Arquivo de 30 de Outubro, 2008

30
Out
08

A custo

Embora a custo, desprende-se,

abandona-me,

o verão – ganhara raízes

fundas no que fora

terra aberta ao seu fulgor.

Deixou marcas, o cabrão:

dói-me a cara toda, o cabelo,

os lábios, sobretudo

as pálpebras porosas.

Vai sendo tempo de

considerar as minúsculas veredas

que por todo o corpo correm

não sei para que estrela,

escutar com atenção

a narrativa do silêncio.

Por mais solar

que seja o coração chega-se sempre

a isto – e isto

tem a forma da elegia

onde um rio e outro rio vão morrendo.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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