Arquivo de Maio, 2008

27
Maio
08

Coração do dia

Olhas-me ainda, não sei se morta:

desprendida

de inumeráveis, melancólicos muros;

só lembrada

que fomos jovens e formosos,

alados e frescos e diurnos.

 

De que lado adormeces?

Alma: nada te dói?

Não te dói nada, eu sei;

agora o corpo é formosura

urgente de ser rio:

ao meu encontro voa.

 

Nada te fere, nada te ofende.

Numa paisagem de áua,

tranquilamente,

estendes os teus ramos

que só a brisa afaga.

A brisa e os meus dedos

fragantes do teu rosto.

 

Mãe, já nada nos separa.

Na tua mão me levas,

uma vez mais,

ao bosque onde me sento

à tua sombra.

– Como tu cresceste!

– suspiras.

 

Alma: como eu cresci.

E como tu és

agora

pequena, frágil, orvalhada.

Anúncios
26
Maio
08

Canção de Laga

Era em Laga, Setembro e as suas águas

ardiam nos nossos lábios. Passou

tanto tempo que para morrer

só me falta voltar àquelas areias.

Tu tinhas vinte anos, roías

as unhas, sujavas a camisa

com o molho das amêijoas, eu pouco

mais tinha, nenhum de nós sabia

como é monstruoso amar assim

com os dias contados pelos dedos.

Hoje o verão entrou de rompante

pela casa dentro, vinha do mar,

trazia a luz molhada do teu corpo,

o difícil amor que dói ainda.

23
Maio
08

Sobre o Tejo

Que soldado tão triste esta chuva

sobre as sílabas escuras do outono

sobre o Tejo as últimas barcas

sobre as barcas uma luz de desterro.

 

Já foi lugar de amor o Tejo a boca

as mãos foram já fogo de abelhas

não era o corpo então dura e amarga

pedra do frio.

 

Sobre o Tejo cai a luz das fardas.

É tempo de te dizer adeus.

22
Maio
08

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.

O seu corpo perfeito, linha a linha,

derramava-se no meu, e eu sentia

nele o pulsar do próprio coração.

 

Moreno, era a forma das pedras e das luas.

Dentro de mim alguma coisa ardia:

a brancura das palavras maduras

ou o medo de perder quem me perdia.

 

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

e longamente bebi os horizontes.

E longamente fiquei até sentir

o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

15
Maio
08

Mar, mar e mar

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exactamente no meu coração.

O mar volta a ser pequeno e meu,

anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

14
Maio
08

Do outro lado

Também eu me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

13
Maio
08

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,

como nasce o vento entre barcos de papel,

como nasce a água ou o amor

quando a juventude não é uma lágrima.

 

É primeiro só um rumor de espuma

à roda do corpo que desperta,

sílaba espessa, beijo acumulado,

amanhecer de pássaros no sangue.

 

É subitamente um grito,

um grito apertado nos dentes,

galope de cavalos num horizonte

onde o mar é diurno e sem palavras.

 

Falei de tudo quanto amei.

De coisas que te dou

para que tu as ames comigo:

a juventude, o vento e as areias.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Maio 2008
S T Q Q S S D
« Abr   Jun »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 140,243 hits