Arquivo da categoria 'O Outro Nome da Terra (1988)'

13
Mar
12

Matinalmente

Com a luz, com a cal

do verão entornada pela casa,

com essa música

tão amada e bárbara,

com a púrpura correndo

de colina em colina,

fazer uma coroa –

e de lágrimas cheia a taça

sagrar-te príncipe da vida.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

06
Nov
11

A luz do pátio

Deixas a luz do pátio acesa,

a porta aberta – que esperas ainda?

Amas agora com amor dobrado

a vida, o suor misturado ao sal

da saliva, o rumor

das águas no sol das sementes,

a treva do cabelo incendiada

nas mãos outra vez adolescentes.


 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

31
Mai
11

Cardos

Este é o lugar onde só o lume

não demora a florir,

onde o verão abdica

de ser metáfora para arder

até ao fim.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

17
Fev
11

Casa Velha

Não é a primeira vez que me queixo,

ninguém me escuta.

Esta noite a chuva entrou-me pelos ossos

e não há quem acenda o lume.

Quem partiu levou consigo

o rapazito com olhos de coral,

deixando atrás de si a porta aberta.

In: O Outro Nome da Terra (1988)

05
Set
10

O pequeno persa

É um pequeno persa

azul o gato deste poema.

Como qualquer outro, o meu

amor por esta alminha é materno:

uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,

outra põe-lhe o sol entre as patas

ou uma flor à janela.

Com garras e dentes e obstinação

transforma em festa a minha vida.

Quer-se dizer, o que me resta dela.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

03
Jul
10

Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada

luz dos jacarandás, que me pousava

nos ombros, era agora o que tinha

para repartir contigo,

e um coração desmantelado

que só aos gatos servirá de abrigo.

15
Fev
10

Cidade

O filho pela mão, vamos por estas ruas
esconjurando sombras, convocando
dunas, potros, o sol ainda fresco,
os cachorros latindo de alegria.
Meus olhos vão à frente farejando,
enquanto a mão dele ilumina a minha.
11
Nov
09

Numa fotografia

Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo – do deserto ou do mar.
26
Ago
09

Corpo

O mar – sempre que toco
um corpo é o mar que sinto
onda a onda
contra a palma da mão.
Vésper está agora
tão próxima que já não posso
perder-me naquela infatigável
ondulação.
03
Jun
09

Sem ti + Sem Mário Benedetti

É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Hoje trago para junto de Eugénio o poeta uruguaio Mário Benedetti, uma das personalidades literárias mais importantes da América latina. Poeta, ensaísta, romancista, amado por quem ama a sua obra e amado por todos os que com ele tiveram o prazer de contactar e conhecer, Benedetti deixou-nos no passado dia 17 de Maio, vítima de doença prolongada, aos 88 anos. Cruzei-me com o nome Mário Benedetti há muito pouco tempo, através de uma referência ao seu estado de saúde no Caderno de Saramago. Fiquei sensibilizada também com a iniciativa de Pilar del Rio, que apelou a todos os amigos e admiradores de Benedetti a estabelecer uma “Corrente poética” com a leitura dos seus poemas por todo o mundo, uma corrente de apoio espiritual que de alguma maneira o pudesse ajudar neste momento difícil. Depois da notícia da sua morte, ouço os sinais do jornalista Fernando Alves na TSF e a sua bonita homenagem a Benedetti, com a leitura de alguns dos seus poemas, entre os quais este “Passatempo”, que aqui deixo em sua homenagem e como ponto de partida para todos os que, como eu, desconhecem o seu legado.

Cuando éramos niños                                   Quando éramos meninos                  
los viejos tenían como treinta                        os velhos não teriam mais de trinta
un charco era un océano                               um charco era um oceano
la muerte lisa y llana                                a morte lisa e plana
no existía.                                           não existia.

Luego cuando muchachos                                Já quando rapazes
los viejos eran gente de cuarenta                     os velhos eram gente de quarenta
un estanque un océano                                 um tanque um oceano
la muerte solamente                                   a morte apenas
una palabra.                                          uma palavra. 

Ya cuando nos casamos                                 E quando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta                     os anciãos estavam pelos cinquenta
un lago era un océano                                 um lago era um oceano
la muerte era la muerte                               a morte era a morte
de los otros.                                         dos outros.
 
Ahora veteranos                                       Agora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad                       e que alcançamos a verdade
el océano es por fin el océano                        o oceano é por fim o oceano
pero la muerte empieza a ser                          mas a morte começa a ser
la nuestra.                                           a nossa.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Maio 2012
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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