Boca da terra. Ao longe pressentida mas discreta. A quem te procura entregas-te aberta.
Arquivo da categoria 'Os Amantes sem Dinheiro (1950)'
Improviso para uma fonte
Com as gaivotas
Contente de me dar como as gaivotas bebo o Outono e a tarde arrefecida. Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor por mais que digam é perfeito como a vida. Tenho tristezas como toda a gente. E como toda a gente quero alegria. Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas, leve o diabo essa morte dia a dia.
Improviso na madrugada
Húmido de beijos e de lágrimas, ardor da terra com sabor a mar, o teu corpo perdia-se no meu. (Vontade de ser barco ou de cantar.)
Retrato
No teu rosto começa a madrugada. Luz abrindo, de rosa em rosa, transparente e molhada. Melodia distante mas segura; irrompendo da terra, quente, redonda, madura. Mar imenso, praia deserta, horizontal e calma. Sabor agreste. Rosto da minha alma.
Notícias da Fundação: Na sede da Fundação Eugénio de Andrade vai ser apresentado, no próximo sábado, dia 11 de Julho, pelas 18h30, o primeiro livro, Delírio Húngaro, do jovem poeta Nuno Brito. Publicado pela editora que tem o nome de Edita-me, o livro será apresentado por Arnaldo Saraiva e por Manaíra Aires. A entrada é livre.
Surdo, subterrâneo rio
Surdo, subterrâneo rio de palavras me corre lento pelo corpo todo; amor sem margens onde a lua rompe e nimba de luar o próprio lodo. Correr do tempo ou só rumor do frio onde o amor se perde e a razão de amar - surdo, subterrâneo, impiedoso rio, para onde vais, sem eu poder ficar?
Canção para minha mãe
Uma mulher a cantar
de cabelo despenteado.
(Era o tempo das gaivotas
mas o mar tinha secado.)
Pelos seus braços caíam
frutos maduros de Outono,
pelas pernas escorriam
águas mornas de abandono.
(Uma criança juntava
o cabelo destrançado.)
Gaivotas não as havia
e o mar tinha secado.
As mãos
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
Poema à mãe
No mais fundo de ti
eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha – queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
era uma vez uma princesa
no meio do laranjal…
Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Soneto
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Choro
Choras, e nem eu posso
mais do que lágrimas, coisas frias,
sobre as tuas mãos abandonadas
à janela dos dias.
Alta tristeza de cabelos de água,
é no meu rosto que se demora
– meu coração
escreve na noite como quem chora.