Arquivo da categoria 'Coração do Dia (1958)'

16
Abr
09

Da memória

Branco, branco e orvalhado,

o tempo das crianças e dos álamos.

06
Out
08

Lisboa

Alguém diz com lentidão:

«Lisboa, sabes…»

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,            

algumas rugas finas

a espreitar-me os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.

 

Eu sei. E tu, sabias?

29
Ago
08

Introdução ao canto

Ergue-te de mim,

substância pura do meu canto.

Luz terrestre, fragância.

Ergue-te, jasmim.

 

Ergue-te, e aquece

a cal e a pedra,

as mãos e a alma.

Inunda, reina, amanhece.

 

Ao menos tu sê ave,

primavera excessiva.

Ergue-te de mim:

canta, delira, arde.

26
Jul
08

Despertar

É um pássaro, é uma rosa,

é o mar que me acorda?

Pássaro ou rosa ou mar,

tudo é ardor, tudo é amor.

Acordar é ser rosa na rosa,

canto na ave, água no mar.

15
Jun
08

Um rio te espera

Estás só, e é de noite,

na cidade aberta ao vento leste.

Há muita coisa que não sabes

e é já tarde para perguntares.

Mas tu já tens palavras que te bastem,

as últimas,

pálidas, pesadas, ó abandonado.

 

Estás só

e ao teu encontro vem

a grande ponte sobre o rio.

Olhas a água onde passaram barcos,

escura, densa, rumorosa

de lírios ou pássaros nocturnos.

 

Por um momento esqueces

a cidade e o seu comércio de fantasmas,

a multidão atarefada em construir

pequenos ataúdes para o desejo,

a cidade onde cães devoram,

com extrema piedade,

crianças cintilantes

e despidas.

 

Olhas o rio

como se fora o leito

da tua infância:

lembras-te da madressilva

no muro do quintal,

dos medronhos que colhias

e deitavas fora,

dos amigos a quem mandavas

palavras inocentes

que regressavam a sangrar,

lembras-te da tua mãe

que te esperava

com os olhos molhados de alegria.

 

Olhas a água, a ponte,

os candeeiros,

e outra vez a água;

a água;

água ou bosque;

sombra pura

nos grandes dias de verão.

 

Estás só.

Desolado e só.

E é de noite.

27
Mai
08

Coração do dia

Olhas-me ainda, não sei se morta:

desprendida

de inumeráveis, melancólicos muros;

só lembrada

que fomos jovens e formosos,

alados e frescos e diurnos.

 

De que lado adormeces?

Alma: nada te dói?

Não te dói nada, eu sei;

agora o corpo é formosura

urgente de ser rio:

ao meu encontro voa.

 

Nada te fere, nada te ofende.

Numa paisagem de áua,

tranquilamente,

estendes os teus ramos

que só a brisa afaga.

A brisa e os meus dedos

fragantes do teu rosto.

 

Mãe, já nada nos separa.

Na tua mão me levas,

uma vez mais,

ao bosque onde me sento

à tua sombra.

– Como tu cresceste!

– suspiras.

 

Alma: como eu cresci.

E como tu és

agora

pequena, frágil, orvalhada.

10
Abr
08

As palavras

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

 

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam;

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

 

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

 

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

16
Fev
08

Os amigos

Os amigos amei

despido de ternura

fatigada;

uns iam, outros vinham;

a nenhum perguntava

porque partia,

porque ficava;

era pouco o que tinha,

pouco o que dava,

mas também só queria

partilhar

a sede da alegria –

por mais amarga.

31
Jan
08

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.

  

Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de setembro.

  

Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?

  

Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.

 

Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?  

 

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.

06
Jan
08

Sem ti

E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,

sem álamos,

sem luas.

 

Só nas minhas mãos

ouço a música das tuas.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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