Eugénio voou com as aves há precisamente quatro anos. Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia. (Num exemplar das Geórgicas - In Ofício de Paciência)
Arquivo da categoria 'Ofício de Paciência (1994)'
Os difíceis amigos
Estes mortos difíceis que não acabam de morrer dentro de nós; o sorriso da fotografia, a carícia suspensa, as folhas dos estios persistindo na poeira; difíceis; o suor dos cavalos, o sorriso, como já disse, nos lábios, nas folhas dos livros; não acabam de morrer; tão difíceis, os amigos.
A Ilha
Tanta palavra para chegar a ti,
tanta palavra,
sem nenhuma alcançar
entre as ruínas
do delírio a ilha,
sempre mudando
de forma, de lugar, estremecida
chama, preguiçosa
vaga fugidia
do mar de Ulisses cor de vinho.
De ramo em ramo
Não queiras transformar
em nostalgia
o que foi exaltação,
em lixo o que foi cristal.
A velhice,
o primeiro sinal
de doença da alma,
às vezes contamina o corpo.
Nenhum pássaro
permite à morte dominar
o azul do seu canto.
Faz como eles: dança de ramo
em ramo.
Com o mar
Trago o mar todo na cabeça
daquele modo
que as mulheres novas
dão de mamar aos filhos;
o que não me deixa dormir
não é o marulho das suas vagas,
são essas vozes
que da rua se levantam a sangrar
para voltarem a cair,
e rastejando
vêm morrer à minha porta.
O lugar mais perto
O corpo nunca é triste;
o corpo é o lugar
mais perto onde o lume canta.
É na alma que a morte faz a casa.
A porta
Porque
por essa porta
sobre a rugosa luz da tarde
terás ainda tempo
de pegar nos pés e meter-te a caminho,
sem raízes
a enredar-te os passos,
pois para a morte
não tens ainda palavras,
ainda não, ainda não, ainda não.
Matéria nobre
Pode ouvir-se ainda o seu
bater contra o peito.
Há tantos, tantos anos exposto
à violência da luz do meio
dia. Quase amargo, quase
doce. Só a paixão o rouba
à morte, o impede de ser
panela esburacada
onde o vento assobia.
Ou pior: coisa viscosa, mole,
inerme. Coração,
matéria nobre.
Balança
No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.
As palmeiras
Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas.