Arquivo da categoria 'O Outro Nome da Terra (1988)'

11
Nov
09

Numa fotografia

Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo – do deserto ou do mar.
26
Ago
09

Corpo

O mar – sempre que toco
um corpo é o mar que sinto
onda a onda
contra a palma da mão.
Vésper está agora
tão próxima que já não posso
perder-me naquela infatigável
ondulação.
03
Jun
09

Sem ti + Sem Mário Benedetti

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado.

Cuando éramos niños                                   Quando éramos meninos                  
los viejos tenían como treinta                        os velhos não teriam mais de trinta
un charco era un océano                               um charco era um oceano
la muerte lisa y llana                                a morte lisa e plana
no existía.                                           não existia.

Luego cuando muchachos                                Já quando rapazes
los viejos eran gente de cuarenta                     os velhos eram gente de quarenta
un estanque un océano                                 um tanque um oceano
la muerte solamente                                   a morte apenas
una palabra.                                          uma palavra. 

Ya cuando nos casamos                                 E quando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta                     os anciãos estavam pelos cinquenta
un lago era un océano                                 um lago era um oceano
la muerte era la muerte                               a morte era a morte
de los otros.                                         dos outros.
 
Ahora veteranos                                       Agora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad                       e que alcançamos a verdade
el océano es por fin el océano                        o oceano é por fim o oceano
pero la muerte empieza a ser                          mas a morte começa a ser
la nuestra.                                           a nossa.
22
Abr
09

Com essa nuvem

Para que estrela estás crescendo,

filho, para que estrela matutina?

Diz-me, diz-me ao ouvido,

se é tempo ainda,

eu e essa nuvem, essa nuvem alta,

de irmos contigo.

30
Mar
09

A luz do chão

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de Março rastejando ainda.

09
Mar
09

Cumplicidade do Verão

Mal nos conhecíamos, mas a infância

é cúmplice do verão:

vinhas do rio, das manhãs

onde nadámos juntos e subimos

aos freixos altos: via-te

balouçar num ramo frágil rindo,

ou saltar atrás das rãs – o corpo nu

cravado nos meus olhos como um espinho.

18
Fev
09

Sobre a terra

Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.

Não porque tenha mais poder,

nem mais saber, nem mais haver.

Como lábio que suplica outro lábio,

como pequena e branca chama

de silêncio,

como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,

sei que estou vivo, vivo

sobre o teu peito, sobre os teus flancos,

e cresço para ti.

 

28
Jan
09

Rosa do mundo

Rosa. Rosa do mundo.

Queimada.

Suja de tanta palavra.

 

Primeiro orvalho sobre o rosto.

Que foi pétala

a pétala lenço de soluços.

 

Obscena rosa. Repartida.

Amada.

Boca ferida, sopro de ninguém.

 

Quase nada.

22
Jan
09

O que não pode morrer

Diz, diz uma vez mais o que não pode

morrer:

a luz, que no sul é inocente

e trepa aos pinheiros;

o trote miúdo das manhãs de junho;

o azul a pique do falcão;

as dunas, com sinais ainda

de outro verão para levar à boca.

28
Out
08

Sem memória

Haverá para os dias sem memória

outro nome que não seja morte?

Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas,

a luz do corpo levada aos lábios,

os primeiros lilazes do jardim.

Haverá outro nome para o lugar

onde não há lembrança de ti?




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
Watch videos at Vodpod and other videos from this collection.

Blog Stats

  • 19,941 hits