15
Jun
08

Um rio te espera

Estás só, e é de noite,

na cidade aberta ao vento leste.

Há muita coisa que não sabes

e é já tarde para perguntares.

Mas tu já tens palavras que te bastem,

as últimas,

pálidas, pesadas, ó abandonado.

 

Estás só

e ao teu encontro vem

a grande ponte sobre o rio.

Olhas a água onde passaram barcos,

escura, densa, rumorosa

de lírios ou pássaros nocturnos.

 

Por um momento esqueces

a cidade e o seu comércio de fantasmas,

a multidão atarefada em construir

pequenos ataúdes para o desejo,

a cidade onde cães devoram,

com extrema piedade,

crianças cintilantes

e despidas.

 

Olhas o rio

como se fora o leito

da tua infância:

lembras-te da madressilva

no muro do quintal,

dos medronhos que colhias

e deitavas fora,

dos amigos a quem mandavas

palavras inocentes

que regressavam a sangrar,

lembras-te da tua mãe

que te esperava

com os olhos molhados de alegria.

 

Olhas a água, a ponte,

os candeeiros,

e outra vez a água;

a água;

água ou bosque;

sombra pura

nos grandes dias de verão.

 

Estás só.

Desolado e só.

E é de noite.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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