Arquivo da categoria 'As Mãos e os Frutos (1948)'

05
Out
11

Em cada fruto a morte amadurece

Em cada fruto a morte amadurece,

deixando inteira, por legado,

uma semente virgem que estremece

logo que o vento a tenha desnudado.

 

In: As Mãos e os Frutos (1948) 

12
Mai
11

Se vens à minha procura

Se vens à minha procura,

eu aqui estou. Toma-me, noite,

sem sombra de amargura,

consciente do que dou.

 

Nimba-te de mim e de luar.

Disperso em ti serei mais teu.

E deixa-me derramado no olhar

de quem já me esqueceu.

 

In: As mãos e os Frutos (1948)

01
Set
10

Fecundou-te a vida nos pinhais

Fecundou-te a vida nos pinhais.

Fecundou-te de seiva e de calor.

Alargou-te o corpo pelos areais

onde o mar se espraia sem contorno e cor.

Pôs-te sonho onde havia apenas

silêncio de rosas por abrir,

e um jeito nas mãos morenas

de quem sabe que o fruto há-de surgir.

Brotou água onde tudo era secura.

Paz onde morava a solidão.

E a certeza de que a sepultura

é uma cova onde não cabe o coração.

23
Jun
10

Somos folhas breves onde dormem

Somos folhas breves onde dormem

aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

Cada ave se transforma noutro ser.

26
Abr
10

Imagem

A lembrança do dia

é leve de se ter:

garganta de um jardim,

só aroma ao descer.

14
Abr
10

Tu és a esperança, a madrugada

Tu és a esperança, a madrugada.

Nasceste nas tardes de setembro

quando a luz é perfeita e mais doirada,

e há uma fonte crescendo no silêncio

da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,

inventei brumas, lagos densos,

e deixei no ar braços suspensos

ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho

meus versos que não podem ser mais nada.

Esperança minha, onde meus olhos bebem

fundo, como quem bebe a madrugada.

28
Mar
10

Noite transfigurada

Criança adormecida, ó minha noite,

noite perfeita e embalada

folha a folha,

noite transfigurada,

ó noite mais pequena do que as fontes,

pura alucinação da madrugada

– chegaste,

nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro

nimbada de astros,

alta e despida

de soluços e lágrimas e gritos

–  ó minha noite, namorada

de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,

de pálpebras descidas;

leve no ar que respiramos,

nítida no ângulo das esquinas

– ó noite mais pequena do que a morte:

nas mãos abertas onde me fechaste

ponho os meus versos e a própria sorte.

01
Fev
10

Da cor do feno, as tuas mãos completas

Da cor do feno, as tuas mãos completas
erguem-se abertas e pedindo
a não sei que deus o seu destino
de cavalo indomável como um rio;
suspensas, as aves bebem o teu grito
e ficam cegas a tremer de frio.
21
Jan
10

Olhos postos na terra, tu virás

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.
26
Nov
09

Cantas. E fica a vida suspensa.

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Maio 2012
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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