Arquivo da categoria 'O Peso da Sombra (1982)'

29
Set
09

Era setembro

Era setembro
ou outro mês qualquer
propício a pequenas crueldades:
a sombra aperta os seus anéis.
Que queres tu ainda?
O sopro das dunas sobre a boca?
A luz quase despida?
Fazer do corpo todo
um lugar desviado do inverno?
18
Jun
09

Ouço correr a noite pelos sulcos

Ouço correr a noite pelos sulcos
do rosto – dir-se-ia que me chama,
que subitamente me acaricia,
a mim, que nem sequer sei ainda
como juntar as sílabas do silêncio
e sobre elas adormecer.
13
Mai
09

De que país regressas?

De que país regressas?
De que mar ou regaço
onde o desejo respira devagar?
Fala, diz ainda a palavra
que faça do silêncio a casa
ou erga a coroa
do lume à altura do olhar.
22
Fev
09

Eu ia com a noite pelas ruas

Eu ia com a noite pelas ruas

descuidadas que levam ao teu corpo.

Não sei que vozes se cruzaram

com a manhã de Junho dos meus olhos,

mas sempre vozes ou a sombra delas

cortaram os passos ao desejo.

Perdi-me em nevoeiros que de súbito

sobre a cidade caíram, ou em mim.

30
Jan
09

Trago os tordos na cabeça

Trago os tordos na cabeça desde os campos

d’Atalaia para pôr neste poema –

o vento deixava-nos à porta

ora uma luz rasteira ora um esfarelado

chiar de carros de feno,

dos ramos altos

a tarde caía nos cabelos,

vivíamos sem pressa rente aos lábios.

19
Jan
09

Agora as aves voltam

Agora as aves voltam, são nos ramos

altos a matéria

mais próxima dos anjos

– ousarei eu tocar-lhes,

fazer delas o poema?

 

Feliz aniversário Eugénio!

05
Set
08

Inventarei o dia onde contigo

Inventarei o dia onde contigo

e o Outono corra pelas ruas.

A luz que pisamos é tão perfeita

que não pode morrer, como não morre

o brilho do olhar que te viu despir.

20
Ago
08

Não ouças essas vozes que não param

Não ouças essas vozes que não param

de crescer a caminho do inverno,

os lugares onde o corpo de erro

em erro abdica de ser corpo

são mortais, não ouças essas vozes

onde o sol apodrece, nunca mais.

23
Abr
08

Espanta-me que estes olhos durem ainda

Espanta-me que estes olhos durem ainda,

que as suas pedras molhadas

se tenham demorado tanto a reflectir

um céu extenuado

em vez de aprenderem com a chuva

a morder o chão.

21
Fev
08

Véspera do sol

Com o sol a trepar pelas árvores

não tardará

que a manhã corra mais limpa

e se possa beber.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
Watch videos at Vodpod and other videos from this collection.

Blog Stats

  • 19,847 hits