Arquivo da categoria 'Obscuro Domínio (1972)'

28
Ago
09

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.
 
Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.
 
Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.
 
Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,
 
no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,
 
onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
20
Mai
09

Tempo em que se morre

Agora é verão, eu sei.
Tempo de facas, tempo
em que se perdem os anéis
as cobras à míngua de água.
Tempo em que se morre
de tanto olhar os barcos.
 
É no verão, repito.
Estás sentada no terraço
e para ti correm todos os meus rios.
Entraste pelos espelhos:
mal respiras.
Vê-se bem que já não sabes respirar,
que terás de aprender com as abelhas.
 
Sobre os gerânios
te debruças lentamente.
Com rumor de água
sonâmbula ou de arbusto decepado
dás-me a beber
um tempo assim ardente.
 
Pousas as mãos sobre o meu rosto,
e vais partir
sem nada me dizer,
pois só quiseste despertar em mim
a vocação do fogo ou do orvalho.
 
E devagar, sem te voltares,
pelos espelhos entras na noite.
19
Mar
09

Véspera da água

Tudo lhe doía

de tanto que lhes queria:

 

a terra

e o seu muro de tristeza,

 

um rumor adolescente,

não de vespas

mas de tílias,

 

a respiração do trigo,

 

o fogo reunido na cintura,

 

um beijo aberto na sombra,

 

tudo lhe doía:

 

a frágil e doce e mansa

masculina água dos olhos,

 

o carmim entornado nos espelhos,

 

os lábios,

instrumentos da alegria,

 

de tanto que lhes queria:

 

os dulcíssimos melancólicos

magníficos animais amedrontados,

 

um verão difícil

em altos leitos de areia,

 

a haste delicada de um suspiro,

 

o comércio dos dedos em ruína,

 

a harpa inacabada

da ternura,

 

um pulso claramente pensativo,

 

lhe doía:

 

na véspera de ser homem,

na véspera de ser água,

o tempo ardido,

 

rouxinol estrangulado,

 

meu amor: amora branca,

 

o rio

inclinado

para as aves,

 

a nudez partilhada, os jogos matinais,

ou se preferem: nupciais,

 

o silêncio torrencial,

 

a reverência dos mastros,

no intervalo das espadas

 

uma criança corre

corre na colina

 

atrás do vento,

 

de tanto que lhes queria,

tudo tudo lhe doía.

12
Fev
09

Canto firme

Desatar o silêncio,

 

ficar a vê-lo

escorrer na vidraça,

 

entrar na noite,

 

labirinto

onde perco a mão,

 

deixar o sangue

iluminar meu pulso

de terra ardente,

 

ser música ainda,

 

penetrar na

água da palha,

 

seca, dura,

 

no fogo raso

à beira do inverno,

 

procurar a pedra

onde dormir,

 

o estábulo morno

da confidência,

 

os olhos

onde o azul persiste,

 

única fonte,

 

espelho

por onde a sombra

entra devagar,

 

sentir o sangue,

o silêncio

 

arder…

15
Jan
09

A música

De alma e coração ainda mareados por gentes e terras que marcaram estas últimas semanas, regresso ao sal da nossa língua para desejar a todos um 2009 cheio de motivos para sorrir e de sorrisos sem motivo!

 

 

Álamos —

música

de matutina cal.

 

Doces vogais

de sombra e água

num verão de fulvos

lentos animais.

 

Calhandra matinal

no ar

feliz de junho.

 

Acidulada

música de cardos.

 

Música do fogo

em redor dos lábios.

 

Desatada

à roda da cintura.

 

Entre as pernas,

junta.

 

Música

das primeiras chuvas

sobre o feno.

 

Só aroma.

Abelha de água.

 

Regaço

onde o lume breve

de uma romã brilha.

 

Música, levai-me:

 

Onde estão as barcas?

Onde são as ilhas?

 

Notícias da Fundação:

Na passagem do 86º aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade, a Fundação que tem o seu nome fará na próxima segunda-feira, dia 19, pelas 18h30, o lançamento de uma nova edição de À Sombra da Memória. Na sessão de lançamento o Dr. António Oliveira fará a apresentação do livro, para o qual Gonçalo M. Tavares escreveu um texto original, que será lido, assim como outros textos de Eugénio de Andrade.

A entrada é livre.

 

 

 

 

 

09
Nov
08

O silêncio

Quando a ternura

parece já do seu ofício fatigada,

 

e o sono, a mais incerta barca,

ainda demora,

 

quando azuis irrompem

os teus olhos

 

e procuram

nos meus navegação segura,

 

é que eu te falo das palavras

desamparadas e desertas,

 

pelo silêncio fascinadas.

16
Set
08

Os animais

Vejo ao longe os meus dóceis animais.

São altos e as suas crinas ardem.

Correm à procura de uma fonte,

a púrpura farejam entre juncos quebrados.

 

A própria sombra bebem devagar.

De vez em quando erguem a cabeça.

Olham de perfil, quase felizes

de ser tão leve o ar.

 

Encostam o focinho perto dos teus flancos,

onde a erva do corpo é mais confusa,

e como quem se aquece ao sol

respiram lentamente, apaziguados.

04
Set
08

Desde o chão

A pele porosa do silêncio

agora que a noite sangra nos pulsos

traz-me o teu rumor de chuva branca.

 

O verão anda por aí, o cheiro

violento da beladona cega a terra.

Cega também, a boca procura

trabalhos de amor. Encontra apenas

o nó de sombra das palavras.

 

Palavras…Onde um só grito

bastaria, há a gordura

das palavras. Palavras…,

quando apetecem claridades súbitas,

o sumo estreme, a ponta extrema

do teu corpo, arco, flecha,

corola de água aberta

ao fogo a prumo do meu corpo.

 

Do chão ao cume das colinas,

eis as areias. Cala-te.

Deita-te. Debaixo dos meus flancos.

A terra toda em cima. Agora arde. Agora.

06
Jul
08

Desde a aurora

Como um sol de polpa escura

para levar à boca,

eis as mãos:

procuram-te desde o chão,

 

entre os veios do sono

e da memória procuram-te:

à vertigem do ar

abrem as portas:

 

vai entrar o vento ou o violento

aroma de uma candeia,

e subitamente a ferida

recomeça a sangrar:

 

é tempo de colher: a noite

iluminou-se bago a bago: vais surgir

para beber de um trago

como um grito contra o muro.

 

Sou eu, desde a aurora,

eu –  a terra – que te procuro.

12
Jun
08

Corpo Habitado

Corpo num horizonte de água,

corpo aberto

à lenta embriaguez dos dedos,

corpo defendido

pelo fulgor das maçãs,

rendido de colina em colina,

corpo amorosamente humedecido

pelo sol dócil da língua.

 

Corpo com gosto a erva rasa

de secreto jardim,

corpo onde entro em casa,

corpo onde me deito

para sugar o silêncio,

ouvir

o rumor das espigas,

respirar

a doçura escuríssima das silvas.

 

Corpo de mil bocas,

e todas fulvas de alegria,

todas para sorver,

todas para morder até que um grito

irrompa das entranhas,

e suba às torres,

e suplique um punhal.

Corpo para entregar às lágrimas.

Corpo para morrer.

 

Corpo para beber até ao fim –

meu oceano breve

e branco,

minha secreta embarcação,

meu vento favorável,

minha vária, sempre incerta

navegação.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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