Não sejas como a névoa, nem quimera. Demora-te, demora-te assim: faz do olhar tempo sem tempo, espaço limpo – do deserto ou do mar.
Arquivo da categoria 'O Outro Nome da Terra (1988)'
Numa fotografia
Corpo
O mar – sempre que toco um corpo é o mar que sinto onda a onda contra a palma da mão. Vésper está agora tão próxima que já não posso perder-me naquela infatigável ondulação.
Sem ti + Sem Mário Benedetti
É um fardo aos ombros o corpo, sem ti. Até o amarelo dos girassóis se tornou cruel. Não invento nada, na arte de olhar a luz é cúmplice da pele. Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado. Cuando éramos niños Quando éramos meninos los viejos tenían como treinta os velhos não teriam mais de trinta un charco era un océano um charco era um oceano la muerte lisa y llana a morte lisa e plana no existía. não existia. Luego cuando muchachos Já quando rapazes los viejos eran gente de cuarenta os velhos eram gente de quarenta un estanque un océano um tanque um oceano la muerte solamente a morte apenas una palabra. uma palavra. Ya cuando nos casamos E quando nos casamos los ancianos estaban en cincuenta os anciãos estavam pelos cinquenta un lago era un océano um lago era um oceano la muerte era la muerte a morte era a morte de los otros. dos outros. Ahora veteranos Agora veteranos ya le dimos alcance a la verdad e que alcançamos a verdade el océano es por fin el océano o oceano é por fim o oceano pero la muerte empieza a ser mas a morte começa a ser la nuestra. a nossa.
Com essa nuvem
Para que estrela estás crescendo,
filho, para que estrela matutina?
Diz-me, diz-me ao ouvido,
se é tempo ainda,
eu e essa nuvem, essa nuvem alta,
de irmos contigo.
A luz do chão
Sem nenhuma razão a voz rompia,
a rasteirinha voz tão rente à vida
que se confunde com a luz do chão,
a luz de Março rastejando ainda.
Cumplicidade do Verão
Mal nos conhecíamos, mas a infância
é cúmplice do verão:
vinhas do rio, das manhãs
onde nadámos juntos e subimos
aos freixos altos: via-te
balouçar num ramo frágil rindo,
ou saltar atrás das rãs – o corpo nu
cravado nos meus olhos como um espinho.
Sobre a terra
Sei que estou vivo e cresço sobre a terra.
Não porque tenha mais poder,
nem mais saber, nem mais haver.
Como lábio que suplica outro lábio,
como pequena e branca chama
de silêncio,
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo,
sei que estou vivo, vivo
sobre o teu peito, sobre os teus flancos,
e cresço para ti.
Rosa do mundo
Rosa. Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.
Primeiro orvalho sobre o rosto.
Que foi pétala
a pétala lenço de soluços.
Obscena rosa. Repartida.
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.
Quase nada.
O que não pode morrer
Diz, diz uma vez mais o que não pode
morrer:
a luz, que no sul é inocente
e trepa aos pinheiros;
o trote miúdo das manhãs de junho;
o azul a pique do falcão;
as dunas, com sinais ainda
de outro verão para levar à boca.
Sem memória
Haverá para os dias sem memória
outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:
manhã rente às colinas,
a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilazes do jardim.
Haverá outro nome para o lugar
onde não há lembrança de ti?