A mão onde pousava o que a noite trazia é quase imperceptível; memória só seria do que nem nome tinha: um arrepio na água?, um ligeiro tremor nas folhas dos álamos?, um trémulo sorrir em lábios que não via? Memória só seria de ter sonhado a mão onde nada pousava do que a noite trazia.
Arquivo da categoria 'Ostinato Rigore (1964)'
Cante Jondo
Eros Thanatos
1 Ó pureza apaixonadamente minha: terra toda nas minhas mãos acesa. 2 O que sei de ti foi só o vento a passar nos mastros do verão. 3 Um corpo apenas, barco ou rosa, rumoroso de abelhas ou de espuma. 4 Entre lábios e lábios não sabia se cantava ou nevava ou ardia. 5 Amo como as espadas brilham no ardor indizível do dia. 6 Seria a morte esta carícia onde o desejo era só brisa?
Os frutos
Assim eu queria o poema: fremente de luz, áspero de terra, rumoroso de águas e de vento.
Estribilhos de um dia de Verão
1
Um nó de luz ou uma lágrima:
nada mais era quando despertava.
2
Sabor de água, puro sabor
de ser matinal até doer.
3
Sabor de ser
ardor de florir,
rumor de amanhecer.
4
Ser
da neve ao fogo um só ardor.
5
Um só fluir, um só fulgor.
Despedida
Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.
Cristalizações
1
Com palavras amo.
2
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6
Estou de passagem:
amo o efémero.
7
Onde espero morrer
será manhã ainda?
Pastoral
A terra inocente
abre-se ao ardor
de oiro de uma flauta
– será que o pastor
ou a primavera
desperta e se exalta?
Notícias da Fundação…
No próximo dia 13 de Dezembro, sábado, pelas 18h30, no auditório da Fundação Eugénio de Andrade, será feita a sessão de lançamento do livro Não é Preciso Gritar, de Eduarda Chiote, editado pela Editora Campo das Letras. A apresentação da obra estará a cargo de Arnaldo Saraiva.
A entrada é livre.
Natureza morta com frutos
1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.
2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.
3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.
4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.
5.
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.
Eros de passagem
1.
Apelo da manhã perdido em flor:
ave seria se não fosse ardor.
2.
Pelo sabor da água reconheço
a ternura e os flancos do verão.
3.
Um corpo brilha nu para o desejo
dançar na luz a pique das areias.
4.
Nas águas rumorosas da memória
contigo acabo agora de nascer.
5.
O vento inclina as hastes à luz dura:
a terra está próxima e madura.
Espadas da melancolia
Um corpo
para estender a náufragos – o teu corpo.
Um rasto de cadelas aluadas,
um charco de maçãs apodrecidas
ou longas cabeleiras apagadas.
Não dizias palavras, ou só dizias
aquelas onde o rosto se escondia.
Palavras onde o sangue não abria
a corola de fogo à madrugada.
O azul não canta, a água morre
na mais secreta boca do teu corpo.
Aqui não brilha a terra, a luz é fria,
aqui o horizonte não respira.
Não havia vento: só medo e cobardia.