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Jul
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Elegia

Às vezes era bom que tu viesses.

Falavas de tudo com modos naturais:

em ti havia

a harmonia

dos frutos e dos animais.

 

Maio trouxe cravos como outrora,

cravos morenos, como tu dizias,

mas cada hora

passa e não se demora

na tristeza das nossas alegrias.

 

Ainda sabemos cantar,

só a nossa voz é que mudou:

somos agora mais lentos,

mais amargos,

um novo gesto é igual ao que passou.

 

Um verso já não é a maravilha,

um corpo já não é a plenitude,

tu quebraste o ritmo, o ardor,

ao partires um a um

os ramos todos da tua juventude.

 

Não estamos sós:

setembro traz ainda

um fruto em cada mão.

Mas os homens, as aves e os ventos

já não bebem em ti a direcção.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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