Talvez, talvez sejam os últimos dias. Se for assim, são um esplendor. Apesar dos aviões da Nato despejarem bombas e bombas no Kosovo, a perfeição mora neste muro branco onde o escarlate da flor da buganvília sobe ao encontro da luz fresca da manhã de junho. A beleza (não há outra palavra para dizê-lo), a beleza desta manhã é terrível: persiste, domina – apesar dos aviões, mesmo com bombas a cair e crianças a morrer.
Arquivo da categoria 'Os Sulcos da Sede (2001)'
Manhã de Junho
Lume de Inverno
O lume. O lume rasteiro. O lume ainda. Vem de tão longe. Da casa térrea sobre a eira, casa onde qualquer coisa pequena pulsava: um coração, a água no cântaro, o trigo a crescer. Era tão pequeno que nem sabia como pedir uma laranja, um pouco de pão. Menos ainda, um beijo. Parecia só saber estender as mãos para aquele sol rasteiro e para o olhar que dos sortilégios do lume o defendia.
O sal da terra
Eram o sal da terra, as abelhas, no ar leve e verde das tílias. Iam e vinham ligeiras como se a fadiga lhes fosse alheia: algumas regressavam à colina onde tecem a seda da sombra; outras caem a prumo, embriagadas com a violenta fragância das tímidas flores quase apagadas. Basta estar atento à luz oblíqua para descobrir como a perfeição é completa deste lado do mundo. Mas só eu agora de olhos fechados sigo o seu rumor.
Atrás da porta
Iluminados pela cor do trigo os animais caminham para a única estrela ao seu alcance: a música do pastor, arte ou festa da sua juventude: estrela taciturna, talvez morta, ou pão da nossa idade: cama a dividir com o frio, canção do vento atrás da porta.
Árvores
Sem fadiga, as árvores regressam ao poema. Primeiro as laranjeiras, a seguir entram as tílias. Sempre estiveram perto, incapazes de se afastarem dos pequenos olhos imensos. À sombra dos cavalos podia vê-las chegar carregadas do seu aroma, dos seus frutos frios. A tarde chegava ao fim mas tive tempo ainda de as sentir, com um sorriso, aproximar.
Noite de Verão
Passaram muitos dias já, e se me lembro dessa noite de verão escurecendo de vaga em vaga foi porque mesmo no escuro cantavam as cigarras. Estendido a meu lado respirava outro corpo. Um rasto de juventude habitava-me ainda. Há corpos onde não termina. Um vento leve, a que chamam brisa, passava entre as miúdas folhas da oliveira. De repente um cão ladrou. Estremecemos ambos. E soubemos então que, mesmo o amor, teria um fim. Talvez naquela noite. Talvez daí a mil anos.
Aos jacarandás de Lisboa
São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.
O pequeno sismo
Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera!
Notícias da Fundação:
Celebrando o Dia Mundial da Poesia, no próximo sábado, dia 21, pelas 18h30, estarão na Fundação Eugénio de Andrade para ler poemas inéditos, os seguintes poetas: Albano Martins, Fernando Guimarães, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Ana Luísa Amaral, Helga Moreira, José Emílio-Nelson, Rosa Alice Branco, Daniel Maia Pinto Rodrigues, João Luís Barreto Guimarães, Rui Lage.
A entrada é livre.
Arrepio na tarde
Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de Março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.
NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO:
O poeta e crítico brasileiro Marcos de Morais estará no próximo dia 28, pelas 18h30, na Fundação Eugénio de Andrade para falar das tendências da poesia pernambucana recente. A entrada é livre.
As poucas palavras
Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.
Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.