Arquivo de Julho, 2008

31
Jul
08

Havia uma palavra

Havia

uma palavra

no escuro.

minúscula. Ignorada. 

 

Martelava no escuro.

Martelava

no chão da água.

 

Do fundo do tempo,

martelava.

Contra o muro.

 

Uma palavra.

No escuro.

Que me chamava.

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29
Jul
08

Aquela nuvem

É tão bom ser nuvem,

ter um corpo leve,

e passar, passar.

 

Leva-me contigo.

Quero ver Granada.

Quero ver o mar.

 

Granada é longe,

o mar é distante,

não podes voar.

 

Para que te serve

ser nuvem, se não

me podes levar?

 

Serve para te ver.

E passar, passar.

28
Jul
08

Sempre assim foi

Sempre assim foi: entras na noite

completamente desarmado,

conduzido pelo ardor

dos decassílabos cambados

 

onde só a memória

da luz vive ainda, senhor apenas

de mãos tão inseguras

que tanto ocultam como desvendam

 

o minúsculo motor da vida –

mãos propícias aos trabalhos do barro,

mortais, dizia eu, e tão comuns,

tão desiguais.

26
Jul
08

Despertar

É um pássaro, é uma rosa,

é o mar que me acorda?

Pássaro ou rosa ou mar,

tudo é ardor, tudo é amor.

Acordar é ser rosa na rosa,

canto na ave, água no mar.

25
Jul
08

A Mário Botas, com uns cravos brancos

Já estiveras na morte muita vez

e sempre regressaras. Para a conheceres

bastava-te afinal seres português,

a morte é o nosso aprendizado.

Agora lá ficaste: o outono foi duro.

Não cheguei a dizer-te como

tu e eu sobrávamos na festa.

Tu já partiste, eu não tardarei.

Aos corvos deixemos o que resta.

 

… Sobre Mário Botas

Mário Botas (1952-1983) – pintor português, natural da Nazaré.

Médico de formação, Mário Botas iniciou o seu trabalho como pintor em 1971, mas foi a partir de 1977, quando lhe foi diagnosticado uma leucemia, que passou a dedicar-se exclusivamente à pintura. A sua obra é fortemente marcada pelo universo literário, dado que desde cedo manifestou um profundo interesse pelos movimentos literários da época e manteve um convívio estreito com muitos poetas, entre eles Eugénio de Andrade, os quais lhe deram a oportunidade de se expressar plasticamente, nessa simbiose entre o literário e o pictórico.  Para saber mais sobre o pintor: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/figuras/mariobotas.html

 

Tenho na minha biblioteca um livro de Almeida Faria – “Os passeios do sonhador solitário” – que possui ilustrações de Mário Botas e de facto percebe-se a profunda ligação entre o pintor e as palavras dos outros, que acalenta como um pouco suas também.

Aqui fica um excerto do livro de Almeida Faria:

A vida é um xerox; tu uma cópia apenas. Recordo agora que, na noite do parque, ao caminhar sonâmbulo para casa, passei por uma loja de audiovisuais, parei ao ver num dos écrans, em feedback, o que a minha vida foi, e noutro vídeo o que poderia ter sido. Entre ambos a distância era infinita.”

 

NOTÍCIAS DA FUNDAÇÃO: Para encerrar o ciclo Encontros com Poetas do Porto II, a Fundação Eugénio de Andrade irá receber, no próximo sábado, dia 26 de Julho, Helga Moreira. Tal como aconteceu nas outras sessões, haverá uma breve apresentação da Poeta, seguida de leitura de poemas e diálogo com o público. A sessão terá início às 18h30 e a entrada é livre. 

 

23
Jul
08

Ecos de Verão

Quando todo o brilho da cidade

me escorre pelas mãos, que já não são

mais que fugidios ecos de verão,

a música dos dias sem idade

subitamente como fonte ou ave

rompe dentro de mim – e eu nem sei,

neste rumor de tudo quanto amei,

se a luz madrugou ou chegou tarde.

21
Jul
08

Concentro os olhos no mais precário

Concentro os olhos no mais precário

lugar do teu corpo: morre-se

em Agosto com as aves:

de solidão.

 

Neste instante sou imortal:

tenho os teus braços em redor

do corpo todo:

as areias escaldam: é meio-dia.

 

Do teu peito avista-se o mar

caindo a prumo:

morre-se em Agosto na tua boca:

com as aves.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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