A palavra nasceu:
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe:
tudo é canto ou chama.
In: Até Amanhã (1956)
A palavra nasceu:
nos lábios cintila.
Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.
De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.
A morte não existe:
tudo é canto ou chama.
In: Até Amanhã (1956)
Estou aqui sentado – ali o mar, as palmeiras. O leite fresco, o pão na mesa. O gesto sempre igual da luz, o mesmo olhar da ave. Existe uma secreta harmonia entre a luz e o mar, a mesma provavelmente entre a palmeira e a ave, o leite e o pão. E com a palavra, o seu voo a prumo, com a palavra qual é a relação?
Um amigo é às vezes o deserto, outras a água. Desprende-te do ínfimo rumor de agosto; nem sempre um corpo é o lugar da furtiva luz despida, de carregados limoeiros de pássaros e o verão nos cabelos; é na escura folhagem do sono que brilha a pele molhada, a difícil floração da língua. O real é a palavra.
Entre a folha branca e o gume do olhar a boca envelhece. Sobre a palavra a noite aproxima-se da chama. Assim se morre dizias tu. Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura. Na porosa fronteira do silêncio a mão ilumina a terra inacabada. Interminavelmente.
Nenhuma palavra acorre hoje para me ajudar a carregar com o dia. Contemplo longamente (ver é agora a minha única paixão) a ave que desenhaste no meu caderno, ferida em pleno voo – quem terá forças para impedi-la de morrer? Outras gaivotas passam quase rente à janela, vai chover. Troco este céu impassível pelas dunas de Fão, agora só na memória. Também aí as gaivotas anunciavam que a luz mudara de direcção, e algumas aproximavam-se tanto do meu rosto que eu chegava a recear que me bicassem os olhos. Elas vêm e vão, o céu está agora mais claro, já não as vejo. Talvez não caia mais que um dedalzinho de água, ou nem isso sequer.
28.2.86
Quando o ser da luz for o ser da palavra, no seu centro arder e subir com a chama (ou baixar à agua), então estarei em casa.
Atado ao silêncio, o coração ainda pesado de amor, jazes de perfil, escutando, por assim dizer, as águas negras da nossa aflição. Pálidas vozes procuram-te na bruma; de prado em prado procuram um potro, a palmeira mais alta sobre o lago, um barco talvez ou o mel entornado da nossa alegria. Olhos apertados pelo medo aguardam na noite o sol onde cresces, onde te confundes com os ramos de sangue do verão ou o rumor dos pés brancos da chuva nas areias. A palavra, como tu dizias, chega húmida dos bosques: temos que semeá-la; chega húmida da terra: temos de defendê-la; chega com as andorinhas que a beberam sílaba a sílaba na tua boca. Cada palavra tua é um homem de pé, cada palavra tua faz do orvalho uma faca, faz do ódio um vinho inocente para bebermos, contigo no coração, em redor do fogo. 1971
Tanta palavra para chegar a ti,
tanta palavra,
sem nenhuma alcançar
entre as ruínas
do delírio a ilha,
sempre mudando
de forma, de lugar, estremecida
chama, preguiçosa
vaga fugidia
do mar de Ulisses cor de vinho.
Os rumores vinham de costas, a rua entrava pela casa, apesar de tão alta. Desviava então a vista fatigada do papel, a palavra exacta era lenta a chegar, quando chegava. O trabalho de horas acabara por reduzir-se a três ou quatro linhas, ainda por cima Cesário insinuara-se no seu apuro. Aproximou-se da janela, a luz era ainda amarga naquele fim de Março. O rio lá ao fundo ia frio, apesar disso as águas chamavam-no. É a música inominável da poesia, pensou, um dia terei de responder àquele apelo. Voltou ao papel, não podia perder o resto da manhã. O que se expõe na palavra é um corpo mortal, mas são essas interrogações que resistem à morte. Amarfanhou a folha, atirou-a fora, exasperado. Pegou na bengala, desceu à rua. Março ia frio, não há dúvida. (16.5.85)
Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo
– e desperte o lume.