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27
Mai
12

Narração inexacta da casa

A mais antiga e demorada

frase fala do mar logo de início,

no desejo de habitar

os flancos lentos da sua ondulação.

A narrativa torna-se depois

confusa: entre mastros e muros,

além do vento, corria o medo.

Que estranho amor levou

a fazer da casa um barco?

A cal e a pedra guardam o segredo.


In: Ofício da Paciência (1994)

 

O Sal da Língua, Eugénio e a Poesia agradecem as mais de 60 000 visitas ao longo destes quatro anos a este blogue.

02
Fev
11

Coda

Quando o ser da luz for

o ser da palavra,

no seu centro arder

e subir com a chama

(ou baixar à água)

então estarei em casa.

In: Sal da Língua (1995)

10
Jan
11

As nuvens

Hei-de aprender um ofício de que goste, há tão poucos, talvez carpinteiro, ou pedreiro. Construiria uma casa neste chão de areia com pedras húmidas, lisas, ou cheias de limos, frias, são tão bonitas, com seus veios cruzando-se, ou afastando-se de costas uns para os outros. Havia de meter-me por esses miúdos caminhos de chibas para ver, ao fim da tarde, chegar os saltimbancos em toda a sua glória, que me apontam as nuvens lentas, muito brancas, afastando-se.

In: Memória Doutro Rio (1978)

25
Out
10

Ao abrigo das injúrias

Por que palavra começar, por que desordem? O vento levanta-se rápido da rugosidade da pedra, o cavalo de fogo escouceia, relincha no pátio, o rapazito abre-lhe o portão, galopa na poeira.

Desse dia pouco mais há a dizer – o crepúsculo foi-se aproximando dos degraus da casa, já não se distingue o arado da sua sombra, e ao fundo do horizonte o garoto, cúmplice do vento, afasta-se ao abrigo de injúrias.

In: Memória Doutro Rio (1978)

23
Ago
10

Paisagem

O Sal da Língua, ainda comovido pela beleza das ilhas verdes, regressa com a simplicidade da juventude de Eugénio. O poema escolhido é Paisagem, do livro “Primeiros poemas”.

Entre pinheiros três casas.

Uma azenha parada.

Uma torre erguida

de fraga em fraga

contra o céu de cal.

E um silêncio talhado

para o voo dum moscardo

alastra de casa em casa,

sobe à torre abandonada

e sobre a azenha parada

tomba desamparado.

09
Mai
10

Setembro: que lugar

Setembro: que lugar

para dormir — ou nessas folhas

ardendo pelo chão da tarde.

Como partir, deixar deserta

a casa errante

e diminuta do olhar?

A que nos resta.

02
Jan
10

Sobre o coração

Eras a casa, o lugar
onde o sol
ardia sobre a pedra,
a pedra sobre o mundo,
o mundo sobre o coração.
Como podias, uma
a uma, suportar as lágrimas
do mundo, ninguém sabia:
o lugar do sol
era a casa – e ardia.
05
Nov
09

Lume de Inverno

O lume. O lume rasteiro. O lume
ainda. Vem de tão longe. Da casa
térrea sobre a eira,
casa onde qualquer coisa pequena
pulsava: um coração,
a água no cântaro,
o trigo a crescer.
Era tão pequeno que nem sabia
como pedir uma laranja,
um pouco de pão.
Menos ainda, um beijo.
Parecia só saber
estender as mãos para aquele sol
rasteiro e para o olhar
que dos sortilégios do lume
o defendia.
02
Nov
09

A casa

Nem sempre a luz vem assim:
salta como um rapaz muro após muro,
entra pela janela.

O brilho dos medronhos chega ao fim:
extrema ponta dos dias,
aproximação da água.

Dia feito para a música, dizias;
ou para a dança, acrescentavas:
ritmo puro, sustido.

De muro em muro, sem nenhum peso,
entra pela casa.
Agora é ela que dorme comigo.
13
Mai
09

De que país regressas?

De que país regressas?
De que mar ou regaço
onde o desejo respira devagar?
Fala, diz ainda a palavra
que faça do silêncio a casa
ou erga a coroa
do lume à altura do olhar.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

Maio 2012
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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