O assédio do verão, as rolas
dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo,
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.
In: Rente ao Dizer (1992)
O assédio do verão, as rolas
dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo,
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.
In: Rente ao Dizer (1992)
Vem de tão longe que tenho piedade
dos seus cães: abro a porta, aceito
a festa dos animais.
Aproximou as mãos do fogo
e encontrou a flauta, levou-a
à boca: então o silêncio brilhou
acariciado.
In: Rente ao Dizer (1992)
Ninguém tem corpo mais fino,
nem braços tão delicados
como este lodão
crescendo com vigor à minha porta.
Tenho com ele desvelos de namorado,
limpo-o de ervas daninhas,
rego-lhe a terra ao calor de Agosto,
alegro-me a cada rebento novo,
cada folha recente. Cresce e cresce
em esplendor, certo de ser amado.
In: Rente ao Dizer (1992)
Eu sentia os seus olhos beber os meus;
longamente bebiam, bebiam;
bebiam
até não me restar nas órbitas nenhuma
luz, nenhuma água,
nem sequer o sinal de neles ter chovido
naquele inverno.
In: Rente ao Dizer (1992)
É o mar do deserto, ondulação
sem fim das dunas,
onde dormir, onde estender o corpo
sobre outro corpo, o peito vasto,
as pernas finas, longas,
as nádegas rijas, colinas
sucessivas onde o vento
demora os dedos, e as cabras
passam, e o pastor
sonha oásis perto,
e o verde das palmeiras se levanta
até à nossa boca, até à nossa alma
com sede de outras dunas,
onde o corpo do amor
seja por fim um gole de água.
Às vezes, até a morte pode ser
condescendente: à boca do poço
pára o cavalo, não chega a desmontar,
mas consente que te demores
a contemplar as águas negras,
o rebanho dos chocalhos distantes,
as macieiras perto,
os seus frutos estranhamente acesos.
É outra vez a música, é outra vez a música que me chama, outra vez esse esplendor quase animal que me procura e comigo se faz alma ou primeira manhã sobre as areias.
Também a poesia é filha da necessidade – esta que me chega um pouco já fora do tempo, deixou de ser sumarenta alegria do sol sobre a boca; esta, perdida a húmida e nacarada pele adolescente, mais parece um desses figos secos ao sol de muitos dias que no inverno sempre se encontram postos num prato para comeres junto ao fogo.
A chuva detrás dos vidros, a chuva de março, acesa até aos lábios, dança. Mas a maravilha não é a primavera chegar assim como se não fora nada, a maravilha são os versos de Williams sobre a rasteira e amarela flor da mostarda.
Quem me traz morangos não sabe que também me traz um punhado desses tão delicados e carnais frutos silvestres que os garotos de Roma vendem pelas ruas, sorrindo, ao fim da tarde. Só eles me trazem juntos a sombra dos bosques de verão e o canto do rouxinol na frescura da sua pele.