Arquivo de 12 de Junho, 2008

12
Jun
08

Corpo Habitado

Corpo num horizonte de água,

corpo aberto

à lenta embriaguez dos dedos,

corpo defendido

pelo fulgor das maçãs,

rendido de colina em colina,

corpo amorosamente humedecido

pelo sol dócil da língua.

 

Corpo com gosto a erva rasa

de secreto jardim,

corpo onde entro em casa,

corpo onde me deito

para sugar o silêncio,

ouvir

o rumor das espigas,

respirar

a doçura escuríssima das silvas.

 

Corpo de mil bocas,

e todas fulvas de alegria,

todas para sorver,

todas para morder até que um grito

irrompa das entranhas,

e suba às torres,

e suplique um punhal.

Corpo para entregar às lágrimas.

Corpo para morrer.

 

Corpo para beber até ao fim –

meu oceano breve

e branco,

minha secreta embarcação,

meu vento favorável,

minha vária, sempre incerta

navegação.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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