Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia.
Arquivo da categoria 'Ofício de Paciência (1994)'
26
Set
09
Num exemplar das Geórgicas
02
Set
09
Casa do mundo
A diminuta flor da candeia, na mesa o pão o vinho a rosa, a súbita brancura da cama aberta – a eternidade milimetricamente a dividir contigo.
27
Jul
09
A sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba. É pouca coisa, é certo: uma vogal, uma consoante, quase nada. Mas faz-me falta. Só eu sei a falta que me faz. Por isso a procurei com obstinação. Só ela me podia defender do frio de Janeiro, da estiagem do verão. Uma sílaba. Uma única sílaba. A salvação.
16
Jul
09
Assim seja
A terra é boa, e o corpo apesar de bastardo traz consigo pátios e cavalos. A multiplicação da luz torna mais limpo o ar, até mesmo a lebre salta dos fenos. Contenta-te com ser, hoje amanhã outro dia, esta luz breve.
Eugénio voou com as aves há precisamente quatro anos. Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia. (Num exemplar das Geórgicas - In Ofício de Paciência)
27
Mai
09
Os difíceis amigos
Estes mortos difíceis que não acabam de morrer dentro de nós; o sorriso da fotografia, a carícia suspensa, as folhas dos estios persistindo na poeira; difíceis; o suor dos cavalos, o sorriso, como já disse, nos lábios, nas folhas dos livros; não acabam de morrer; tão difíceis, os amigos.
28
Abr
09
A Ilha
Tanta palavra para chegar a ti,
tanta palavra,
sem nenhuma alcançar
entre as ruínas
do delírio a ilha,
sempre mudando
de forma, de lugar, estremecida
chama, preguiçosa
vaga fugidia
do mar de Ulisses cor de vinho.
04
Mar
09
De ramo em ramo
Não queiras transformar
em nostalgia
o que foi exaltação,
em lixo o que foi cristal.
A velhice,
o primeiro sinal
de doença da alma,
às vezes contamina o corpo.
Nenhum pássaro
permite à morte dominar
o azul do seu canto.
Faz como eles: dança de ramo
em ramo.
02
Nov
08
Com o mar
Trago o mar todo na cabeça
daquele modo
que as mulheres novas
dão de mamar aos filhos;
o que não me deixa dormir
não é o marulho das suas vagas,
são essas vozes
que da rua se levantam a sangrar
para voltarem a cair,
e rastejando
vêm morrer à minha porta.
09
Out
08
O lugar mais perto
O corpo nunca é triste;
o corpo é o lugar
mais perto onde o lume canta.
É na alma que a morte faz a casa.