A palavra nasceu:
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe:
tudo é canto ou chama.
In: Até Amanhã (1956)
A palavra nasceu:
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe:
tudo é canto ou chama.
In: Até Amanhã (1956)
Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um só e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio na noite.
Mãe!,
desamparado na noite.
In: Coração do Dia (1958)
Cantas. E fica a vida suspensa. É como se um rio cantasse: em redor é tudo teu; mas quando cessa o teu canto o silêncio é todo meu.
Talvez nem seja um tordo. Um pássaro cantava. Seria o último desse verão. A própria luz não ajudava: não era barco de manhã nem brisa ao fim da tarde. Talvez o anjo do poema pudesse em seu lugar subir aos ramos e cantar. Mas os anjos são tão distraídos! Deles não há nada a esperar, a não ser fogo de palha. Talvez nem seja um tordo. O seu canto, só vibração do ar.
Desatar o silêncio,
ficar a vê-lo
escorrer na vidraça,
entrar na noite,
labirinto
onde perco a mão,
deixar o sangue
iluminar meu pulso
de terra ardente,
ser música ainda,
penetrar na
água da palha,
seca, dura,
no fogo raso
à beira do inverno,
procurar a pedra
onde dormir,
o estábulo morno
da confidência,
os olhos
onde o azul persiste,
única fonte,
espelho
por onde a sombra
entra devagar,
sentir o sangue,
o silêncio
arder…
Rosto despido, magra fonte
dos dias – assim começa a breve
fala que escuto
vinda de longe, assim o nome
desse cristal,
o tão amado e perdido
olhar; assim do prado branco
as águas de junho
ou de setembro descem ao mar;
assim as dunas onde as aves
pousam leve ou nos lábios
o canto arde;
assim a neve.
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Ao acordar lembrei-me de Peter Doyle. Deviam ser seis horas, na austrália em frente um pássaro cantava. Não vou jurar que cantasse em inglês, só os pássaros de Virgínia Woolf têm privilégios assim, mas o júbilo do meu pisco trouxe-me à memória a cotovia dos prados americanos e o rosto friorento do jovem irlandês, que naquele inverno Walt Whitman amou, sentado ao fundo da taberna, esfregando as mãos, junto ao calor do fogão. Abri a janela, na escassa claridade que se aproximava procurei, em vão, a delícia sem mácula que me despertara. Mas de repente, uma, duas, três vezes, ouviram-se uns trinadinhos molhados, a indicar-me um sopro de penas que mal se distinguia da folhagem. Então, invocando antiquíssimas metáforas do canto, peguei no livro venerando que tinha à mão e, de estrofe em estrofe, fui abrindo as represas às águas do ser, como quem se prepara para voar.