Com o tempo aproximar-se-ão os rios
e os montes, com o tempo
acabará por te vir comer à mão
e fazer ninho na tua cama
o silêncio
In: O Peso da Sombra (1982)
Com o tempo aproximar-se-ão os rios
e os montes, com o tempo
acabará por te vir comer à mão
e fazer ninho na tua cama
o silêncio
In: O Peso da Sombra (1982)
Estão sentados quase lado a lado
no chão à espera que passe um barco,
a luz muito quieta
no regaço
como se fora um gato, o sorriso
antigo, a casa
à beira do crepúsculo
atenta aos passos nas areias;
era outra vez Abril,
chovia no jardim, já não chovia,
um aroma, apenas um aroma,
tornava espesso o ar.
Uma criança me leva rio acima.
In: Contra a Obscuridade (1988)
São muito vastas as noites de insónia, quase sempre atravessadas por um rio. Quando não chove, confusamente dispo-me atrás dos amieiros e abandono-me à corrente. Sigo para o sul, que é para onde correm todos os rios, pelo menos os meus.
Um dia, numa língua de areia, avistei dois corpos que se penetravam exasperados. Fiquei aterrado: primeiro pensei que ele a estava a matar, a seguir, que ambos estivessem a morrer, só depois percebi o que se passava, e o meu próprio corpo se exasperou. Quando acabaram, a mulher chorava e o homem quase lhe mijava em cima. Afastaram-se cada um para seu lado, sem trocarem palavra. Contei o que vira a um pastor que encontrei mais abaixo. Pouco mais velho era do que eu, mas mostrou-me como o prazer não tem forçosamente que ver com a culpa. Quem não sabe que os corpos também podem ser conjunção de águas felizes?
In: Memória Doutro Rio (1978)
Chega ao fim, o rio. Vem de longe só para morrer às mãos das vagas. Chega extenuado, o caminho é longo, nem sempre fácil, embora se demore muita vez a contemplar as margens, ora escarpadas, ora em socalcos verdes, entre oiro e carmim. Na foz esperam-no as gaivotas, mas sobre os seus flancos, onde o céu é mais fértil, as garças cinzentas seguem-no de perto – não sei dizer qual destas aves prefere para companhia. O que ele mais ama, sobre isso não tenho dúvidas, são aqueles álamos frios das terras de Sória, onde as suas águas são delgadas e jovens. Os álamos e a música que neles há, quando os anjos lhes acariciam as folhas, que tremem à sua aproximação. É com eles na alma, que se verga por fim o rio às águas salgadas da sua última morada.
Que voz se desprende,
hesita, tropeça?
Que pedras tacteia,
que ramos alcança?
Que fonte pressente?
Que rio procura?
Que ritmo persegue,
que palavras ama?
Que sombras repele,
que luzes derrama?
Passaste os dias a pôr sílabas sobre sílabas, dorme, estás cansado. Não são do rio essas luzes, dorme, já não há rios. Nos pátios do outono a noite já soltou os seus cães, dorme.
Cantas. E fica a vida suspensa. É como se um rio cantasse: em redor é tudo teu; mas quando cessa o teu canto o silêncio é todo meu.
Surdo, subterrâneo rio de palavras me corre lento pelo corpo todo; amor sem margens onde a lua rompe e nimba de luar o próprio lodo. Correr do tempo ou só rumor do frio onde o amor se perde e a razão de amar - surdo, subterrâneo, impiedoso rio, para onde vais, sem eu poder ficar?
Os rumores vinham de costas, a rua entrava pela casa, apesar de tão alta. Desviava então a vista fatigada do papel, a palavra exacta era lenta a chegar, quando chegava. O trabalho de horas acabara por reduzir-se a três ou quatro linhas, ainda por cima Cesário insinuara-se no seu apuro. Aproximou-se da janela, a luz era ainda amarga naquele fim de Março. O rio lá ao fundo ia frio, apesar disso as águas chamavam-no. É a música inominável da poesia, pensou, um dia terei de responder àquele apelo. Voltou ao papel, não podia perder o resto da manhã. O que se expõe na palavra é um corpo mortal, mas são essas interrogações que resistem à morte. Amarfanhou a folha, atirou-a fora, exasperado. Pegou na bengala, desceu à rua. Março ia frio, não há dúvida. (16.5.85)
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.