Mensagens com Etiquetas ‘silêncio

26
Out
11

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

Com o tempo aproximar-se-ão os rios

e os montes, com o tempo

acabará por te vir comer à mão

e fazer ninho na tua cama

o silêncio


 

In: O Peso da Sombra (1982)

06
Jul
11

As nascentes da ternura

1

No espaço de um relâmpago

os olhos reflectem os navios.

 

2

O silêncio brilha acariciado.

 

3

O silêncio é de todos os rumores

o mais próximo da nascente.

 

4

Só água era, e sem memória.

 

5

Claridade sem repouso, ó claridade,

aguda nos juncos, nas pedras rasa.

 

6

É no ardor dos cardos

que o vento faz a casa.

 

7

Da pedra à cal, do sal à espuma,

amo a pobreza e a brancura.

 

In: Ostinato Rigore (1964)

04
Jul
11

Variação sobre um tema antigo

Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

27
Jun
11

Sul

Depois de uns dias de pausa, da vida como ela é, num recanto escondido do sul do país, com sal, sol e mar, regresso ao quotidiano. De Eugénio, também o “Sul”.

 

Pelo azul da pedra vê-se que é verão,

à beira do tanque os aloendros devem estar

em flor,

as águas reflectem o silêncio.

 

 In: Escrita da Terra (1974)

28
Fev
11

Escuto o silêncio

Escuto o silêncio: em Abril

os dias são

frágeis, impacientes e amargos;

os passos

miúdos dos teus dezasseis anos

perdem-se nas ruas, regressam

com restos de sol e chuva

nos sapatos,

invadem o meu domínio de areias

apagadas,

e tudo começa a ser ave

ou lábios, e quer voar.

 

Um rumor cresce lentamente,

oh, lentamente

não cessa de crescer,

um rumor de pálpebras

ou pétalas

sobe de terraço em terraço,

descobre um dia

de cinzas com vestígios de beijos.

 

Um só rumor de sangue

jovem:

dezasseis luas altas,

selvagens, inocentes e alegres,

ferozmente enternecidas;

dezasseis potros

brancos na colina sobre as águas.

 

Como um rio cresce, cresce um rumor;

quero eu dizer,

assim um corpo cresce, assim

as ameixieiras bravas

do jardim,

assim as mãos,

tão cheias de alegria,

tão cheias de abandono.

 

Um rumor de sementes,

de cabelos

ou ervas acabadas de cortar,

um irreal amanhecer de galos

cresce contigo,

na minha noite de quatro muros,

no limiar da minha boca,

onde te demoras a dizer-me adeus.

 

Escreve um rumor: é só silêncio.

In: Ostinato Rigore (1964)

18
Fev
11

Sou fiel ao ardor

Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos,
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

In: O Peso da Sombra (1982)

23
Ago
10

Paisagem

O Sal da Língua, ainda comovido pela beleza das ilhas verdes, regressa com a simplicidade da juventude de Eugénio. O poema escolhido é Paisagem, do livro “Primeiros poemas”.

Entre pinheiros três casas.

Uma azenha parada.

Uma torre erguida

de fraga em fraga

contra o céu de cal.

E um silêncio talhado

para o voo dum moscardo

alastra de casa em casa,

sobe à torre abandonada

e sobre a azenha parada

tomba desamparado.

26
Jul
10

Estribilhos

No interior da música

o silêncio

que regaço procura?

Que interior é esse

onde a luz

tem morada?

E há um interior,

assim como o caroço

dentro do fruto?

E como entrar nele?

É como num corpo?

25
Mai
10

O inominável

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

02
Mai
10

No meu desejo

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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