Era setembro ou outro mês qualquer propício a pequenas crueldades: a sombra aperta os seus anéis. Que queres tu ainda? O sopro das dunas sobre a boca? A luz quase despida? Fazer do corpo todo um lugar desviado do inverno?
Arquivo da categoria 'O Peso da Sombra (1982)'
Era setembro
Ouço correr a noite pelos sulcos
Ouço correr a noite pelos sulcos do rosto – dir-se-ia que me chama, que subitamente me acaricia, a mim, que nem sequer sei ainda como juntar as sílabas do silêncio e sobre elas adormecer.
De que país regressas?
De que país regressas? De que mar ou regaço onde o desejo respira devagar? Fala, diz ainda a palavra que faça do silêncio a casa ou erga a coroa do lume à altura do olhar.
Eu ia com a noite pelas ruas
Eu ia com a noite pelas ruas
descuidadas que levam ao teu corpo.
Não sei que vozes se cruzaram
com a manhã de Junho dos meus olhos,
mas sempre vozes ou a sombra delas
cortaram os passos ao desejo.
Perdi-me em nevoeiros que de súbito
sobre a cidade caíram, ou em mim.
Trago os tordos na cabeça
Trago os tordos na cabeça desde os campos
d’Atalaia para pôr neste poema –
o vento deixava-nos à porta
ora uma luz rasteira ora um esfarelado
chiar de carros de feno,
dos ramos altos
a tarde caía nos cabelos,
vivíamos sem pressa rente aos lábios.
Agora as aves voltam
Agora as aves voltam, são nos ramos
altos a matéria
mais próxima dos anjos
– ousarei eu tocar-lhes,
fazer delas o poema?
Feliz aniversário Eugénio!
Inventarei o dia onde contigo
Inventarei o dia onde contigo
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir.
Não ouças essas vozes que não param
de crescer a caminho do inverno,
os lugares onde o corpo de erro
em erro abdica de ser corpo
são mortais, não ouças essas vozes
onde o sol apodrece, nunca mais.
Espanta-me que estes olhos durem ainda,
que as suas pedras molhadas
se tenham demorado tanto a reflectir
um céu extenuado
em vez de aprenderem com a chuva
a morder o chão.
Véspera do sol
Com o sol a trepar pelas árvores
não tardará
que a manhã corra mais limpa
e se possa beber.