Amar-te assim desvelado entre barro fresco e ardor. Sorver entre lábios fendidos o ardor da luz orvalhada. Deslizar pela vertente da garganta, ser música onde o silêncio flui e se concentra. Irreprimível queimadura ou vertigem desdobrada beijo a beijo, brancura dilacerada. Penetrar na doçura da areia ou do lume, na luz queimada da pupila mais azul, no oiro anoitecido entre pétalas cerradas, no alto e navegável golfo do desejo, onde o furor habita crispado de agulhas, onde faça sangrar as tuas águas nuas.
Arquivo da categoria 'Obscuro Domínio (1972)'
Obscuro Domínio
Tempo em que se morre
Agora é verão, eu sei. Tempo de facas, tempo em que se perdem os anéis as cobras à míngua de água. Tempo em que se morre de tanto olhar os barcos. É no verão, repito. Estás sentada no terraço e para ti correm todos os meus rios. Entraste pelos espelhos: mal respiras. Vê-se bem que já não sabes respirar, que terás de aprender com as abelhas. Sobre os gerânios te debruças lentamente. Com rumor de água sonâmbula ou de arbusto decepado dás-me a beber um tempo assim ardente. Pousas as mãos sobre o meu rosto, e vais partir sem nada me dizer, pois só quiseste despertar em mim a vocação do fogo ou do orvalho. E devagar, sem te voltares, pelos espelhos entras na noite.
Véspera da água
Tudo lhe doía
de tanto que lhes queria:
a terra
e o seu muro de tristeza,
um rumor adolescente,
não de vespas
mas de tílias,
a respiração do trigo,
o fogo reunido na cintura,
um beijo aberto na sombra,
tudo lhe doía:
a frágil e doce e mansa
masculina água dos olhos,
o carmim entornado nos espelhos,
os lábios,
instrumentos da alegria,
de tanto que lhes queria:
os dulcíssimos melancólicos
magníficos animais amedrontados,
um verão difícil
em altos leitos de areia,
a haste delicada de um suspiro,
o comércio dos dedos em ruína,
a harpa inacabada
da ternura,
um pulso claramente pensativo,
lhe doía:
na véspera de ser homem,
na véspera de ser água,
o tempo ardido,
rouxinol estrangulado,
meu amor: amora branca,
o rio
inclinado
para as aves,
a nudez partilhada, os jogos matinais,
ou se preferem: nupciais,
o silêncio torrencial,
a reverência dos mastros,
no intervalo das espadas
uma criança corre
corre na colina
atrás do vento,
de tanto que lhes queria,
tudo tudo lhe doía.
Canto firme
Desatar o silêncio,
ficar a vê-lo
escorrer na vidraça,
entrar na noite,
labirinto
onde perco a mão,
deixar o sangue
iluminar meu pulso
de terra ardente,
ser música ainda,
penetrar na
água da palha,
seca, dura,
no fogo raso
à beira do inverno,
procurar a pedra
onde dormir,
o estábulo morno
da confidência,
os olhos
onde o azul persiste,
única fonte,
espelho
por onde a sombra
entra devagar,
sentir o sangue,
o silêncio
arder…
A música
De alma e coração ainda mareados por gentes e terras que marcaram estas últimas semanas, regresso ao sal da nossa língua para desejar a todos um 2009 cheio de motivos para sorrir e de sorrisos sem motivo!
Álamos —
música
de matutina cal.
Doces vogais
de sombra e água
num verão de fulvos
lentos animais.
Calhandra matinal
no ar
feliz de junho.
Acidulada
música de cardos.
Música do fogo
em redor dos lábios.
Desatada
à roda da cintura.
Entre as pernas,
junta.
Música
das primeiras chuvas
sobre o feno.
Só aroma.
Abelha de água.
Regaço
onde o lume breve
de uma romã brilha.
Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Notícias da Fundação:
Na passagem do 86º aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade, a Fundação que tem o seu nome fará na próxima segunda-feira, dia 19, pelas 18h30, o lançamento de uma nova edição de À Sombra da Memória. Na sessão de lançamento o Dr. António Oliveira fará a apresentação do livro, para o qual Gonçalo M. Tavares escreveu um texto original, que será lido, assim como outros textos de Eugénio de Andrade.
A entrada é livre.
O silêncio
Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
Os animais
Vejo ao longe os meus dóceis animais.
São altos e as suas crinas ardem.
Correm à procura de uma fonte,
a púrpura farejam entre juncos quebrados.
A própria sombra bebem devagar.
De vez em quando erguem a cabeça.
Olham de perfil, quase felizes
de ser tão leve o ar.
Encostam o focinho perto dos teus flancos,
onde a erva do corpo é mais confusa,
e como quem se aquece ao sol
respiram lentamente, apaziguados.
Desde o chão
A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.
O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.
Palavras…Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras…,
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.
Do chão ao cume das colinas,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.
Desde a aurora
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu – a terra – que te procuro.
Corpo Habitado
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.