Um amigo é às vezes o deserto, outras a água. Desprende-te do ínfimo rumor de agosto; nem sempre um corpo é o lugar da furtiva luz despida, de carregados limoeiros de pássaros e o verão nos cabelos; é na escura folhagem do sono que brilha a pele molhada, a difícil floração da língua. O real é a palavra.
Arquivo da categoria 'Branco no Branco (1984)'
Um amigo é às vezes o deserto
A chuva cai na poeira como no poema de Li Bai. No sul os dias têm olhos grandes e redondos; no sul o trigo ondula, as suas crinas dançam no vento, são a bandeira desfraldada da minha embarcação; no sul a terra cheira a linho branco, a pão na mesa, o fulvo ardor da luz invade a água, caindo na poeira, leve, acesa, Como no poema.
Regressar ao corpo, entrar nele
Regressar ao corpo, entrar nele sem receio da insurreição da carne. Nenhuma boca é fria, mesmo quando atravessou o inverno. Uma boca é imortal sobre outra boca: diamante aceso, estrela aberta quando a luz irrompe, invade ombros, peitos, coxas, nádegas, falos. Despertos, puros no seu pulsar, aí os tens: esplendorosos, duros.
Sobre a mesa a fruta arde
Sobre a mesa a fruta arde: pêras,
laranjas, maçãs, pressentem
a íntima brancura
dos dentes, o desejo represado,
o espesso vinho de vozes antigas;
arde a melancolia ao inventar
outra cidade,
outro país, outros céus onde lançar
os olhos e o riso: deita-te comigo,
trago-te do mar
a crespa luz da espuma,
nos flancos este amor retido.
Faz uma chave, mesmo pequena
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.
Às vezes entra-se em casa com o outono
preso por um fio,
dorme-se então melhor,
mesmo o silêncio acabou por se calar.
Talvez pela noite fora ouça cantar o galo,
e um rapazito suba as escadas
com um cravo
e notícias de minha mãe.
Nunca fui tão amargo, digo-lhe então,
nunca à minha sombra a luz
morreu tão jovem
e tão turva.
Parece que vai nevar.
Raivosos, atiram-se contra a sombra
de umas acácias que por ali havia,
o corpo dorido de tanto desejar.
Olharam em redor, ninguém os vira,
a terra era de areia, a sombra dura,
também a carne endurecera
e secara a boca, só os olhos
tinham ainda alguma água fresca.
Os dedos cegos foram os primeiros
a rasgar, ferir, e logo os dentes
morderam, nem sequer
ao sexo deram tempo de penetrar.
Eram muito jovens; a terra não,
a terra estava exausta,
o coração mordido pelas vespas,
só queria morrer.
O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,
contra as falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo
seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.
Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?
Concentro os olhos no mais precário
lugar do teu corpo: morre-se
em Agosto com as aves:
de solidão.
Neste instante sou imortal:
tenho os teus braços em redor
do corpo todo:
as areias escaldam: é meio-dia.
Do teu peito avista-se o mar
caindo a prumo:
morre-se em Agosto na tua boca:
com as aves.
É um lugar ao sul
É um lugar ao sul, um lugar onde
a cal
amotinada desafia o olhar.
Onde viveste. Onde às vezes no sono
vives ainda. O nome prenhe de água
escorre-te da boca.
Por caminhos de cabras descias
à praia, o mar batia
naquelas pedras, naquelas sílabas.
Os olhos perdiam-se afogados
no clarão
do último ou do primeiro dia.
Era a perfeição.
No próximo sábado, 28 de Junho, a Fundação Eugénio de Andrade terá o prazer de receber António Rebordão Navarro para mais uma sessão do ciclo “Encontros com Poetas do Porto II”. Como já vem sendo habitual, haverá uma breve apresentação do Poeta, seguida de leitura de poemas e de diálogo com o público. A sessão terá início às 18h30 e a entrada é livre.