Arquivo da categoria 'Os Amantes sem Dinheiro (1950)'

25
Out
09

Improviso para uma fonte

Boca da terra.
Ao longe pressentida
mas discreta.
A quem te procura
entregas-te aberta.
16
Ago
09

Com as gaivotas

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.
 
Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
19
Jul
09

Improviso na madrugada

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
 
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
05
Jul
09

Retrato

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.
 
Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.
 
Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.

 

Notícias da Fundação:
Na sede da Fundação Eugénio de Andrade vai ser apresentado, no próximo sábado, dia 11 de Julho, pelas 18h30, o primeiro livro, Delírio Húngaro, do jovem poeta Nuno Brito. Publicado pela editora que tem o nome de Edita-me, o livro será apresentado por Arnaldo Saraiva e por Manaíra Aires. A entrada é livre.
14
Mai
09

Surdo, subterrâneo rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
 
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
31
Mar
09

Canção para minha mãe

Uma mulher a cantar

de cabelo despenteado.

 

(Era o tempo das gaivotas

mas o mar tinha secado.)

 

Pelos seus braços caíam

frutos maduros de Outono,

 

pelas pernas escorriam

águas mornas de abandono.

 

(Uma criança juntava

o cabelo destrançado.)

 

Gaivotas não as havia

e o mar tinha secado.

05
Mar
09

As mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos

que nem sequer são flores

que se dêem:

abertas são apenas abandono,

fechadas são pálpebras imensas

carregadas de sono.

31
Jan
09

Poema à mãe

No mais fundo de ti

eu sei que te traí, mãe.

 

Tudo porque já não sou

o menino adormecido

no fundo dos teus olhos.

 

Tudo porque ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais.

 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura.

 

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos.

 

Mas tu esqueceste muita coisa;

esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

 

Olha – queres ouvir-me? -

Às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;

 

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;

 

Ainda oiço a tua voz:

era uma vez uma princesa

no meio do laranjal…

 

Mas – tu sabes – a noite é enorme,

e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

 

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

23
Jan
09

Soneto

Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;

amor exacto, vivo, desenhado

a fogo, onde eu próprio me queimei;

 

amor que me destrói e destruiu

a fria arquitectura desta tarde

– só a ti canto, que nem eu já sei

outra forma de ser e de encontrar-me.

 

Só a ti canto que não há razão

para que o frio que me queima os olhos

me trespasse e me suba ao coração;

 

só a ti canto, que não há desastre

de onde não possa ainda erguer-me

para encontrar de novo a tua face.

05
Out
08

Choro

Choras, e nem eu posso

mais do que lágrimas, coisas frias,

sobre as tuas mãos abandonadas

à janela dos dias.

 

Alta tristeza de cabelos de água,

é no meu rosto que se demora

– meu coração

escreve na noite como quem chora.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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