Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
In: Ostinato Rigore (1964)
Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
In: Ostinato Rigore (1964)
Faltava-te essa música ainda,
a do silêncio, fria de tão nua,
agora para sempre e sempre tua.
In: Pequeno Formato (1997)
Mais sobre Jorge Peixinho...
Compositor, pianista, professor, maestro, conferencista, ensaísta, Jorge Manuel Rosado Peixinho (1940-1995) é uma referência incontornável na música contemporânea em Portugal na segunda metade do século XX, bem como na divulgação internacional da música portuguesa. Nascido em 1940, no Montijo, frequentou o Conservatório de Lisboa, onde concluiu os cursos de Piano e de Composição. Posteriormente, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, estudou em Roma com Boris Porena e Goffredo Petrassi, na Academia de Santa Cecília, onde obteve o diploma de aperfeiçoamento em Composição. Trabalhou ainda com Luigi Nono, em Veneza e com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen na Academia de Música de Basileia. Peixinho participou em vários festivais de música contemporânea, entre os quais se destacam os de Royan (França), Gaudeamus (Holanda), Madrid, Vigo (Espanha), Veneza, Bayreuth, Bucareste, Buenos Aires, Maracaibo (Venezuela), São João del Rei, Santos e Curitiba (Brasil), Alexandria, entre outros. Colaborou regularmente nos Encontros Gulbenkian de Música Contemporânea, em Lisboa. Obteve vários prémios de composição e foi distinguido pela Secretaria de Estado da Cultura com a Medalha de Mérito Cultural. “Coração Habitado” foi composta por Jorge Peixinho em 1966 e estreada no ano seguinte no Festival de Dartington, Inglaterra. Coração habitado utiliza uma escrita vocal vanguardista, aproveitando não apenas as capacidades tradicionais dos cantores líricos como também as virtualidades expressivas da voz, em múltiplas consoantes e vogais, de um texto feito de excertos retirados de um ciclo de poemas de Eugénio de Andrade, Até Amanhã. A voz não canta melodias mas a própria expressividade latente, integrando-se como um instrumento extraordinário num conjunto de três outros, também eles campos surpreendentemente férteis de sons, harmonias e timbres. Jorge Peixinho era amigo de longa data do poeta Eugénio de Andrade que, à data de sua morte, lhe dedica este pequeno epitáfio publicado em Pequeno Formato. (Fonte: www.lamadeguido.com/book4008.pdf)
Entre os teus lábios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
In: Obscuro Domínio (1972)
É um dos corais de Leipzig,
o quarto. Sem sabermos como, desceu
ao chão da alma. A música
é este abismo, esta queda
no escuro. Com o nosso corpo
tece a sua alegria,
faz a claridade
dos bosques com a nossa tristeza.
Pela sua mão conhecemos a sede,
o abandono, a morte. Mas também
o êxtase de estrela em estrela.
E a ressurreição.
In: Os Lugares do Lume (1998)
No interior da música
o silêncio
que regaço procura?
Que interior é esse
onde a luz
tem morada?
E há um interior,
assim como o caroço
dentro do fruto?
E como entrar nele?
É como num corpo?
Pergunto se não corre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir de ser na noite aberta.
É outra vez a música, é outra vez a música que me chama, outra vez esse esplendor quase animal que me procura e comigo se faz alma ou primeira manhã sobre as areias.
Nesses lugares, nesses lugares onde o ar perde a mão, os meus amigos começam a morrer. Falar tornou-se insuportável. Falar dessa luz queimada. deserta. Que fazer desta boca, do olhar, tão perto outrora de ser música?
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Desatar o silêncio,
ficar a vê-lo
escorrer na vidraça,
entrar na noite,
labirinto
onde perco a mão,
deixar o sangue
iluminar meu pulso
de terra ardente,
ser música ainda,
penetrar na
água da palha,
seca, dura,
no fogo raso
à beira do inverno,
procurar a pedra
onde dormir,
o estábulo morno
da confidência,
os olhos
onde o azul persiste,
única fonte,
espelho
por onde a sombra
entra devagar,
sentir o sangue,
o silêncio
arder…