23
Out
08

Frésias

Uma pátria tem algum sentido

quando é a boca

que nos beija a falar dela,

a trazer nas suas sílabas

o trigo, as cigarras,

a vibração

da alma ou do corpo ou do ar,

ou a luz que irrompe pela casa

com as frésias

e torna, amigo, o coração tão leve.


2 Responses to “Frésias”


  1. 1 Manuel Dias da Silva
    Outubro 24, 2008 às 3:50 pm

    Frésias. É a segunda vez que vejo estas belas flores serem utilizadas em poemas. Vão muito bem com a “pátria”, ou as “pátrias” que queiramos encontrar no poema do Eugénio.
    E porque gosto de frésias, não resisto a transcrever o poema “Frésias” de José Tolentino de Mendonça:
    Frésias são flores com cheiro a chá
    e ela, aos trinta e sete anos, preferi-as
    às flores que se vendem por aí
    admitia a beleza mas não o esplendor
    porque são tristes as repetições
    num instante se tornam saberes
    e ela, aos trinta e sete anos,
    prezava apenas os segredos que mesmo ditos
    permanecem como segredos

    (em certas´épocas, por alguma porta esquecida
    escapava-se, sonâmbula, para o pátio
    que dá acesso à mata
    e, por vezes, iam buscá-la
    gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
    já muito longe de casa

    tinha por hábito acender fogueiras
    de que, depois, se esquecia
    e por isso também os aldeões
    a temiam)

    nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
    intensa e aflita criança
    incapaz de certezas

    o que de mais belo soube
    sempre o disse, de repente,
    a alguém que não conhecia

  2. 2 Raquel Agra
    Outubro 25, 2008 às 11:00 am

    Caro Manuel,

    Obrigada por trazer até aqui as frésias de Tolentino de Mendonça, é um belo ponto de partida para poder desbravar a poesia de Tolentino, que confesso não conhecer bem.
    Boas leituras,
    Raquel


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s


"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Outubro 2008
S T Q Q S S D
« Set   Nov »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 166.019 hits

%d bloggers like this: