Arquivo da categoria 'Ostinato Rigore (1964)'

24
Nov
09

Cante Jondo

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.
07
Jun
09

Eros Thanatos

1
Ó pureza apaixonadamente minha:
terra toda nas minhas mãos acesa.
 
2
O que sei de ti foi só o vento
a passar nos mastros do verão.
 
3
Um corpo apenas, barco ou rosa,
rumoroso de abelhas ou de espuma.
 
4
Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia.
 
5
Amo como as espadas brilham
no ardor indizível do dia.
 
6
Seria a morte esta carícia
onde o desejo era só brisa?
12
Mai
09

Os frutos

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.
05
Abr
09

Estribilhos de um dia de Verão

1

Um nó de luz ou uma lágrima:

nada mais era quando despertava.

 

2

Sabor de água, puro sabor

de ser matinal até doer.

 

3

Sabor de ser

ardor de florir,

rumor de amanhecer.

 

4

Ser

da neve ao fogo um só ardor.

 

5

Um só fluir, um só fulgor.

17
Mar
09

Despedida

Colhe

todo o oiro do dia

na haste mais alta

da melancolia.

28
Fev
09

Cristalizações

1

Com palavras amo.

 

2

Inclina-te como a rosa

só quando o vento passe.

 

3

Despe-te

como o orvalho

na concha da manhã.

 

4

Ama

como o rio sobe os últimos degraus

ao encontro do seu leito.

 

5

Como podemos florir

ao peso de tanta luz?

 

6

Estou de passagem:

amo o efémero.

 

7

Onde espero morrer

será manhã ainda?

07
Dez
08

Pastoral

A terra inocente

abre-se ao ardor

de oiro de uma flauta

– será que o pastor

ou a primavera

desperta e se exalta?

 

 

Notícias da Fundação…

 

No próximo dia 13 de Dezembro, sábado, pelas 18h30, no auditório da Fundação Eugénio de Andrade, será feita a sessão de lançamento do livro Não é Preciso Gritar, de Eduarda Chiote, editado pela Editora Campo das Letras. A apresentação da obra estará a cargo de Arnaldo Saraiva.

A entrada é livre.

 

26
Nov
08

Natureza morta com frutos

1.

O sangue matinal das framboesas

escolhe a brancura do linho para amar.

 

2.

A manhã cheia de brilhos e doçura

debruça o rosto puro na maçã.

 

3.

Na laranja o sol e a lua

dormem de mãos dadas.

 

4.

Cada bago de uva sabe de cor

o nome dos dias todos do verão.

 

5.

Nas romãs eu amo

o repouso no coração do lume.

29
Set
08

Eros de passagem

1.

Apelo da manhã perdido em flor:

ave seria se não fosse ardor.

 

2.

Pelo sabor da água reconheço

a ternura e os flancos do verão.

 

3.

Um corpo brilha nu para o desejo

dançar na luz a pique das areias.

 

4.

Nas águas rumorosas da memória

contigo acabo agora de nascer.

 

5.

O vento inclina as hastes à luz dura:

a terra está próxima e madura.

26
Ago
08

Espadas da melancolia

Um corpo

para estender a náufragos – o teu corpo.

 

Um rasto de cadelas aluadas,

um charco de maçãs apodrecidas

ou longas cabeleiras apagadas.

 

Não dizias palavras, ou só dizias

aquelas onde o rosto se escondia.

 

Palavras onde o sangue não abria

a corola de fogo à madrugada.

 

O azul não canta, a água morre

na mais secreta boca do teu corpo.

 

Aqui não brilha a terra, a luz é fria,

aqui o horizonte não respira.

 

Não havia vento: só medo e cobardia.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Janeiro 2010
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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