Mensagens com Etiquetas ‘música

29
Fev
12

Nocturno da água

Pergunto se não morre esta secreta

música de tanto olhar a água,

pergunto se não arde

de alegria ou mágoa

este florir do ser na noite aberta.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

10
Jun
11

A Jorge Peixinho

Faltava-te essa música ainda,

a do silêncio, fria de tão nua,

agora para sempre e sempre tua.

 

In: Pequeno Formato (1997)

 
Mais sobre Jorge Peixinho...

Compositor, pianista, professor, maestro, conferencista, ensaísta, Jorge Manuel Rosado Peixinho (1940-1995) é uma referência incontornável na música contemporânea em Portugal na segunda metade do século XX, bem como na divulgação internacional da música portuguesa. Nascido em 1940, no Montijo, frequentou o Conservatório de Lisboa, onde concluiu os cursos de Piano e de Composição. Posteriormente, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou em Roma com Boris Porena e Goffredo Petrassi, na Academia de Santa Cecília, onde obteve o diploma de aperfeiçoamento em Composição. Trabalhou ainda com Luigi Nono, em Veneza e com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen na Academia de Música de Basileia. Peixinho participou em vários festivais de música contemporânea, entre os quais se destacam os de Royan (França), Gaudeamus (Holanda), Madrid, Vigo (Espanha), Veneza, Bayreuth, Bucareste, Buenos Aires, Maracaibo (Venezuela), São João del Rei, Santos e Curitiba (Brasil), Alexandria, entre outros. Colaborou regularmente nos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, em Lisboa. Obteve vários prémios de composição e foi distinguido pela Secretaria de Estado da Cultura com a Medalha de Mérito Cultural. “Coração Habitado” foi composta por Jorge Peixinho em 1966 e estreada no ano seguinte no Festival de Dartington, Inglaterra. Coração habitado utiliza uma escrita vocal vanguardista, aproveitando não apenas as capacidades tradicionais dos cantores líricos como também as virtualidades expressivas da voz, em múltiplas consoantes e vogais, de um texto feito de excertos retirados de um ciclo de poemas de Eugénio de Andrade, Até Amanhã. A voz não canta melodias mas a própria expressividade latente, integrando-se como um instrumento extraordinário num conjunto de três outros, também eles campos surpreendentemente férteis de sons, harmonias e timbres. Jorge Peixinho era amigo de longa data do poeta Eugénio de Andrade que, à data de sua morte, lhe dedica este pequeno epitáfio publicado em Pequeno Formato. (Fonte: www.lamadeguido.com/book4008.pdf)

 

12
Abr
11

Retrato ardente

Entre os teus lábios

é que a loucura acode

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

In: Obscuro Domínio (1972)

07
Set
10

Coral

É um dos corais de Leipzig,

o quarto. Sem sabermos como, desceu

ao chão da alma. A música

é este abismo, esta queda

no escuro. Com o nosso corpo

tece a sua alegria,

faz a claridade

dos bosques com a nossa tristeza.

Pela sua mão conhecemos a sede,

o abandono, a morte. Mas também

o êxtase de estrela em estrela.

E a ressurreição.

 

In: Os Lugares do Lume (1998)

26
Jul
10

Estribilhos

No interior da música

o silêncio

que regaço procura?

Que interior é esse

onde a luz

tem morada?

E há um interior,

assim como o caroço

dentro do fruto?

E como entrar nele?

É como num corpo?

13
Jun
10

Nocturno de veneza

Pergunto se não corre esta secreta

música de tanto olhar a água,

pergunto se não arde

de alegria ou mágoa

este florir de ser na noite aberta.

07
Fev
10

Sobre as areias

É outra vez a música,
é outra vez
a música que me chama,
outra vez esse esplendor
quase animal
que me procura
e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.
30
Ago
09

Nesses lugares

Nesses lugares,
nesses lugares onde o ar
perde a mão,
os meus amigos começam a morrer.
 
Falar tornou-se insuportável. 
Falar dessa luz queimada.
deserta.

Que fazer desta boca, 
do olhar,
tão perto outrora de ser música?
06
Mar
09

Apenas um corpo

Respira. Um corpo horizontal,

tangível, respira.

Um corpo nu, divino,

respira, ondula, infatigável.

 

Amorosamente toco o que resta dos deuses.

As mãos seguem a inclinação

do peito e tremem,

pesadas de desejo.

 

Um rio interior aguarda.

Aguarda um relâmpago,

um raio de sol,

outro corpo.

 

Se encosto o ouvido à sua nudez,

uma música sobe,

ergue-se do sangue,

prolonga outra música.

 

Um novo corpo nasce,

nasce dessa música que não cessa,

desse bosque rumoroso de luz,

debaixo do meu corpo desvelado.

12
Fev
09

Canto firme

Desatar o silêncio,

 

ficar a vê-lo

escorrer na vidraça,

 

entrar na noite,

 

labirinto

onde perco a mão,

 

deixar o sangue

iluminar meu pulso

de terra ardente,

 

ser música ainda,

 

penetrar na

água da palha,

 

seca, dura,

 

no fogo raso

à beira do inverno,

 

procurar a pedra

onde dormir,

 

o estábulo morno

da confidência,

 

os olhos

onde o azul persiste,

 

única fonte,

 

espelho

por onde a sombra

entra devagar,

 

sentir o sangue,

o silêncio

 

arder…




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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