…viveu em tanta pobreza, que se não tivera um jau, chamado António, que da Índia trouxe, que de noite pedia esmola para o ajudar a sustentar, não pudera aturar a vida. Como se viu, tanto que o jau morreu, não durará ele muitos meses. Pedro de Mariz Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir comigo esta amargura dos meus dias partidos um a um — eu vi a terra limpa no teu rosto, só no teu rosto e nunca em mais nenhum. 27-12-79
Arquivo da categoria 'Homenagens e outros Epitáfios (1974)'
F. P.
De rosto em rosto a ti mesmo procuras e só encontras a noite por onde entraste finalmente nu – a loucura acesa e fria iluminando o nada que tanto procuraste. 5-4-78
Em memória de Chico Mendes
Chegam notícias do Brasil, o Chico Mendes foi assassinado, a morte enrola-se agora nos primeiros frios, nem sequer a tristeza tem sentido, a bola continua em órbita, um dia estoira, o universo ficará mais limpo. 3-01-89 Mais sobre Chico Mendes… Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como "Chico Mendes" (15 Dezembro de 1944 — Xapuri, 22 Dezembro de 1988), foi um seringueiro, sindicalista e activista ambiental brasileiro. Ficou conhecido internacionalmente pela luta que travou pela preservação da Floresta Amazónica e que conduziu ao seu assassinato (Mais sobre Chico Mendes: http://www.chicomendes.org/)
Atado ao silêncio, o coração ainda pesado de amor, jazes de perfil, escutando, por assim dizer, as águas negras da nossa aflição. Pálidas vozes procuram-te na bruma; de prado em prado procuram um potro, a palmeira mais alta sobre o lago, um barco talvez ou o mel entornado da nossa alegria. Olhos apertados pelo medo aguardam na noite o sol onde cresces, onde te confundes com os ramos de sangue do verão ou o rumor dos pés brancos da chuva nas areias. A palavra, como tu dizias, chega húmida dos bosques: temos que semeá-la; chega húmida da terra: temos de defendê-la; chega com as andorinhas que a beberam sílaba a sílaba na tua boca. Cada palavra tua é um homem de pé, cada palavra tua faz do orvalho uma faca, faz do ódio um vinho inocente para bebermos, contigo no coração, em redor do fogo. 1971
O que dói não é um álamo.
Não é a neve nem a raiz
da alegria apodrecendo nas colinas.
O que dói
não é sequer o brilho de um pulso
ter cessado,
e a música, que trazia
às vezes um suspiro, outras um barco.
O que dói é saber.
O que dói
é a pátria, que nos divide e mata
antes de se morrer.
Setembro, 1972
Neste 25 de Abril relembro pela mão de Eugénio todos aqueles que, como Casais Monteiro, não o puderam ser na sua pátria e que com essa manhã de Abril tanto sonharam.
Mais sobre Adolfo Casais Monteiro…
Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972. Depois da sua licenciatura, na Faculdade de Letras do Porto, em Ciências Históricas e Filosóficas, começa a ensinar no Porto em 1934 e casa-se com Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes. A sua criação literária é já nestes anos dominada por dois géneros: a poesia e o ensaio. No final da década de 1930 e na década seguinte foi demitido do ensino (1937) e preso sete vezes, vivendo uma vida profissional atribulada por motivos políticos, mantendo a sua actividade de poeta e crítico através de trabalhos de tradução e edição. Os anos da década de 1940 são particularmente férteis em termos poéticos: Sempre e sem Fim data de 1937, e na década seguinte, seguem-se-lhe Canto da nossa Agonia (1942), Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943), Versos (1944, reunião dos três livros de poesia anteriores) e, com particular destaque, Europa (1946), longo poema lido por António Pedro aos microfones da BBC de Londres ainda durante a guerra (1945). Por fim, em 1949, outra colectânea poética, Simples Canções da Terra. Exila-se em 1954 no Brasil (onde ensinou em várias universidades, com uma breve passagem pelos EUA perto do fim da vida) por motivos políticos (proibição de ensinar) e por motivos pessoais (desejo de liberdade). No Brasil mantém a sua actividade poética, tendo sempre em vista a actividade artística e literária em Portugal (onde nunca voltou), como as dedicatórias dos poemas dos últimos livros deixam perceber. Depois de décadas sem que a Censura permitisse, sequer, a publicação do seu nome, em 1969 a Portugália Editora lança o volume Poesias Completas, marcando a recepção da sua Obra pela geração que fará o 25 de Abril. Antes disso, morreu, em 24 de Julho de 1972.
Com as aves aprende-se a morrer.
Também o frio de Janeiro
enredado nos ramos não ensina outra coisa
– dizias tu, olhando
as palmeiras correr para a luz.
Que chegava ao fim.
E com ela as palavras.
Procurei os teus olhos onde o azul
inocente se refugiara.
Na infância, o coração do linho
afastava os animais de sombrra.
Amanhã já não serei eu a ver-te
subir aos choupos brancos.
O resplendor das mãos imperecível.
18.01.2000
Ode a Guillaume Apollinaire
No meio dos anjos desembarcados em
Marselha,
nas margens do Sena, ao ouvido de Marie,
os olhos ardidos de ternura,
leio os teus versos, sem piedade de ti.
Leio os teus versos neste Outono breve
onde passeiam lentos com a água
Lou e Ottomar;
a esperança é ainda violenta,
mas estamos cansados de esperar.
Leio os teus versos no cemitério
onde as crianças indiferentes
brincam à roda da tua sepultura;
e choro, ao lado de Madeleine,
órfão de ti, órfão de aventura.
E tu passas, meu artilheiro,
apaixonadamente como um rio
ou touro de amor até aos cornos:
Orfeu cheirando a pólvora e a cio.
Passas, e seguem-te saltimbancos,
galdérias, vadios, ciganos e anões;
Annie – ou Jeanne – surge da bruma,
e de longe atira-te uma rosa,
talvez de lume, talvez de espuma.
Passas, e entras no paraíso
no meio de adolescentes tresmalhados;
Martin, Gertrude, Hans e Henri,
com ervas ainda nos cabelos
cantam coplas de putas e soldados.
Oh Madeleine, não tenhas piedade:
os mortos somos nós, aqui sentados,
com a noite nos ombros e embalando
a angústia nos braços decepados.
1949
Sobre Guillaume Apollinaire…
Poeta e crítico francês (1880- 1918), nascido em Roma, de nome verdadeiro Wilhelm Apollinaris de Kostrowitzky. Depois de uma infância e adolescência vividas entre vários países da Europa, instala-se em Paris a partir dos 20 anos, interessa-se por literatura e política e inicia a escrita novelas eróticas para sobreviver. Nos anos seguintes, viaja até à Áustria, Alemanha e Inglaterra. Entre 1902 e 1907 publica contos e poemas em várias revistas (incluindo a portuguesa O Portugal Futurista). Entre os seus amigos de Paris dessa altura, contam-se Picasso, Rousseau e Delaunay, entre outros. Estreia-se como poeta em 1909, com o aparecimento da sua primeira colectânea, L’Enchanteur Pourrissant , cuja temática aludia ao aprisionamento do mago Merlim dentro de uma gruta, pelas artes mágicas de Morgana. Seguem-se, entre outras obras, Le Bestiaire ou Cortège d’Orphée (1911) e Alcools (1914), trabalho marcado pela supressão de todos os sinais de pontuação, o que na época constitui uma inovação e revela o seu espírito modernista. Em 1914 alista-se no exército francês e parte para a guerra. Para não perder a veia poética, troca abundante correspondência com os amigos e a mais recente paixão não correspondida, Louise de Coligny-Châtillon (ou «Lou», como lhe chama nos poemas). Deois da guerra, volta ao trabalho em Paris: leva à cena a peça Les Mamelles de Tirésias (obra que anuncia o chegar do “Surrealismo”) e publica Calligrammes. Em 1918, casa com Jacqueline Kolb (a «linda ruiva» do último poema de Calligrammes), mas enfraquecido pela ferida de combate, morre em Novembro desse ano, de gripe espanhola. Tido como o criador do termo ’surrealista’, tinha apenas trinta e oito anos por altura da sua morte. (fontes: assirio.com, infopedia.com)
Quase epitáfio
O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.
Recado para Carlos de Oliveira
Foram vários a partir,
a deixar hábitos
máscaras cobardias – o deserto
sem lacuna dos dias.
Lá onde estás chegaste antes de mim.
O sítio deve ser mais asseado:
guarda-me um lugar perto de ti.
Sobre Carlos de Oliveira…
Carlos de Oliveira (1921-1980), poeta português do séc. XX, nasce em Belém do Pará, filho de pais portugueses emigrados no Brasil e, com dois anos, regressa a Portugal. Completa o liceu em Coimbra, no ano de 1933, licenciando-se mais tarde em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Durante o período em que vive nessa cidade, Carlos de Oliveira tem a oportunidade de conviver com algumas figuras de destaque da cultura portuguesa, como Joaquim Namorado, Afonso Duarte e Fernando Namora. Nesta cidade participa no grupo do Novo Cancioneiro, na génese do movimento Neo-Realista, de que viria a ser uma das maiores vozes. Colabora nas revistas Altitude e Seara Nova, e dirige durante algum tempo a revista Vértice.
Vem para Lisboa em 1950, onde é professor durante alguns anos, dedicando-se depois ao jornalismo. Como escritor, publicou poesia – Mãe Pobre, Micropaisagem, Trabalho Poético e Pastoral, entre outras obras – e romance – Casa na Duna, Alcateia, Pequenos Burgueses, Uma Abelha na Chuva, Finisterra e O Aprendiz de Feiticeiro.
(fontes: Projecto Vercial; Assírio; Instituto Camões)
(…) o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
À memória de Ruy Belo
Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.
Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.
Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na norte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.
Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.
1978
Sobre Ruy Belo…
Ruy Belo, poeta, ensaísta e crítico literário, nasceu em S. João da Ribeira, pequena aldeia do concelho de Rio Maior, em 1933. Cursou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. De partida para Roma, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino. Em Lisboa, viria a frequentar também a Faculdade de Letras, terminando em 1967 a licenciatura em Filologia Românica. Tendo sido, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Para além de actividade no domínio editorial, Ruy Belo foi também professor e leitor na Universidade de Madrid desde 1971. Em 1977 regressa ao país, vindo a falecer de modo súbito no ano seguinte.
Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.
(fontes: Instituto Camões, astormentas.com)
Notícias da Fundação…
No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.
A entrada é livre.