Arquivo da categoria 'Homenagens e outros Epitáfios (1974)'

26
Jan
12

Casa de Álvaro Siza na Boa Nova

A musical ordem do espaço,
a manifesta verdade da pedra,
a concreta beleza
do chão subindo os últimos degraus,
a luminosa contenção da cal,
o muro compacto
e certo
contra toda a ostentação,
a refreada
e contínua e serena linha
abraçando o ritmo do ar,
a branca arquitectura
nua
até aos ossos.
Por onde entrava o mar.

11-5-92


In: Homenagens e outros Epitáfios (1974)

29
Jun
11

Retrato de rapariga (Gageiro, Alentejo, 1985)

… Um poema escrito a  propósito de um dos trabalhos do fotógrafo português Eduardo Gageiro…

 

Ela é na sua transparência

vegetal o rosto limpo da manhã,

o terreiro varrido pela luz

verde e ondulada do trigo,

a beleza concreta rente ao chão:

a infindável extensão da cal,

a lenta aproximação de um rio.

16.7.99

 

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 
 
31
Jul
10

Arquitectura açoriana

Onde os olhos tocam a cal e a escura

pedra de basalto, é a perfeição:

a tão nobre e concreta arte do espaço

— casa, praça, palácio, rua,

convento, fortaleza, igreja,

com adros, portais, degraus,

rendas e rendas nas fachadas,

com janelas para o mar e varandas

para as aves —, arquitectura lavada,

onde a veemência da luz

concilia a terra imóvel

com a brusca paixão dos mastros.

Quando não é verde, a luz

destas ilhas é rosada.

20-7-92

O Sal da Língua embarca rumo às ilhas verdes e regressará  no fim do mês.

Entretanto, boas leituras e boas férias para todos.

11
Jul
10

Kavafis, nos anos distantes de 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando

acordava com os olhos do amigo nos seus olhos

como este grego que nos versos se atrevia

a falar do que tanto se calava

ou só obliquamente referia –

nenhum tão solitário e tão atento

ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

 1964

15
Jun
10

Discurso tardio à memória de José Dias Coelho

Éramos jovens: falávamos do âmbar

ou dos minúsculos veios de sol espesso

onde começa o vero; e sabíamos

como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,

desatando um a um os nós do silêncio.

Pegavas num fruto: eis o espaço ardente

de ventre, espaço denso, redondo maduro,

dizias; espaço diurno onde o rumor

do sangue é um rumor de ave –

repara como voa, e poisa nos ombros

da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também

ela, também ela a não tinha. Na planície

branca era uma fonte: em si trazia

um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,

morre-se de ter um corpo, quando subitamente

uma bala descobre a juventude

da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José – o que é um nome?

Que nome nos impede de morrer,

quando se beija a terra devagar

ou uma criança trazida pela brisa?

 

Mais sobre José Dias Coelho:

José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961) foi um militante político anti-fascista e escultor português. A sua carreira enquanto escultor é posta de parte quando opta pela luta anti-fascista e pela clandestinidade em 1955, o mesmo ano em que vê os primeiros sinais de reconhecimento público pelo seu trabalho artístico. Foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa. Nessa altura pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado. O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música “A morte saiu à rua”. 

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.

11
Mai
10

Na varanda de Florbela

Um poema trazido até ao “Sal da Língua” pela Marta.

Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste o olhar a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

 Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.

16
Fev
10

Kavafis, nos anos distantes de 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando
acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
como este grego que nos versos se atrevia
a falar do que tanto se calava
ou só obliquamente referia –
nenhum tão solitário e tão atento
ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.
03
Jan
10

Requiem para Pier Paolo Pasolini

Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo – amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira
página, o sangue apodrece o brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de
assinar.
Sea qual for a razão, e muitas há,
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

Novembro, 1975

Mais sobre Pier Paolo Pasolini…

Pier Paolo Pasolini (Março 1922 - Novembro 1975) foi um poeta, novelista e cineasta italiano.

Filho de um oficial fascista e de uma mãe anti-Mussolini, Pasolini passou grande parte da sua infância em Casarsa della Delizia, a nordeste de Veneza. Em 1937 regressa à sua cidade natal, onde estuda história e literatura na Universidade de Bolonha. Publica, nesta altura, artigos na revista estudantil Architrave e começa a escrever poemas, editando a sua primeira colectânea, em edição de autor, no ano de 1942 (Poesia a Carsasa). Ainda jovem filia-se no Partido Comunista de onde viria a ser expulso por alegada homossexualidade, mas manter-se-á fiel à ideologia comunista até à sua morte.
A partir de 1949, a actividade literária de Pasolini intensifica-se, escreve poemas e romances, trazendo a publicação das duas primeiras partes de uma trilogia, Ragazzi di Vita (1955) e Una Vita Violenta (1959), a sua consagração enquanto escritor.
Foi, e ainda é, considerado um dos mais importantes e polémicos escritores italianos do século XX, tendo construído uma obra que reflecte as suas preocupações sociais e os seus ideais políticos.
Mas a fama internacional de Pasolini deve-se sobretudo à sua carreira cinematográfica. Iniciou-se como actor na década de 50 e estreou-se como realizador em 1961 com Accatone, uma adaptação do seu romance Una Vita Violenta. Os seus filmes abordam temas tão opostos como a religião (Il Vangelo secondo Matteo, 1964) e a sexualidade (Il Fiore delle Mille e une Notte, 1973), apresentando muitas vezes perspectivas controversas que nem sempre foram bem aceites pelo público.
Autor de poemas, romances, ensaios, argumentos, realizador e teórico de cinema, Pasolini foi uma figura polémica do século XX italiano. A sua morte violenta, em 1975, é vista por alguns como um assassinato por motivos políticos.
Fonte: www.assirio.com
26
Out
09

Lamento de Luís de Camões na morte de António, seu escravo

…viveu em tanta pobreza, que se não tivera
um jau, chamado António, que da Índia
trouxe, que de noite pedia esmola para o
ajudar a sustentar, não pudera aturar a
 vida. Como se viu, tanto que o jau morreu,
não durará ele muitos meses.
Pedro de Mariz
 
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir comigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
 
— eu vi a terra limpa no teu rosto,
só no teu rosto e nunca em mais nenhum.
 27-12-79
24
Set
09

F. P.

De rosto em rosto a ti mesmo procuras
e só encontras a noite por onde entraste
finalmente nu – a loucura acesa e fria
iluminando o nada que tanto procuraste.
5-4-78



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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