Arquivo da categoria 'Mar de Setembro (1961)'

28
Nov
11

Não perguntes

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.


In: Mar de Setembro (1961)

23
Mai
10

Ocultas águas

Um sopro quase,
Esses lábios.
 
Lábios? Disse lábios,
areias?
Lábios. Com sede
ainda de outros lábios.
 
Sede de cal.
Quase lume.
Lume
quase de orvalho.
 
Lábios:
ocultas águas.
21
Fev
10

Glosa

Que voz se desprende,

hesita, tropeça?

Que pedras tacteia,

que ramos alcança?

Que fonte pressente?

Que rio procura?

Que ritmo persegue,

que palavras ama?

Que sombras repele,

que luzes derrama?

05
Out
09

Serão palavras

Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens
 
Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração
 
Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.
06
Mai
09

Rumor

Quando o outono
já não pode senão melancolia
é que o secreto rumor da água
inunda os lábios de oiro.
02
Abr
09

À tua sombra

A terra me sabes,

à luz das manhãs

lisas de verão,

ao calor das pedras

achadas nas dunas.

Apetece cantar

nos gomos, nas luas,

nas colinas breves

do teu corpo nu;

cantar ou correr

na água, na seiva

dos ombros, dos braços,

no azul secreto

da concha das pernas.

Ó sabor eterno,

ó mortal sabor

das fontes da terra,

materno, solar

rumor de alegria:

apetece morrer,

morrer ou cantar.

04
Fev
09

Música mirabilis

Talvez a ternura

crepite no pulso,

talvez o vento

súbito se levante,

talvez a palavra

atinja o seu cume,

talvez um segredo

chegue ainda a tempo

 

– e desperte o lume.

24
Jan
09

Coração recente

Eras tu? Era o dia

acabado de nascer?

 

Que rosa abria? Rosa

ou ardor? Não seria

 

só desejo de ser

um travo de alegria?

 

Um fulgor? Um fluir?

Eras tu? Era o dia?

08
Dez
08

Um nome

Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,

pela luz

onde me deito;

di-lo-ei pelo ódio, pelo amor

com que toquei as pedras nuas,

por uns passos verdes de ternura,

pelas adelfas,

quando as adelfas nestas ruas

podem saber a morte;

pelo mar

azul,

azul-cantábrico, azul-bilbau,

quando amanhece;

di-lo-ei pelo sangue

violado

e limpo e inocente;

por uma árvore,

uma só árvore, di-lo-ei:

Guernica!

20
Nov
08

Espelho

Que rompam as águas:

é de um corpo que falo.

 

Nunca tive outra pátria,

nem outro espelho;

nunca tive outra casa.

 

É de um rio que falo;

desta margem onde soam ainda,

leves,

umas sandálias de oiro e de ternura.

 

Aqui moram as palavras;

as mais antigas,

as mais recentes:

mãe, árvore,

adro, amigo.

 

Aqui conheci o desejo

mais sombrio,

mais luminoso;

a boca

onde nasce o sol,

onde nasce a lua.

 

E sempre um corpo,

sempre um rio;

corpos ou ecos de colunas,

rios ou súbitas janelas

sobre dunas;

corpos:

dóceis, doirados montes de feno;

rios:

frágeis, frias flores de cristal.

 

E tudo era água,

água,

desejo só

de um pequeno charco de luz.

 

De luz?

Que sabemos nós

dessas nuvens altas,

dessas agulhas

nuas

onde o silêncio se esconde?

Desses olhos redondos,

agudos de verão,

e tão azuis

como se fossem beijos?

 

Um corpo amei;

um corpo, um rio;

um pequeno tigre de inocência

com lágrimas

esquecidas nos ombros,

gritos

adormecidos nas pernas,

com extensas,

arrefecidas

primaveras nas mãos.

 

Quem não amou

assim? Quem não amou?

Quem?

Quem não amou

está morto.

 

Piedade,

também eu sou mortal.

Piedade

por um lenço de linho,

debruado de feroz melancolia,

por uma haste de espinheiro

atirada contra o muro,

por uma voz que tropeça

e não alcança os ramos.

 

De um corpo falei:

que rompam as águas.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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