Mensagens com Etiquetas ‘Outono

16
Abr
12

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava

as portas todas ao rio foi-se embora.

A luz é fria: esta é agora

a minha terra, o outono.

Todas as terras são afinal as mesmas

folhas cobrindo a relva, às vezes

cintilando quando o sol rasga a névoa.

 

In:  Pequeno Formato (1997)

10
Mai
10

Outro poema para o meu amor doente

Outono, pássaro da melancolia

num céu sem cor que não promete nada,

mar de insónia onde o teu corpo paira

ou um aroma de terra molhada.

12
Abr
10

Ninguém cheira melhor

Ninguém cheira melhor

nestes dias

do que a terra molhada: é outono.

Talvez por isso a luz,

como quem gosta de falar

da sua vida, se demora à porta,

ou então passa as tardes à janela

confundindo o crepúsculo

com as ruínas

da cal mordida pelas silvas.

Quando se vai embora o pano desce

rapidamente.

19
Jan
10

Outro poema para o meu amor doente

Outono, pássaro da melancolia
num céu sem cor que não promete nada,
mar de insónia onde o teu corpo paira
ou um aroma de terra molhada.
02
Dez
09

Passaste os dias a pôr sílabas

Passaste os dias a pôr sílabas
sobre sílabas, dorme, estás cansado.
Não são do rio essas luzes,
dorme, já não há rios.
Nos pátios do outono a noite
já soltou os seus cães, dorme.
16
Ago
09

Com as gaivotas

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.
 
Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
06
Mai
09

Rumor

Quando o outono
já não pode senão melancolia
é que o secreto rumor da água
inunda os lábios de oiro.
31
Mar
09

Canção para minha mãe

Uma mulher a cantar

de cabelo despenteado.

 

(Era o tempo das gaivotas

mas o mar tinha secado.)

 

Pelos seus braços caíam

frutos maduros de Outono,

 

pelas pernas escorriam

águas mornas de abandono.

 

(Uma criança juntava

o cabelo destrançado.)

 

Gaivotas não as havia

e o mar tinha secado.

12
Nov
08

Às vezes entra-se em casa com o outono

Às vezes entra-se em casa com o outono

preso por um fio,

dorme-se então melhor,

mesmo o silêncio acabou por se calar.

 

Talvez pela noite fora ouça cantar o galo,

e um rapazito suba as escadas

com um cravo

e notícias de minha mãe.

 

Nunca fui tão amargo, digo-lhe então,

nunca à minha sombra a luz

morreu tão jovem

e tão turva.

 

Parece que vai nevar.

13
Out
08

Adagio

O Outono é isto –

apodrecer de um fruto

entre folhas esquecido.

Água escorrendo,

quem sabe donde,

ocasional e fria

e sem sentido.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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