Mensagens com Etiquetas ‘Verão

28
Abr
12

Memória dos Dias

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo no muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos.

Vais e vens. E quando regressas

é o teu cão o primeiro a sabê-lo.

Ao ouvi-lo latir, sabíamos que contigo

também o amor chegara a casa.

 

In: Os Sulcos da Sede (2001)

13
Mar
12

Matinalmente

Com a luz, com a cal

do verão entornada pela casa,

com essa música

tão amada e bárbara,

com a púrpura correndo

de colina em colina,

fazer uma coroa –

e de lágrimas cheia a taça

sagrar-te príncipe da vida.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

20
Fev
12

Sobre as sílabas

O assédio do verão, as rolas

dos pinheiros, a risca de sal

das areias; às vezes

chovia – então um barco

de borco era o abrigo,

era o amigo; a chuva abria

o aroma dos fenos, não tardava

o sol em cada sílaba.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

01
Jan
12

O verão é assim

O verão é assim: a masculina e mineral

e quase táctil vibração das cigarras.

Não sou apenas eu, também elas

se alimentam de claridade,

fogem do escuro.

Porque o escuro é onde se abrigam

a calúnia e a usura,

o escuro é onde a vaidade

e a demência do lucro acorrem

ao apelo do mais rasteiro.

O Céu não passa de um imenso

e vazio buraco negro,

mas tenho a esperança que o Inferno

conserve ainda activas as fogueiras

da inquisição, e nas suas chamas

possam ouvir-se um dia

esses cães, que tanto abusam do poder,

rechinar – como as cigarras no verão.


In: Sal da Língua (1995)

15
Nov
11

Coroa de lume

Ouço-o partir, o sol da mão.

O prazer do ofício,

a paciência de areia

abrindo para os caminhos do verão,

também eles a chegar

ao fim. Foi assim que partilhei

o pão, o tão amado

sopro vindo do sul.

Não tardará o sono: já

começou na fala.

É tempo de atirar aos cães

a coroa de lume.


In: Ofício de Paciência (1994)

31
Mai
11

Cardos

Este é o lugar onde só o lume

não demora a florir,

onde o verão abdica

de ser metáfora para arder

até ao fim.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

17
Mai
11

Frases

No verão inocente dos joelhos

 

à entrada da noite

como se a luz doesse

 

entre o desejo

e o espasmo lentíssimo relâmpago

 

a mão.

 

In: Véspera da Água (1973)

03
Mai
11

Limiar dos Pássaros

Ainda esta poeira sobre o coração

queria que chovesse sobre os ulmeiros

sair limpo desses olhos

da luz que se demora a polir os seixos

 

A corrosiva música das vogais que te devora

o silêncio do muro

às vezes quase azul

o verão afinal onde o ar é mais duro

 

Acordarás com as primeiras chuvas

a floração do trevo doía

o olhar sempre negado

aos cães da mote sempre prometido

 

Estende-te aqui

perto do oiro branco das cigarras

já tenho ouvido chegar o verão

a sua frágil quilha em águas quase mortas

 

A clara desordem dos cabelos

(dos cavalos não é ainda tempo)

a fundula da pupila

os lábios por dentro finalmente acesos

 

Tudo o mais te direi sobre o teu peito

à superfície uma poeira fresca

como quem escuta sobre a erva

as nascentes do fogo

 

Sem mácula não há luz sobre os joelhos

é um corpo de amor este que temos

até ao chão

da água mais exígua

 

Amar a boca fatigada do corpo

ou outra ainda mais estéril

entrar

onde o silêncio desce às fontes

 

Morrer e não morrer sobre os teus rins

uma árvore de pássaros ardia

era verão escuta os seus cavalos

à roda da cintura

 

O cálido esperma das palavras

no interior do cabelo derramado

um sol de palha fresca a boca

de que rio regressa?

 

Dessa cal de homem rompe a lua

de sol extenuada

ergue-se de gume em gume e cai

no espelho a prumo das espadas

 

Falar dizer de outra maneira

as labiais bebidas corpo a corpo

deambular pelas pernas pela boca

abandonar-me entre as pedras à poeira

 

Onde fluvial a meio da noite

cresce a pedra

branca dos álamos

as crianças dormem com os pássaros

 

Um corpo ao crepúsculo lido pelo vento

chama-se música

esta queda no escuro

rente ao murmúrio

 

Dizer como um rosto se extingue sem cessar

que farei deste nome que me sobra?

Eu tinha duas mãos que te queriam

grandes olhos de pássaro fulminado

 

Como dizer que vai morrendo

sobre pedras sem nome

la prima voce che passò volando

distante já da nossa idade?

 

Ninguém sabia de onde vinha

atravessara a noite do olhar

e o medo e o êxtase das espadas

o amor que é sempre argila branca

 (continua …)

In: Limiar dos Pássaros (1976)

18
Fev
11

Sou fiel ao ardor

Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos,
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

In: O Peso da Sombra (1982)

27
Jan
11

Enquanto escrevia

Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore, era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.

In: Memória Doutro Rio (1978)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)
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