Arquivo da categoria 'Ofício de Paciência (1994)'

13
Jun
09

4º aniversário da morte de Eugénio

Eugénio voou com as aves há precisamente quatro anos.

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

(Num exemplar das Geórgicas - In Ofício de Paciência)
27
Mai
09

Os difíceis amigos

Estes mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
da fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.
28
Abr
09

A Ilha

Tanta palavra para chegar a ti,
tanta palavra,
sem nenhuma alcançar
entre as ruínas
do delírio a ilha,
sempre mudando
de forma, de lugar, estremecida
chama, preguiçosa
vaga fugidia
do mar de Ulisses cor de vinho.
04
Mar
09

De ramo em ramo

Não queiras transformar

em nostalgia

o que foi exaltação,

em lixo o que foi cristal.

A velhice,

o primeiro sinal

de doença da alma,

às vezes contamina o corpo.

Nenhum pássaro

permite à morte dominar

o azul do seu canto.

Faz como eles: dança de ramo

em ramo.

02
Nov
08

Com o mar

Trago o mar todo na cabeça

daquele modo

que as mulheres novas

dão de mamar aos filhos;

o que não me deixa dormir

não é o marulho das suas vagas,

são essas vozes

que da rua se levantam a sangrar

para voltarem a cair,

e rastejando

vêm morrer à minha porta.

09
Out
08

O lugar mais perto

O corpo nunca é triste;

o corpo é o lugar

mais perto onde o lume canta.

É na alma que a morte faz a casa.

23
Set
08

A porta

Porque

por essa porta

sobre a rugosa luz da tarde

terás ainda tempo

de pegar nos pés e meter-te a caminho,

sem raízes

a enredar-te os passos,

pois para a morte

não tens ainda palavras,

ainda não, ainda não, ainda não.

17
Set
08

Matéria nobre

Pode ouvir-se ainda o seu

bater contra o peito.

Há tantos, tantos anos exposto

à violência da luz do meio

dia. Quase amargo, quase

doce. Só a paixão o rouba

à morte, o impede de ser

panela esburacada

onde o vento assobia.

Ou pior: coisa viscosa, mole,

inerme. Coração,

matéria nobre.

10
Jun
08

Balança

No prato da balança um verso basta

para pesar no outro a minha vida.

27
Abr
08

As palmeiras

Também o deserto vem

do mar. Não sei em que navio,

mas foi desses lugares

que chegaram ao meu jardim

as palmeiras.

Com o sol das areias

em cada folha,

na coroa o sopro

ainda húmido das estrelas.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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