ao vermelho

as maçãs ardem sobre a mesa.

Ardem de uma luz sua, mais madura.

E servem-me de espelho”

Ao longo da leitura, o desenho que me pedia agora, para o Natal, o Natal que só viria passado quase meio ano, ia-se-me construindo nos olhos.

A referência à morte, expressa no poema, em nada alterava, a meu ver, a imagem revivificadora da dinâmica de complementaridade cromática da alacridade do vermelho e do verde das maçãs, (que, afinal, lhe serviam de espelho).

“Tinha”, julgava eu, o desenho para o cartão!

Porém, no fim da leitura do poema, fez uma pausa longa e, num tom de voz baixo e pausado, ditou-me:

Hospital de Santo António, 21 de Julho de 2002.

Desabou-se-me o mundo!

Obviamente, eu sabia do seu internamento no Hospital de Santo António, da sua falta de saúde e, portanto, não era esse facto que iria condicionar, novamente, a minha capacidade de, a seu pedido, fazer um desenho.

Se da primeira vez os seus “fantasmas” não eram, naquele período da minha vida, suficientemente estimulantes para eu criar algo, agora, e subitamente, a conotação que teve – e sempre terá – a palavra “hospital” estilhaçou, em segundos, a imagem que se me foi construindo ao longo da leitura.

Tudo isto parece ridículo, mas a verdade é que, não sendo eu suficientemente pós-moderno para trabalhar à base de estratégias, mas, talvez romanticamente, apenas motivado por “necessidades interiores”, suei as estopinhas para conseguir acabar por fazer um simples e modestíssimo desenho para um cartão de cumprimentos, porque o desenho, a meu ver, contrariava o poema naquilo que eu lia como essencial.

Quando o enviei, coloquei-lhe o meu ponto de vista, abertamente. Não sei se pela gentileza que sempre tem tido para comigo, mandou imprimir o desenho e disse-me achar tudo bem.

Recentemente, porém, de novo José Cruz Santos decidiu oferecer “Uma prenda para Eugénio com algumas tulipas”, com a colaboração de muita gente das letras e das artes plásticas. Quando tive que escolher o poema que acompanharia mais este desenho, não hesitei um segundo: seria o “Poema à mãe” e, ao construir a imagem, julgo ter finalmente compreendido, pelo menos, um dos seus tais “fantasmas”: o fantasma primordial que me faz ler, sublinearmente, a nostalgia schubertiana?

Ainda não voltei a vê-lo.

Mas a sua poesia está sempre na minha companhia.

6 de Setembro de 2004

04
Mar
12

Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa…

Este fim-de-semana fui finalmente à Gulbenkian para ver a exposição Fernando Pessoa, Plural Como o Universo. E que prazer é reencontrar as palavras de Pessoa, Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos de uma forma tão apelativa e que tão facilmente transformamos num momento de intimidade, só nosso, com uma obra que nos lê de uma forma tão completa..

Esta exposição permite-nos reencontrar as palavras mas também o homem Fernando António Nogueira Pessoa, o seu percurso, a sua história familiar, a sua personagem multifacetada e a sua forma plural de olhar o mundo e a realidade que resultou numa obra poética universal.

O Sal da Língua presta assim uma homenagem sentida à poesia património de Fernando Pessoa deixando, como não podia deixar de ser, as suas palavras:

 

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Alberto Caeiro

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

 

Em jeito de apontamento…

E uma vez que falamos de Pessoa, o Sal da Língua sugere um blogue divertidíssimo chamado “Pessoa para todas as ocasiões“, da autoria de Maria Filomena e Fernando Gouveia, onde Pessoa é citado a propósito de efemérides, estados de espírito, apontamentos do quotidiano ou, simplesmente, sensações.

27
Fev
12

O lugar dos amigos – gastão cruz

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

Transparência e sombra em Eugénio de Andrade, por Gastão Cruz

26.06.2005

O que tem sido dito e escrito sobre Eugénio de Andrade tende, muitas vezes, para a apresentação da sua poesia com uma tonalidade, se não única, largamente dominante: diurna, transparente, de uma harmonia sem dissonâncias. Ele próprio se definia como “um poeta solar”.

Lembro-me de o ouvir dizer, não há muitos anos, que o seu desejo de escrever diminuíra, já que começava a impor-se-lhe uma visão mais amarga da vida, determinada pelo envelhecimento, e não queria ceder à adopção de uma atitude que contrariava a verdadeira natureza da sua poesia. Apesar disso, ela irrompe, com terrível veemência, em alguns poemas escritos “às portas da velhice” – expressão usada no livro “O Sal da Língua”. Entre os poemas finais de “Rente ao Dizer”, por exemplo, uns quantos há que fazem parte dos mais sombrios que Eugénio alguma vez escreveu: “Fim de tarde em S. Lázaro”, “Versos de inverno”, “À boca do poço”, “Último poema”; ou “Cerco”, em que o corpo, “que foi afável/e crédulo e solar”, surge agora “distante e tão cercado/de apagadas águas”.

Não creio, todavia, que este modo menos diurno e solar de encarar o mundo, a vida e, acima de tudo, o corpo, seja exclusivo da última fase de Eugénio de Andrade. Já em escritos anteriores procurei mostrar como, desde sempre, na sua poesia existiram fortes contrastes, que encontram formulação particularmente expressiva num poema como “Litania”: “as mãos, de certo modo, irresponsáveis,/e contudo sombrias, e contudo transparentes”; “as palavras mordendo a solidão,/atravessadas de alegria e de terror”.

O valor atribuído ao corpo, ao desejo do corpo (“como se o teu corpo/fora a vida toda//o desejo hesita/em ser espada ou flor”), faz temer a sua perda, ou, mais exactamente, a perda do seu esplendor. Em “Mar de Setembro”, que o poeta publica em 1961, aos trinta e oito anos, já ele fala da juventude como coisa passada: “Diremos prado bosque/primavera,/e tudo o que dissermos/é só para dizermos/que fomos jovens.”

Não se tem, talvez, também reparado muito como, naquele que continua a ser, porventura, o seu livro mais emblemático, “As Mãos e os Frutos”, o grande livro de exaltação do corpo amoroso e do desejo (“Foi para ti que deitei no chão/um corpo aberto como os animais.”), a noite (“Só sei que passo aqui a tarde inteira/tecendo estes versos e a noite/que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.”), a solidão (“Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.”), a sombra (“A tua vida é uma história triste./ A minha é igual à tua./Presas as mãos e preso o coração,/enchemos de sombra a mesma rua.”), a própria morte (“Em cada fruto a morte amadurece”), têm uma presença decisiva, que acentua a melancolia do poema (na verdade, de um só poema se trata) e o matiza com tonalidades elegíacas, como bem compreendeu Fernando Lopes Graça, no belíssimo ciclo de melodias que, a partir dele, compôs (para quando a regravação, ou, pelo menos, a reedição da gravação existente?).

Eugénio esteve sempre bem consciente de que há duas faces na vida, uma diurna e outra nocturna. Quis vencer o “obscuro domínio”, “penetrar (…) na luz queimada”, rasgar a sombra, perder-se na face transbordante da vida: “Canção, vai para além de quanto escrevo/e rasga esta sombra que me cerca./Há outra face na vida transbordante:/que seja nessa face que me perca.” (“As Mãos e os Frutos”)

Mesmo nos últimos livros, por entre momentos de quase desespero, ressurge a vontade de salvar o corpo da dor da velhice, que é “doença da alma”. E este momentâneo regresso à crença no corpo como “exaltação”, ainda que passada, como “cristal” que importa preservar, proporciona-lhe poemas admiráveis; é o caso de “De ramo em ramo”, de “Ofício de Paciência” (1994): “Não queiras transformar/em nostalgia/o que foi exaltação,/em lixo o que foi cristal./A velhice,/o primeiro sinal/de doença da alma,/às vezes contamina o corpo./Nenhum pássaro/permite à morte dominar/o azul do seu canto./Faz como eles: dança de ramo/em ramo.” Ou, no mesmo livro, “O lugar mais perto”: “O corpo nunca é triste;/o corpo é o lugar/mais perto onde o lume canta./É na alma que a morte faz a casa.”

Fiel, até o fim, ao seu destino de poeta solar, Eugénio jamais ignorou que a amizade íntima com o sol, de que falou Luís Miguel Nava, estava permanentemente ameaçada, sendo preciso lutar por ela. Porque esse “sol” não era, afinal, senão o próprio corpo, astro vulnerável ao tempo e à sua passagem.

13
Dez
11

O lugar dos amigos – Artur Santos Silva

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

Artur Santos Silva

26.06.2005

Eugénio de Andrade é inegavelmente um dos primeiros entre aqueles que fizeram a literatura de Portugal no século XX. Eugénio e Sophia de Mello Breyner são os poetas do meu tempo que mais me marcaram. Eugénio de Andrade foi, ainda, um notável tradutor de poesia e é autor das mais belas descrições sobre o Porto de hoje, cidade onde escolheu viver desde 1950.

A Eugénio devemos, também, excelentes colectâneas de poesia de Pessoa e de Camões, a antologia de poesia portuguesa de que mais gosto e a organização do “Daqui Houve Nome Portugal”, obra que reúne excelentes textos, pinturas e fotografias sobre o Porto, em desafio duas vezes assumido pelo grande editor José da Cruz Santos.

Na poesia de Eugénio de Andrade impressiona-me, em especial, a pureza, a luminosidade e a transparência dos seus versos, bem como a profundidade, a depuração e o rigor da sua palavra. Os seus poemas não têm nada a mais e ditos por ele são ainda mais belos.

Tudo (“os seres e as coisas“) ganha uma outra dimensão na sua escrita: os frutos, as árvores e as flores – os jacarandás do Largo das Virtudes e do Jardim de S. Lázaro (“um jacarandá em flor é a anunciação do paraíso“), a magnólia da Praça da Liberdade, as mimosas da encosta de Gaia – os gatos, as gaivotas, as pombas, os pardais, as crianças e os jovens.

Conheci-o pessoalmente no final dos anos 60, na casa de Agustina e Alberto Luís. Discreto, austero – “sem o luxo que degrada a vida” -, tinha uma relação de grande afectividade e ternura com as pessoas de quem gostava. De grande lealdade e generosidade para com os seus amigos; como dizia, “a generosidade é outro nome da inteligência“. Apreciava nos outros a exigência de espírito e o rigor – “eu gosto de gente capaz de fazer da sua vida a mais bela das suas obras“.

Merecia bem não ter tido, como disse Arnaldo Saraiva no seu funeral, ” uma morte tão sofrida como a de Cristo, apesar de não ter tido uma cruz“.

Gostaria, em especial, de recordar o que escreveu sobre “o ritmo, a cor, a luz” do Porto e de que me sinto perto quando apreciamos os pontos fortes e as fragilidades da cidade e da sua gente.

Não sei se o Porto é uma cidade de trabalho… Sei que é uma cidade sem imaginação para a alegria. O trabalho é aqui muito triste – pois fora dele não há mais nada. É mesmo por não haver mais nada que se tem a impressão de toda a cidade viver exclusivamente para o trabalho...” “Em nome da integridade das suas tradições, a cidade antipatiza com toda a modernidade, se ganha em carácter, que o tem, e bem vincado, perde em espírito civilizado. Eis o que penso, e não se diga que não gosto do Porto – como qualquer grande amor, o meu, por esta cidade, é infeliz.”

Era um burgo pobre, sujo, reles até – mas gostaria tanto de lhe pôr um diadema na cabeça.”

Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade tão masculina sem nenhum peso de erudição que é coisa tão inimiga da poesia.”

Há no Porto, à beira do Outono, manhãs de uma perfeição total. A vinha virgem, com as folhas escarlates…”, “os castanheiros-da-Índia abrem os ouriços e deixam cair os frutos de pele lustrosa e orvalhada; a madressilva guarda ainda algumas flores, essas últimas onde se refugia o frágil aroma da eternidade.” “Eu queria falar destes manhãs de uma beleza que nos atravessa de mil maneiras, e dizer delas que, tal como o amor, não têm nome, nem idade: serão apenas música…

Nevoeiro

Viera do rio pela mão duma criança.

a cidade é agora de porcelana branca.

olhas o rio

como se fora o leito

da tua infância:

lembras-te da madressilva

no muro do quintal,

dos medronhos que colhias

e deitavas fora,

dos amigos a quem mandavas

palavras inocentes

que regressavam a sangrar,

lembras-te da tua mãe

que te esperava

com os olhos molhados de alegria.”

O grande poeta partiu. Temos agora que mostrar ter merecido a sua amizade, valorizar o seu exemplo, contribuindo para que a Fundação Eugénio de Andrade se assuma como uma instituição de excelência, quer na educação da sensibilidade de todos nós, em especial dos mais novos, quer na formação de professores para que saibam ensinar a sua obra. Finalmente, impõe-se divulgar ainda melhor a notável, extensa e diversificada obra de Eugénio de Andrade.

Só assim “a minha morte é tão natural como a minha vida”.

10
Out
11

O lugar dos amigos – Pedro Eiras

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

Eugénio, de cor, por Pedro Eiras

26.06.2005

Não sei que acaso me governa, me dirige os dedos na procura do “cd”, coloca agora na aparelhagem Schubert, a “Winterreise“.

A que razão obedeço, para ouvir nestes dias de calor uma viagem de inverno? Mas já o frio entra nestas paredes e me amarrota.

Não assim o poeta. Nele o verão é inteiro como uma nudez que pudesse despir-se toda. Quer dizer: despir a própria pele.

Nudez de alguns frutos de Lawrence, de alguns quartos de Kavafis. Angelical, mas sem a ofuscação trágica de Rilke.

E contudo, descubro agora, foi por causa desse verão perdido que fui ouvir a “Winterreise“.

O poeta sabia o sol sem sombra. Eu permaneço entre o medo da sede. É inverno em Junho.

A poesia é dança para lá da coragem, eu escrevo em prosa.

Eugénio, de cor, de coração, incertamente na minha memória: “pensei: devíamos morrer assim. Assim: explodir no ar.” Talvez as palavras estejam erradas; o coração deve estar certo.

Há muito tempo, descobri em Eugénio esta verdade que nunca me abandonou. Explodir no ar: despir a pele e ser pássaro de vento.

Junho de 2005

21
Set
11

O Lugar dos amigos – Júlio Resende (1917-2011)

O mestre Júlio Resende deixou-nos hoje.

O Sal da Língua presta a homenagem ao pintor, ao homem, ao mestre, ao visionário, ao amante da vida, ao grande amigo de Eugénio de Andrade.

O pintor dá agora a mão ao poeta.

Resta-nos olhar com os olhos que nos deixou, abertos sobre as cores que espraiou na tela e que contam o mundo vivo, pulsante. 

Esta semana serão publicados no Sal da Língua dois textos do poeta dirigidos ao amigo Resende.

01
Ago
11

O Lugar dos Amigos – Mário de Carvalho

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 
 

Carta a Eugénio de Andrade, por Mário de Carvalho, 25.06.2005

Nunca na vida escrevi um poema e esta minha incapacidade não é aqui declarada para legitimar qualquer ufania. Outros tentaram, a maior parte com má estrela, mas ninguém lhes há-de tirar o mérito de se haverem dado à aventura, com mais ou menos consciência dos sagrados terrenos para onde partiam.

É que os poetas são feiticeiros. Aquela arte não está ao alcance de qualquer um. Abençoados à nascença, é-lhes conferido um Dom, que um dia germinará e dará acesso à fonte dos mistérios donde lhes vem o poder de ordenar mutações do mundo, de lhes roubar as coisas, a língua e os ritmos, para os transfigurar, e construir um mundo à parte, impregnado duma linguagem outra.

Tudo o que parece banal, rude, comezinho, pode ganhar grandeza e preço. E isso depende do toque mágico do feiticeiro que arregimenta e combina as palavras, como entes vivos, submetidos ao seu poder e regra.

Raramente os feiticeiros são bem compreendidos. Os poderes apreciam pouco o desafio, os povos deixam-se aprisionar pelo instante. De maneira que escrever poesia é sempre um sinal de resistência, uma afirmação de humanidade, uma esperança de salvação, não raro contra a vontade e o desinteresse dos outros. De quem é salvo.

Eu sempre tive um respeito, muito tecido de assombro e espanto, para com os grandes poetas que têm visões e poderes que eu não atinjo.

E Eugénio de Andrade é uma das minhas grandes referências, desde miúdo, em tempos difíceis, em tempos melhores. E para os que tempos fossem, apesar de tudo, melhores, também a sua poesia contribuiu, de par com um posicionamento cívico que nunca se conformou com tiranias e beleguins.

Não se lembrará, decerto, de uma minha visita a sua casa, na Foz, do cavalheirismo com que me recebeu, e de um colóquio que aí teve lugar, em que o Eugénio de Andrade quis ter a gentileza de participar. Falava-se sobre prosa, assunto que está ainda, embora pobremente, nos meus estreitos horizontes. E foi, numa intervenção serena, a palavra de Eugénio de Andrade que veio mostrar como a poesia pode valorizar a prosa, à maneira, sugiro eu, da têmpera, sem a qual o aço se desqualifica ou, até, se esboroa e desfaz. Falou-se de “Moby Dick” e a forma como o Eugénio de Andrade relembrou, entoando, o célebre “incipit” “Chamam-me Ismael…” traduziu, por si só, a intensidade daquelas primeiras linhas de uma obra em que o sublime é tocado. O sublime, matéria da sua especialidade.

Era isto que eu queria dizer-lhe, antes do meu abraço.

Mário de Carvalho

08
Jul
11

O lugar dos amigos – José Manuel dos Santos

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.


“Eugénio”

José Manuel dos Santos, publicado a 18 de Junho de 2007.


Aquela tarde era eu a recebê-la no rosto, a olhar o clamor da claridade, a temer que ela se desfizesse em noite. Cheguei, toquei à campainha, a porta abriu-se, subi os degraus da escada. Esperava-me naquela encenação do silêncio, na sala larga de livros e de luz. Olhei-o e ele olhou-me com os olhos duros de atenção. Os gestos eram-lhe rituais. Sentou-se e convidou-me a sentar naqueles sofás muito feios. Na parede, um quadro de Júlio Resende, dos melhores tempos, testemunhava a amizade e as suas dádivas. Olhámos pela janela o encontro do rio com o mar. Falámos do tempo, do azul, da luz serena, que torna o Porto outra cidade, e ele disse-me que isso lhe bastava para ser feliz. Usava as palavras como se as cercasse, as puxasse para o Mundo, as tornasse matéria-prima da sua voz, dando-lhe um alcance físico que as ecoava, as prolongava, as estirava. Um CD sobre a mesa levou-nos a falar da soberania da música sobre a sua vida nua. Nesses dias, ele ouvia, repetidamente, a Sonata Nº 29, Opus 106, de Beethoven, chamada Hammerklavier. Com mãos meticulosas, que desenhavam o ar, falou da arquitectura daqueles sons, da sucessão dos andamentos. Depois, a conversa tornou-se pergunta. Interrogou-me sobre este e sobre aquele. Eu respondia, ele olhava a resposta como se fosse escrita. E falámos de poesia. E de poetas. E de poemas.


De repente, a voz que eu ouvia soou exasperada e alta como o mar de Dezembro. Gritava a sua alergia aos “poetas caraveleiros, os que, mesmo dizendo-se de esquerda, fizeram de Camões o poeta oficial que Salazar quis que fosse”. Acusava, citava nomes como se os citasse num tribunal eterno. “Na minha poesia não há uma única caravela”, exclamava. Lentamente, o vento do seu ataque mudou de direcção e lamentou os caminhos em que a nova poesia andava: “Esse barroco surrealizante, tão gasto, tão desinteressante, dos maus discípulos de Herberto Helder, ele, sim, um grande poeta…” Para o acalmar, enquanto o chá descia nas chávenas, falei de Pessanha, de Pessoa, de Pero Meogo. Abriu a admiração e o rosto. Contou uma história passada com o Botto. Falou da irmã de Lorca. E de Yourcenar, que tinha conhecido em 1960, num Porto ido, onde conversaram sobre o Rei D. Pedro e os seus amores, não apenas por Inês de Castro mas também por um escudeiro. Falámos da vida e da paixão e do desejo e da morte. Esse era um tema que agora se tinha colado à sua boca, como se de uma outra boca se tratasse.


Eugénio de Andrade morreu há dois anos. A Fundação que tem o seu nome e onde encontrou a última residência na Terra está ameaçada de abandono: transformou-se na “haste mais alta da melancolia”. Aquela casa que era, para ele, símbolo de glória e de imortalidade é hoje sinal de esquecimento e de morte. Olhei-a há dias e o abutre da tristeza fez de mim a sua presa. Lembrei-me das tardes ali passadas, como esta que conto – a última. Recordei as horas, mais alegres e mais perversas, em que estive no estreito andar da Rua Duque de Palmela. Mas a sua única, a sua verdadeira casa era, é a sua obra. Só ela lhe foi consolação, fuga e abrigo do frio do Mundo.

07
Abr
11

O lugar dos amigos – Eduardo Pitta

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

O Mestre da Elipse, por Eduardo Pitta

26.06.2005

Nos jornais da província, é ou era frequente vir notícia do aniversário do juiz da terra, o trânsito de um notável, ou o matrimónio da filha do senhor presidente da Câmara. Não tem mal esse paroquialismo. É uma forma de “nobilitação” como qualquer outra.

Atingido o patamar nacional, a dimensão passa a ser outra. Por isso me causa estranheza o lastro provinciano de algumas manifestações associadas à morte de Eugénio de Andrade. Ouvir lamentar a fraca afluência de políticos “de Lisboa”, ou, pior ainda, ver no cemitério do Prado do Repouso um dirigente partidário a perorar como se estivesse num comício, lembra fatalmente as ominosas práticas de certos regimes. Eugénio tem direito a ser tratado com respeito, significando isso que dispensa a lógica “apparatchik”. Uma coisa é a comoção dos amigos próximos, merecedora de reserva, outra bem diferente a falta de pudor de quem não se coíbe de recordar quanto Eugénio lhe ficou a dever o “conforto” dos últimos anos. As Fundações existem para preservar a memória ou potenciar o estudo da obra dos patronos, sendo irrelevante a eventual (e muito rara) vertente doméstica.

Um poeta, e por maioria de razão um poeta com o perfil de Eugénio, sobrevive na obra que deixa. Ler os seus livros é a homenagem que lhe devemos. Lê-lo e manter o que dissemos enquanto vivia. Os poemas, os textos em prosa, tão esquecidos, tão pouco citados – quem se lembra da colectânea de 1968 onde nos fala de Pascoaes, Lorca, Pavia, Rosalía, Resende, Nobre, e outros, “Os Afluentes do Silêncio”, precisamente -, as entrevistas que deu, e foram tantas que algumas passaram despercebidas, mas numa delas, livre de entrelinhas, idiossincrática entre todas, Eugénio não teve pejo em listar aquilo que detestava, o verbo é seu: fado, sebastianismo, filosofia portuguesa, o Papa, os militares, a obra de Camilo, Wagner, Elizabeth Taylor, os sonetos de Florbela Espanca, as praias do Algarve, o bispo de Braga, migas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Thatcher, Almada Negreiros, folclore, travestis, pupilos do exército, exibicionismo, sentimentalismo, surrealismo, poesia barroca, a arquitectura de Taveira, Almodóvar, os pastorinhos de Fátima, a poesia de Ginsberg, o carnaval brasileiro, a pintura de Rubens, os acrósticos, Andy Warhol, “O Retrato de Dorian Gray”, louça das Caldas, Madonna, castelos da Baviera, pilhérias, comer com mais de uma pessoa, etc. Por contraponto, também dizia, na mesma entrevista, do que gostava: entre outras coisas, dos esquilos de Central Park, de Virginia Woolf, de Mozart, de Oxford, dos madrigais de Monteverdi, de Moby Dick, de espirituais negros, das dunas de Long Island no Inverno, das Goldberg Variations, de framboesas, de Walt Whitman, de coros alentejanos, da mãe, e de um verso de Cesariny: “Conto os meus dias, tangerinas brancas”. As coisas amadas correspondem à imagem que lhe ficou colada. Mas qualquer coisa me diz que o Eugénio mais autêntico passa pelo inventário do abominado. Aos poetas não se exige que sejam “correctos”, apenas se lhes pede genuinidade. Como disse Joaquim Manuel Magalhães, “transformá-lo no poeta oficial daqueles que não reconhecem os poetas maioritários [...] coloca-o na linha inquietante dos homenageáveis que se deixam homenagear.” (cf. “Os Dois Crepúsculos”, 1981, p. 93) Insistir na “veneração” acrítica é um disparate e um erro.

Um dos sintomas desse culto passa pelo branqueamento da homossexualidade de Eugénio. Lembro-o sem intuito de estabelecer qualquer tipo de “homonormatividade”. Longe disso. Acontece que há uma coisa chamada identidade sexual, a qual, no caso de Eugénio, sofreu entorse sistemática. Se é verdade que tudo assenta numa “elemental” ambiguidade, falando e não falando “do que tanto se calava / ou só obliquamente referia”, não podemos ignorar a obsidiante presença do corpo masculino: “As Janelas / abrem [...] para a extrema embriaguez / de um corpo nu nas areias. / / As janelas abrem para a loucura / da sombra de um lírio entre as pernas. / / Abrem para a luz extenuada / e masculina das colinas, / / para as águas tresmalhadas, / para a língua em chama nas virilhas [...]“. A repressão teve a sua quota: nas edições anteriores a 1966, o último verso do poema VIII de “As Mãos e os Frutos” era “uma mulher pura como os animais”. A partir desse ano passou a ser “um corpo aberto como os animais”. É o triunfo do referente sem género. Mestre da elipse, Eugénio não mais parou de ser incensado.

Mas, onde quer que esteja, estou em crer que está a fazer figas pela “desforra”. Eugénio soube sempre que o beija-mão nada tinha de inocente. Ter-se posto a jeito foi o ónus que sofreu pela tença.

30
Jan
11

Poema para Sophia Andresen

Da exposição de Sophia trago a inspiração da mulher, da mãe, da cidadã, da pessoa e, claro está, da poeta e da amante da beleza em todas as coisas e da justiça acima de tudo. E trago um poema também, para o Sal da Língua, do querido Eugénio de Andrade.

Poema para a Sophia Andresen de Eugénio de Andrade

(Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen)

Não sei porque floriram no meu rosto

os olhos e os rostos que há em ti.

Floriram por acaso, ao sol de agosto

sem mesmo haver agosto ou sol em mim.

Não sei porque floriram: se o orvalho as queima

(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)

Tão estranho! florirem no meu rosto

olhos e rostos que não posso ver.

Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1946




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Maio 2012
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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