Arquivo de Janeiro, 2008

31
Jan
08

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.

  

Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de setembro.

  

Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?

  

Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.

 

Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?  

 

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.

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30
Jan
08

Eros

Nunca o verão se demorara

assim nos lábios

e na água

– como podíamos morrer,

tão próximos

e nus e inocentes?

29
Jan
08

Assim é a poesia

Não sei onde acordei, a luz perde-se ao fundo do corredor, longo, longo, com quartos dos dois lados, um deles é o teu, demoro muito, muito a chegar lá, os meus passos são de menino, mas os teus olhos esperam-me, com tanto amor, tanto, que corres ao meu encontro com medo que tropece no ar – ó musicalíssima.

28
Jan
08

Os perigos do Verão

Era o verão, o seu desassossego.

Era o desejo,

o desejo rompendo da sombra

sem caminho, e doía.

Era o ardor, o mais diáfano

irmão da melancolia.

Era o amor, o espanto

do amor, desarmado,

sem abrigo.

Era o deserto, o deserto à porta;

e fervia.

26
Jan
08

Madrigal

Tu já tinhas um nome, e eu não sei

se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.

Nos meus versos chamar-te-ei amor.

25
Jan
08

Vaguíssimo retrato

Levar-te à boca,

beber a água

mais funda do teu ser –

 

se a luz é tanta,

como se pode morrer?

23
Jan
08

Da maneira mais simples

É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples:

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo. Antes

do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do Inverno

a mais ardente das estações.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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