Arquivo da categoria 'Os Sulcos da Sede (2001)'

20
Nov
09

Manhã de Junho

Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), a beleza desta manhã
é terrível: persiste, domina –
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.
05
Nov
09

Lume de Inverno

O lume. O lume rasteiro. O lume
ainda. Vem de tão longe. Da casa
térrea sobre a eira,
casa onde qualquer coisa pequena
pulsava: um coração,
a água no cântaro,
o trigo a crescer.
Era tão pequeno que nem sabia
como pedir uma laranja,
um pouco de pão.
Menos ainda, um beijo.
Parecia só saber
estender as mãos para aquele sol
rasteiro e para o olhar
que dos sortilégios do lume
o defendia.
14
Set
09

O sal da terra

Eram o sal da terra, as abelhas,
no ar leve
e verde das tílias.
Iam e vinham ligeiras como se a fadiga
lhes fosse alheia: algumas
regressavam à colina
onde tecem a seda da sombra;
outras caem a prumo,
embriagadas com a violenta
fragância das tímidas flores
quase apagadas.
Basta estar atento
à luz oblíqua para descobrir
como a perfeição é completa deste lado
do mundo. Mas só eu agora
de olhos fechados sigo o seu rumor.
09
Jul
09

Atrás da porta

Iluminados pela cor do trigo
os animais caminham para a única
estrela ao seu alcance:
 
a música do pastor, arte ou festa
da sua juventude: estrela
taciturna, talvez morta,
 
ou pão da nossa idade: cama
a dividir com o frio,
canção do vento atrás da porta.
10
Jun
09

Árvores

Sem fadiga, as árvores regressam
ao poema. Primeiro as laranjeiras,
a seguir entram as tílias.
Sempre estiveram perto, incapazes
de se afastarem dos pequenos
olhos imensos.
À sombra dos cavalos
podia vê-las chegar carregadas
do seu aroma, dos seus frutos frios.
A tarde chegava ao fim
mas tive tempo ainda
de as sentir, com um sorriso, aproximar.
08
Mai
09

Noite de Verão

Passaram muitos dias já, e se me lembro
dessa noite de verão
escurecendo de vaga em vaga
foi porque mesmo no escuro cantavam
as cigarras. Estendido
a meu lado respirava outro corpo.
Um rasto de juventude
habitava-me ainda. Há corpos
onde não termina.
Um vento leve, a que chamam brisa,
passava entre as miúdas folhas
da oliveira. De repente um cão
ladrou. Estremecemos ambos.
E soubemos então que, mesmo o amor,
teria um fim. Talvez naquela noite.
Talvez daí a mil anos.
20
Abr
09

Aos jacarandás de Lisboa

São eles que anunciam o verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

O espaço a toda a roda

multiplica os seus espelhos, abre

varandas para o mar.

É como nos sonhos mais pueris:

posso voar quase rente

às nuvens altas – irmão dos pássaros –,

perder-me no ar.

14
Mar
09

O pequeno sismo

Há um pequeno sismo em qualquer parte

ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca

lentamente

para não me desfolhares.

Tremo como se tivera

quinze anos e toda a terra

fosse leve.

Ó indizível primavera!

 

Notícias da Fundação:

Celebrando o Dia Mundial da Poesia, no próximo sábado, dia 21, pelas 18h30, estarão na Fundação Eugénio de Andrade para ler poemas inéditos, os seguintes poetas: Albano Martins, Fernando Guimarães, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Ana Luísa Amaral, Helga Moreira, José Emílio-Nelson, Rosa Alice Branco, Daniel Maia Pinto Rodrigues, João Luís Barreto Guimarães, Rui Lage.

A entrada é livre.

 

16
Fev
09

Arrepio na tarde

Não sei quem, nem em que lugar,

mas alguém me deve ter morrido.

Senti essa morte num arrepio da tarde.

Qualquer amigo, um dos vários

que não conheço e só a poesia

sustenta. Talvez a morte fosse

outra: um pequeno réptil

no sol súbito e quente de Março

esmagado por pancada certeira;

um cão atropelado por um bruto

que, ao volante, se julga um deus

de arrabalde, com sucesso garantido

junto de três ou quatro putas de turno.

Talvez a de uma estrela, porque também

elas morrem, também elas morrem.

 

NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO:

 

O poeta e crítico brasileiro Marcos de Morais estará no próximo dia 28, pelas 18h30, na Fundação Eugénio de Andrade para falar das tendências da poesia pernambucana recente. A entrada é livre.

 

13
Nov
08

As poucas palavras

Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.

Só isso: o céu azul, a sombra lisa,

o livro aberto.

E algumas palavras. Poucas,

ditas como por acaso.

 

Eram contudo palavras de amor.

Não propriamente ditas,

antes adivinhadas. Ou só pressentidas.

Como folhas verdes de passagem.

Um verde, digamos, brilhante,

de laranjeiras.

 

Foi como se de repente chovesse:

as folhas, quero dizer, as palavras

brilharam. Não que fossem ditas,

mas eram de amor, embora só adivinhadas.

Por isso brilhavam. Como folhas

molhadas.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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