Arquivo da categoria 'As Palavras Interditas (1951)'

30
Dez
09

Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

O "Sal da Língua" deseja a todos um ano de 2010 pleno de encontros e de descobertas!
07
Abr
09

Canção

Hoje venho dizer-te que nevou

no rosto familiar que te esperava.

Não é nada, meu amor, foi um pássaro,

a casca do tempo que caiu,

uma lágrima, um barco, uma palavra.

 

Foi apenas mais um dia que passou

entre arcos e arcos de solidão;

a curva dos teus olhos que se fechou,

uma gota de orvalho, uma só gota,

secretamente morta na tua mão.

13
Mar
09

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas

um frio que se espalha na cidade.

Não é noite nem dia, é o tempo ardente

da memória das coisas sem idade.

 

O que sonhei cabe nas tuas mãos

gastas a tecer melancolia:

um país crescendo em liberdade,

entre medas de trigo e alegria.

 

Porém a morte passeia nos quartos,

ronda as esquinas, entra nos navios,

o seu olhar é verde, o seu vestido branco,

cheiram a cinza os seus dedos frios.

 

Entre um céu sem cor e montes de carvão

o ardor das estações cai apodrecido;

os mastros e as casas escorrem sombra,

só o sangue brilha endurecido.

 

Não é verdade tanta loja de perfumes,

não é verdade tanta rosa decepada,

tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,

tanto relógio, tanta pomba assassinada.

 

Não quero para mim tanto veneno,

tanta madrugada varrida pelo gelo,

nem olhos pintados onde morre o dia,

nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

 

Amanhece.

            Um galo risca o silêncio

desenhando o teu rosto nos telhados.

Eu falo do jardim onde começa

um dia claro de amantes enlaçados.

03
Dez
08

As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto

encostado ao rosto dos navios.

Sem nenhum destino flutuam nas cidades,

partem no vento, regressam nos rios.

 

Na areia branca, onde o tempo começa,

uma criança passa de costas para o mar.

Anoitece. Não há dúvida, anoitece.

É preciso partir. É preciso ficar.

 

Os hospitais cobrem-se de cinza.

Ondas de sombra quebram nas esquinas.

Amo-te… E entram pela janela

as primeiras luzes das colinas.

 

As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas suas curvas claras.

 

Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

estas mãos nocturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.

 

E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens nuas, desoladas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas.

30
Set
08

Vegetal e só

É outono, desprende-te de mim.

 

Solta-me os cabelos, potros indomáveis

sem nenhuma melancolia,

sem encontros marcados,

sem cartas a responder.

 

Deixa-me o braço direito,

o mais ardente dos meus braços,

o mais azul,

o mais feito para voar.

 

Devolve-me o rosto de um verão

sem a febre de tantos lábios,

sem nenhum rumor de lágrimas

nas pálpebras acesas.

 

Deixa-me só, vegetal e só,

correndo como rio de folhas

para a noite onde a mais bela aventura

se escreve exactamente sem nenhuma letra.

03
Set
08

Viagem

Iremos juntos separados,

as palavras mordidas uma a uma,

taciturnas, cintilantes

– ó meu amor, constelação de bruma,

ombro nos meus braços hesitantes.

Esquecidos, lembrados, repetidos

na boca dos amantes que se beijam

no alto dos navios;

desfeitos ambos, ambos inteiros,

no rasto dos peixes luminosos,

afogados na voz dos marinheiros.

21
Ago
08

Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como num bosque.

 

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas na luz do amanhecer.

 

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser a nostalgia das areias.

 

É a hora de adormecer na tua boca,

como um marinheiro num barco naufragado,

o vento na margem das espigas.

15
Mai
08

Mar, mar e mar

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração.

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

03
Mar
08

Retrato com sombra

Que morte é a sombra deste retrato,

onde eu assisto ao dobrar dos dias,

órfão de ti e de uma aventura suspensa?

 

Tu não eras só este perfil.

Tu não eras só este sossego aconchegado

nas mãos como num regaço.

Tu não eras apenas

este horizonte de areia com árvores distantes.

 

Falta aqui tudo o que amámos juntos,

o teu sorriso com as ruas dentro,

o secreto rumor das tuas veias

abrindo sulcos de palavras fundas

no rosto da noite inesperada.

Falta sobretudo à roda dos teus olhos

a pura ressonância da alegria.

 

Lembro-me de uma noite em que ficámos nus

para embalar um beijo ou uma lágrima,

lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,

largo, intacto,

nas pálpebras molhadas dos lírios.

 

Tu não eras ainda este perfil

com uma rosa de cinza na mão direita.

Eu andava dentro de ti

como um pequeno rio de sol

dentro da semente,

porque nós – é preciso dizê-lo –

tínhamos nascido um dentro do outro

naquela noite.

 

Esse é o teu rosto verdadeiro;

o rosto que vou juntando ao teu retrato

como quando era pequeno:

recortando aqui,

colando ali,

até que uma fonte rasgue a tua boca

e a noite fique transbordante de água.

01
Fev
08

Adeus

Como se houvesse uma tempestade

escurecendo os teus cabelos,

ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,

carregada de flor e dos teus dedos;

 

como se houvesse uma criança cega

aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve, e tu calavas

a voz onde contigo me perdi.

 

Como se a noite viesse e te levasse,

eu era só fome o que sentia;

digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.

 

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,

e sobre as nuvens mar perfeito,

ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Dezembro 2009
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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