É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
Que trabalho exasperado, o da língua, essa em que dizes com mão insegura desvios, desacertos, desalinhos. Aproveito o mote deste poema de Eugénio de Andrade, a propósito dos trabalhos da língua, da língua artística, da criação poética, para apresentar um espaço bastante original e que se debruça precisamente sobre os processos da criação da Poesia, em todas as suas vertentes. É o projecto Vidráguas, da autoria da poetisa brasileira Carmen Silvia Presotto e do fotógrafo também brasileiro Ricardo Hegenbart. Agradeço a Carmen a oportunidade que deu ao Sal da Língua de estar representado no seu espaço Vidráguas e fico bastante feliz por poder dar a minha contribuição para a divulgação da língua de Eugénio. Em relação ao convite, Carmen, só posso dizer que não está esquecido. Um abraço deste lado do mundo, geograficamente falando, pois o milagre da poesia é tornarmo-nos cúmplices nas descobertas e nos sentimentos.
Mar de pequena vaga e céu azul:
a irrupção das frésias na manhã
faz destas ruas um jardim do sul.
Com as quatro folhas
dos trevos do verão
farei uma casa
sem portas sem janelas
para te esconder,
farei um rio
de sombra onde dormir
contigo nos olhos
para não morrer.
Notícias da Fundação…
O poeta brasileiro Claufe Rodrigues, que é também jornalista e director de programas de televisão, estará na Fundação Eugénio de Andrade na próxima segunda-feira, dia 17 de Novembro, pelas 21h30, para apresentar os dois documentários que realizou sobre Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade, e que obtiveram grande sucesso no Brasil quando foram transmitidos pela Globo News. Sobre Fernando Pessoa Claufe recolheu depoimentos de vários especialistas e imagens dos lugares lisboetas frequentados pelo poeta; e com Eugénio de Andrade fez uma das últimas entrevistas que ele concedeu.
Às vezes ia pela tarde
até ao rio.
Os álamos
mesmo em Agosto
quase de bruma.
Por caminhos
de cabras, nem pastor
nem gado.
Só o riso dos rapazes
despindo-se
perto da água
- o sexo exasperado.
Deixei de ouvir o mar,
depois os frágeis dedos do frio,
depois a luz rasteira do linho.
A pedra. Sou-lhe fiel pelo aroma.
Vim de longe para tocar o fogo
da sua geometria sem fronteiras.
Pedra viva. Ou melhor: acariciada.
Pedra profunda, chamada pelo sol,
num voo sem fim, sempre parada.
Uma rosa depois da neve.
Não sei que fazer
de uma rosa no inverno.
Se não for para arder,
ser rosa no Inverno de que serve?