Arquivo da categoria 'Escrita da Terra (1974)'

26
Mar
12

Amanhecer em Estremoz

Uma a uma a noite abria

à luz matinal das rolas

as minúsculas portas da alegria.

 

In: A Escrita da Terra (1974)

Vistas da Torre de Menagem do Castelo de Estremoz

03
Jan
12

Alentejo

Agonia

dos lentos inquietos

amarelos,

solidão do vermelho

sufocado,

por fim o negro,

fundo espesso,

como no Alentejo

o branco obstinado.


 

In: Escrita da Terra (1974)

14
Jul
11

Cacela

Está desse lado do verão

onde manhã cedo

passam barcos, cercada pela cal.

 

Das dunas desertas tem a perfeição,

dos pombos o rumor,

da luz a difícil transparência

e o rigor.

 

In: Escrita da Terra (1974)

27
Jun
11

Sul

Depois de uns dias de pausa, da vida como ela é, num recanto escondido do sul do país, com sal, sol e mar, regresso ao quotidiano. De Eugénio, também o “Sul”.

 

Pelo azul da pedra vê-se que é verão,

à beira do tanque os aloendros devem estar

em flor,

as águas reflectem o silêncio.

 

 In: Escrita da Terra (1974)

26
Mai
11

Tebas

Era um lugar onde só

a poesia

me podia ter levado –

lugar de morte, a luz

roída,

rala.

Até a minguada

romãzeira

era de pedra.

O vento

acrescenta-lhe a poeira.

 

In: Escrita da Terra (1974)

22
Set
10

Calcedónia

Afinal os romanos eram

como eu: amavam

os lugares onde a grandeza

e a solidão

andam de mãos dadas.

 

In: Escrita da Terra  (1974)

12
Mai
10

O caminho das dunas

Há um barco

há um homem nas areias.

Obscuramente aprende

a morrer onde as águas são mais duras.

Sei que é verão pelo hálito da loucura

o brilho em declínio das giestas

a caminho das dunas.

O homem adormecido

e a noite do poema eram de vidro.

 

In: Escrita da Terra (1974)

25
Ago
09

Berlim

Há uma ruptura
uma fenda no escuro
do silêncio:
 
ouve-se o murmúrio
da urina
dos soldados contra o muro.
16
Mai
09

Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.
23
Mar
09

Praça de Malá Strana

Gosto destes pombos, destas crianças.

A eternidade não pode ser senão assim:

pombos e crianças a fazerem

da luz incomparável da manhã

o lugar inocente do poema.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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