No verão inocente dos joelhos
à entrada da noite
como se a luz doesse
entre o desejo
e o espasmo lentíssimo relâmpago
a mão.
In: Véspera da Água (1973)
No verão inocente dos joelhos
à entrada da noite
como se a luz doesse
entre o desejo
e o espasmo lentíssimo relâmpago
a mão.
In: Véspera da Água (1973)
Estende um pouco mais a mão
recolhe um a um os sinais do desejo
fogo de abelhas o sexo
espera a insurreição da cal
a espessa ondulação do vento
é sobre um corpo a própria exaltação
morrer nos flancos do amor é um dizer
repara como brilham os limoeiros
Amar-te assim desvelado entre barro fresco e ardor. Sorver entre lábios fendidos o ardor da luz orvalhada. Deslizar pela vertente da garganta, ser música onde o silêncio flui e se concentra. Irreprimível queimadura ou vertigem desdobrada beijo a beijo, brancura dilacerada. Penetrar na doçura da areia ou do lume, na luz queimada da pupila mais azul, no oiro anoitecido entre pétalas cerradas, no alto e navegável golfo do desejo, onde o furor habita crispado de agulhas, onde faça sangrar as tuas águas nuas.
1 Ó pureza apaixonadamente minha: terra toda nas minhas mãos acesa. 2 O que sei de ti foi só o vento a passar nos mastros do verão. 3 Um corpo apenas, barco ou rosa, rumoroso de abelhas ou de espuma. 4 Entre lábios e lábios não sabia se cantava ou nevava ou ardia. 5 Amo como as espadas brilham no ardor indizível do dia. 6 Seria a morte esta carícia onde o desejo era só brisa?
De que país regressas? De que mar ou regaço onde o desejo respira devagar? Fala, diz ainda a palavra que faça do silêncio a casa ou erga a coroa do lume à altura do olhar.
Dai-me um nome, um só nome para tudo quanto voa: cardo pedra romã. Um só nome para o desejo ser na manhã corola de cal, cotovia, chama subindo baixando até ser incêndio de amor rente ao chão. Um só nome para que tudo, rosa excremento mar possa entrar numa canção.
Sobre a mesa a fruta arde: pêras,
laranjas, maçãs, pressentem
a íntima brancura
dos dentes, o desejo represado,
o espesso vinho de vozes antigas;
arde a melancolia ao inventar
outra cidade,
outro país, outros céus onde lançar
os olhos e o riso: deita-te comigo,
trago-te do mar
a crespa luz da espuma,
nos flancos este amor retido.
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Eu ia com a noite pelas ruas
descuidadas que levam ao teu corpo.
Não sei que vozes se cruzaram
com a manhã de Junho dos meus olhos,
mas sempre vozes ou a sombra delas
cortaram os passos ao desejo.
Perdi-me em nevoeiros que de súbito
sobre a cidade caíram, ou em mim.
O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.