Em cada fruto a morte amadurece,
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.
In: As Mãos e os Frutos (1948)
Em cada fruto a morte amadurece,
deixando inteira, por legado,
uma semente virgem que estremece
logo que o vento a tenha desnudado.
In: As Mãos e os Frutos (1948)
A palavra nasceu:
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe:
tudo é canto ou chama.
In: Até Amanhã (1956)
Éramos jovens: falávamos do âmbar
ou dos minúsculos veios de sol espesso
onde começa o vero; e sabíamos
como a música sobe às torres do trigo.
Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,
desatando um a um os nós do silêncio.
Pegavas num fruto: eis o espaço ardente
de ventre, espaço denso, redondo maduro,
dizias; espaço diurno onde o rumor
do sangue é um rumor de ave –
repara como voa, e poisa nos ombros
da Catarina que não cessam de matar.
Sem vocação para a morte, dizíamos. Também
ela, também ela a não tinha. Na planície
branca era uma fonte: em si trazia
um coração inclinado para a semente do fogo.
Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios.
Catarina, ou José – o que é um nome?
Que nome nos impede de morrer,
quando se beija a terra devagar
ou uma criança trazida pela brisa?
Mais sobre José Dias Coelho:
José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961) foi um militante político anti-fascista e escultor português. A sua carreira enquanto escultor é posta de parte quando opta pela luta anti-fascista e pela clandestinidade em 1955, o mesmo ano em que vê os primeiros sinais de reconhecimento público pelo seu trabalho artístico. Foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa. Nessa altura pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado. O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música “A morte saiu à rua”.
Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.
Às vezes, até a morte pode ser
condescendente: à boca do poço
pára o cavalo, não chega a desmontar,
mas consente que te demores
a contemplar as águas negras,
o rebanho dos chocalhos distantes,
as macieiras perto,
os seus frutos estranhamente acesos.
Seja isto dito assim, sem orgulho nem humildade, por não poder imaginar o homem reduzido à lama complacente dos próprios excrementos: para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio.
In: Memória Doutro Rio (1978)
Chegam notícias do Brasil, o Chico Mendes foi assassinado, a morte enrola-se agora nos primeiros frios, nem sequer a tristeza tem sentido, a bola continua em órbita, um dia estoira, o universo ficará mais limpo. 3-01-89 Mais sobre Chico Mendes… Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como "Chico Mendes" (15 Dezembro de 1944 — Xapuri, 22 Dezembro de 1988), foi um seringueiro, sindicalista e activista ambiental brasileiro. Ficou conhecido internacionalmente pela luta que travou pela preservação da Floresta Amazónica e que conduziu ao seu assassinato (Mais sobre Chico Mendes: http://www.chicomendes.org/)
1 Ó pureza apaixonadamente minha: terra toda nas minhas mãos acesa. 2 O que sei de ti foi só o vento a passar nos mastros do verão. 3 Um corpo apenas, barco ou rosa, rumoroso de abelhas ou de espuma. 4 Entre lábios e lábios não sabia se cantava ou nevava ou ardia. 5 Amo como as espadas brilham no ardor indizível do dia. 6 Seria a morte esta carícia onde o desejo era só brisa?
Não sei porque diabo escolheste janeiro para morrer: a terra está tão fria. É muito tarde para as lentas narrativas do coração, o vento continua a tarefa das fohas: cobre o chão de esquecimento. Eu sei: tu querias durar. Pelo menos durar tanto como o tronco da oliveira que teu avô tinha no quintal. Paciência, querido, também Mozart morreu. Só a morte é imortal.
Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de Março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.
NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO:
O poeta e crítico brasileiro Marcos de Morais estará no próximo dia 28, pelas 18h30, na Fundação Eugénio de Andrade para falar das tendências da poesia pernambucana recente. A entrada é livre.