Arquivo da categoria 'Pequeno Formato (1997)'

20
Set
09

Como no início

É a noite por fim, podes tocá-la.
Também a mão, a pequena e febril
música da mão, aí está a iluminá-la.
Agora vê-se melhor o caminho.
29
Mai
09

Que trabalho

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.

Aproveito o mote deste poema de Eugénio de Andrade, a propósito dos trabalhos da língua, da língua artística, da criação poética, para apresentar um espaço bastante original e que se debruça precisamente sobre os processos da criação da Poesia, em todas as suas vertentes. É o projecto Vidráguas, da autoria da poetisa brasileira Carmen Silvia Presotto e do fotógrafo também brasileiro Ricardo Hegenbart. Agradeço a Carmen a oportunidade que deu ao Sal da Língua de estar representado no seu espaço Vidráguas e fico bastante feliz por poder dar a minha contribuição para a divulgação da língua de Eugénio. Em relação ao convite, Carmen, só posso dizer que não está esquecido. Um abraço deste lado do mundo, geograficamente falando, pois o milagre da poesia é tornarmo-nos cúmplices nas descobertas e nos sentimentos.
03
Mar
09

A pequena vaga

Mar de pequena vaga e céu azul:

a irrupção das frésias na manhã

faz destas ruas um jardim do sul.

14
Nov
08

Outra canção

Com as quatro folhas

dos trevos do verão

farei uma casa

sem portas sem janelas

para te esconder,

farei um rio

de sombra onde dormir

contigo nos olhos

para não morrer.

 

Notícias da Fundação…

O poeta brasileiro Claufe Rodrigues, que é também jornalista e director de programas de televisão, estará na Fundação Eugénio de Andrade na próxima segunda-feira, dia 17 de Novembro, pelas 21h30, para apresentar os dois documentários que realizou sobre Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade, e que obtiveram grande sucesso no Brasil quando foram transmitidos pela Globo News. Sobre Fernando Pessoa Claufe recolheu depoimentos de vários especialistas e imagens dos lugares lisboetas frequentados pelo poeta; e com Eugénio de Andrade fez uma das últimas entrevistas que ele concedeu.  

 

11
Set
08

Desenho antigo

Às vezes ia pela tarde

até ao rio.

Os álamos

mesmo em Agosto

quase de bruma.

Por caminhos

de cabras, nem pastor

nem gado.

Só o riso dos rapazes

despindo-se

perto da água

- o sexo exasperado.

 

 

18
Abr
08

Última variação

Deixei de ouvir o mar,

depois os frágeis dedos do frio,

depois a luz rasteira do linho.

 

09
Abr
08

A pedra

A pedra. Sou-lhe fiel pelo aroma.

Vim de longe para tocar o fogo

da sua geometria sem fronteiras.

Pedra viva. Ou melhor: acariciada.

Pedra profunda, chamada pelo sol,

num voo sem fim, sempre parada.

23
Dez
07

Improviso

Uma rosa depois da neve.

Não sei que fazer

de uma rosa no inverno.

Se não for para arder,

ser rosa no Inverno de que serve?




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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