Outono, pássaro da melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada.
Outono, pássaro da melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada.
Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.
Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
– onde a voz dos ciganos se perdia.
Outono, pássaro da melancolia num céu sem cor que não promete nada, mar de insónia onde o teu corpo paira ou um aroma de terra molhada.
Boca da terra. Ao longe pressentida mas discreta. A quem te procura entregas-te aberta.
Contente de me dar como as gaivotas bebo o Outono e a tarde arrefecida. Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor por mais que digam é perfeito como a vida. Tenho tristezas como toda a gente. E como toda a gente quero alegria. Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas, leve o diabo essa morte dia a dia.
Húmido de beijos e de lágrimas, ardor da terra com sabor a mar, o teu corpo perdia-se no meu. (Vontade de ser barco ou de cantar.)
No teu rosto começa a madrugada. Luz abrindo, de rosa em rosa, transparente e molhada. Melodia distante mas segura; irrompendo da terra, quente, redonda, madura. Mar imenso, praia deserta, horizontal e calma. Sabor agreste. Rosto da minha alma.
Notícias da Fundação: Na sede da Fundação Eugénio de Andrade vai ser apresentado, no próximo sábado, dia 11 de Julho, pelas 18h30, o primeiro livro, Delírio Húngaro, do jovem poeta Nuno Brito. Publicado pela editora que tem o nome de Edita-me, o livro será apresentado por Arnaldo Saraiva e por Manaíra Aires. A entrada é livre.
Surdo, subterrâneo rio de palavras me corre lento pelo corpo todo; amor sem margens onde a lua rompe e nimba de luar o próprio lodo. Correr do tempo ou só rumor do frio onde o amor se perde e a razão de amar - surdo, subterrâneo, impiedoso rio, para onde vais, sem eu poder ficar?
Uma mulher a cantar
de cabelo despenteado.
(Era o tempo das gaivotas
mas o mar tinha secado.)
Pelos seus braços caíam
frutos maduros de Outono,
pelas pernas escorriam
águas mornas de abandono.
(Uma criança juntava
o cabelo destrançado.)
Gaivotas não as havia
e o mar tinha secado.
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.