Arquivo de Abril, 2008

30
Abr
08

Rente ao chão

Caminhas devagar

entre muros e muros que se repetem

na chama extenuada dos espelhos.

 

Ninguém te segue

só um pássaro te confunde

com a pele rugosa das águas de Setembro.

 

De perfil lembras um claro timbre de vogais

arder no vento –

rente ao chão.

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28
Abr
08

Green god

Trazia consigo a graça

das fontes quando anoitece.

Era o corpo como um rio

em sereno desafio

com as margens quando desce

 

Andava como quem passa

sem ter tempo de parar.

Ervas nasciam dos passos,

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

 

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ele sabia

que os deuses devem usar.

 

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo o que via,

enleado na melodia

duma flauta que tocava.

27
Abr
08

As palmeiras

Também o deserto vem

do mar. Não sei em que navio,

mas foi desses lugares

que chegaram ao meu jardim

as palmeiras.

Com o sol das areias

em cada folha,

na coroa o sopro

ainda húmido das estrelas.

23
Abr
08

Espanta-me que estes olhos durem ainda

Espanta-me que estes olhos durem ainda,

que as suas pedras molhadas

se tenham demorado tanto a reflectir

um céu extenuado

em vez de aprenderem com a chuva

a morder o chão.

22
Abr
08

É assim, a música

A música é assim: pergunta,

insiste na demorada interrogação

sobre o amor?, o mundo?, a vida?

Não sabemos, e nunca

nunca o saberemos.

Como se nada dissesse vai

afinal dizendo tudo.

Assim: fluindo, ardendo até ser

fulguração – por fim

o branco silêncio do deserto.

Antes porém, como sílaba trémula,

volta a romper, ferir,

acariciar a mais longínqua das estrelas.

19
Abr
08

Acerca de gatos

Em abril chegam os gatos: à frente

o mais antigo, eu tinha

dez anos ou nem isso,

um pequeno tigre que nunca se habituou

às areias do caixote, mas foi quem

primeiro me tomou o coração de assalto.

Veio depois, já em Coimbra, uma gata

que não parava em casa: fornicava

e paria no pinhal, não lhe tive

afeição que durasse, nem ela a merecia,

de tão puta. Só muitos anos

depois entrou em casa, para ser

senhor dela, o pequeno persa

azul. A beleza vira-nos a alma

do avesso e vai-se embora.

Por isso, quem me lambe a ferida

aberta que me deixou a sua morte

é agora uma gatita rafeira e negra

com três ou quatro borradelas de cal

na barriga. É ao sol dos seus olhos

que talvez aqueça as mãos, e partilhe

a leitura do Público ao domingo.

18
Abr
08

Última variação

Deixei de ouvir o mar,

depois os frágeis dedos do frio,

depois a luz rasteira do linho.

 




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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