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Out
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Ao Eduardo Lourenço, na flor da sua idade

Era bonita mas tão provinciana

a cidade. Dos seus muros pasmados

a luz fina caía preguiçosa

nas areias do rio. Mas o resto

era vulgaridade e sonolência.

Só as árvores não eram vulgares:

de tão formosas tornavam o céu

de cristal, como se o verão fora

imortal entre plátanos e choupos.

Ali nos encontrámos certo dia,

éramos jovens e mais jovem que nós

era a poesia que nos acompanhava.

Hölderlin, Keats, Pessanha e o Pessoa

eram então – e não o serão ainda? –

os nossos amigos. O mais, gentes ideias

costumes, tudo tinha o mesmo cheiro

de caserna aliada a sacristia.

Dessa cidade em nós nada ficou.

De nós, que ficará nessa cidade?

 

 

Sobre Eduardo Lourenço…

 

Eduardo Lourenço de Faria nasceu no dia 23 de Maio de 1923 no concelho de Almeida, Beira Alta. Licenciou-se no ano de 1946 em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra, onde foi leitor visitante no departamento de Filosofia. Em 1954 parte do País para dar aulas de português em diversas universidades europeias. Quatro anos mais tarde é convidado pelo governo francês para ser leitor de Português na Universidade de Grenoble, de onde se jubilará em 1988. Em 1975, Vítor Alves convida-o para ser ministro da cultura, mas Eduardo Lourenço recusa. Ainda em 1975, fixa residência em Vence. A sua obra mereceu o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon em 1988, o Prémio Camões em 1996 e agora, a 6 de Outubro de 2008, Eduardo Lourenço recebe a medalha de Mérito Cultural do governo português. Enquanto ensaísta, Lourenço debruçou-se sobre a história da literatura e cultura portuguesas dos séculos XIX e XX, sendo os seus magníficos textos sobre Fernando Pessoa de leitura obrigatória.

 


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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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