Arquivo da categoria 'Branco no Branco (1984)'

20
Out
09

Um amigo é às vezes o deserto

Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre
 
um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;
 
é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.
 
O real é a palavra.
27
Ago
09

A chuva cai na poeira como no poema

A chuva cai na poeira como no poema
de Li Bai. No sul
os dias têm olhos grandes
e redondos; no sul o trigo ondula,
 
as suas crinas dançam no vento,
são a bandeira
desfraldada da minha embarcação;
 
no sul a terra cheira a linho branco,
a pão na mesa,
o fulvo ardor da luz invade a água,
caindo na poeira, leve, acesa,
 
Como no poema.
04
Mai
09

Regressar ao corpo, entrar nele

Regressar ao corpo, entrar nele
sem receio da insurreição da carne.
Nenhuma boca é fria,
mesmo quando atravessou
o inverno. Uma boca é imortal
sobre outra boca: diamante
aceso, estrela aberta
quando a luz irrompe, invade
ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.
Despertos, puros no seu pulsar,
aí os tens: esplendorosos,
duros.
28
Mar
09

Sobre a mesa a fruta arde

Sobre a mesa a fruta arde: pêras,

laranjas, maçãs, pressentem

a íntima brancura

dos dentes, o desejo represado,

 

o espesso vinho de vozes antigas;

arde a melancolia ao inventar

outra cidade,

outro país, outros céus onde lançar

 

os olhos e o riso: deita-te comigo,

trago-te do mar

a crespa luz da espuma,

nos flancos este amor retido.

24
Fev
09

Faz uma chave, mesmo pequena

Faz uma chave, mesmo pequena,

entra na casa.

Consente na doçura, tem dó

da matéria dos sonhos e das aves.

 

Invoca o fogo, a claridade, a música

dos flancos.

Não digas pedra, diz janela.

Não sejas como a sombra.

 

Diz homem, diz criança, diz estrela.

Repete as sílabas

onde a luz é feliz e se demora.

 

Volta a dizer: homem, mulher, criança.

Onde a beleza é mais nova.

12
Nov
08

Às vezes entra-se em casa com o outono

Às vezes entra-se em casa com o outono

preso por um fio,

dorme-se então melhor,

mesmo o silêncio acabou por se calar.

 

Talvez pela noite fora ouça cantar o galo,

e um rapazito suba as escadas

com um cravo

e notícias de minha mãe.

 

Nunca fui tão amargo, digo-lhe então,

nunca à minha sombra a luz

morreu tão jovem

e tão turva.

 

Parece que vai nevar.

17
Out
08

Raivosos, atiram-se contra a sombra

Raivosos, atiram-se contra a sombra

de umas acácias que por ali havia,

o corpo dorido de tanto desejar.

Olharam em redor, ninguém os vira,

 

a terra era de areia, a sombra dura,

também a carne endurecera

e secara a boca, só os olhos

tinham ainda alguma água fresca.

 

Os dedos cegos foram os primeiros

a rasgar, ferir, e logo os dentes

morderam, nem sequer

ao sexo deram tempo de penetrar.

 

Eram muito jovens; a terra não,

a terra estava exausta,

o coração mordido pelas vespas,

só queria morrer.

19
Ago
08

O mar. O mar novamente à minha porta

O mar. O mar novamente à minha porta.

Vi-o pela primeira vez nos olhos

de minha mãe, onda após onda,

perfeito e calmo, depois,

 

contra as falésias, já sem bridas.

Com ele nos braços, quanta,

quanta noite dormira,

ou ficara acordado ouvindo

 

seu coração de vidro bater no escuro,

até a estrela do pastor

atravessar a noite talhada a pique

sobre o meu peito.

 

Este mar, que de tão longe me chama,

que levou na ressaca, além dos meus navios?

21
Jul
08

Concentro os olhos no mais precário

Concentro os olhos no mais precário

lugar do teu corpo: morre-se

em Agosto com as aves:

de solidão.

 

Neste instante sou imortal:

tenho os teus braços em redor

do corpo todo:

as areias escaldam: é meio-dia.

 

Do teu peito avista-se o mar

caindo a prumo:

morre-se em Agosto na tua boca:

com as aves.

26
Jun
08

É um lugar ao sul

É um lugar ao sul, um lugar onde

a cal

amotinada desafia o olhar.

 

Onde viveste. Onde às vezes no sono

vives ainda. O nome prenhe de água

escorre-te da boca.

 

Por caminhos de cabras descias

à praia, o mar batia

naquelas pedras, naquelas sílabas.

 

Os olhos perdiam-se afogados

no clarão

do último ou do primeiro dia.

 

Era a perfeição.

 

NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO:

No próximo sábado, 28 de Junho, a Fundação Eugénio de Andrade terá o prazer de receber António Rebordão Navarro para mais uma sessão do ciclo “Encontros com Poetas do Porto II”. Como já vem sendo habitual, haverá uma breve apresentação do Poeta, seguida de leitura de poemas e de diálogo com o público. A sessão terá início às 18h30 e a entrada é livre.

 




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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