Arquivo de Novembro, 2008

28
Nov
08

Curta-metragem

Ao lume, as imagens acorrem sem esforço: trata-se de tornar real um gato, um gato que me entrou pelo sono. É inverno, veio com a chuva. Aproximou-se do fogo sem sequer olhar para mim, sacudiu algumas gotas de água e enroscou-se na tijoleira quente, tendo caído no sono como pedra no poço. Contemplava aquele novelo desluzido e fremente com inveja – adormecera tão facilmente! Também ele sonha, e no seu sonho há um dia de sol, e pardais na eira, e medas de palha. Espreguiçava-se, o corpo em arco, sobre as patas todas. É preto, pintado por Manet. Devo ficar com ele, os gatos pretos dão sorte, embora sejam ariscos. Não lhe tirava os olhos de cima, começava a considerá-lo uma companhia. Ocasional, leve, descomprometida. Uma afloração da pele mais do que enredos de espírito. De repente, aquele pequeno companheiro de algumas horas estremeceu, saltou sobre um pardalito que se lhe escapa de entre as pernas, corre atrás dele, não pára de correr, regressa à chuva. E eu, ao lume.

 

1985

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27
Nov
08

Coração habitado

Aqui estão as mãos.

São os mais belos sinais da terra.

Os anjos nascem aqui:

frescos, matinais, quase de orvalho,

de coração alegre e povoado.

 

Ponho nelas a minha boca,

respiro o sangue, o seu rumor branco,

aqueço-as por dentro, abandonadas

nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

 

Alguns pensam que são as mãos de deus

  eu sei que são as mãos de um homem,

trémulas barcaças onde a água,

a tristeza e as quatro estações

penetram, indiferentemente.

 

Não lhes toquem: são amor e bondade.

Mais ainda: cheiram a madressilva.

São o primeiro homem, a primeira mulher.

E amanhece.

26
Nov
08

Natureza morta com frutos

1.

O sangue matinal das framboesas

escolhe a brancura do linho para amar.

 

2.

A manhã cheia de brilhos e doçura

debruça o rosto puro na maçã.

 

3.

Na laranja o sol e a lua

dormem de mãos dadas.

 

4.

Cada bago de uva sabe de cor

o nome dos dias todos do verão.

 

5.

Nas romãs eu amo

o repouso no coração do lume.

24
Nov
08

À memória de Ruy Belo

Provavelmente já te encontrarás à vontade

entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância

tomava sempre o comboio para as férias grandes,

já terás feito amigos, sem saudades dos dias

onde passaste quase anónimo e leve

como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,

que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

 

A morte como a sede sempre te foi próxima,

sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso

ela aí estava, um pouco distraída, é certo,

mas estava, como estava o mar e a alegria

ou a chuva nos versos da tua juventude.

 

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta

página de um jornal trazido pelo vento,

nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,

jornal onde em primeira página também vinha

a promoção de um militar a general,

ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:

isto de militares custa a distingui-los,

feitos em forma como os galos de Barcelos,

igualmente bravos, igualmente inúteis,

passeando de cu melancólico pelas ruas

a saudade e a sífilis do império,

e tão inimigos todos daquela festa

que em ti, em mim, e nas dunas principia.

 

Consola-me ao menos a ideia de te haverem

deixado em paz na norte; ninguém na assembleia

da república fingiu que te lera os versos,

ninguém, cheio de piedade por si próprio,

propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,

te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,

qualquer coisa assim para estrumar os campos.

Eles não deram por ti, e a culpa é tua,

foste sempre discreto (até mesmo na morte),

não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,

não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,

e foste a enterrar numa aldeia que não sei

onde fica, mas seja onde for será a tua.

 

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol.

1978

 

Sobre Ruy Belo…

Ruy Belo, poeta, ensaísta e crítico literário, nasceu em S. João da Ribeira, pequena aldeia do concelho de Rio Maior, em 1933. Cursou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. De partida para Roma, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino. Em Lisboa, viria a frequentar também a Faculdade de Letras, terminando em 1967 a licenciatura em Filologia Românica. Tendo sido, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Para além de actividade no domínio editorial, Ruy Belo foi também professor e leitor na Universidade de Madrid desde 1971. Em 1977 regressa ao país, vindo a falecer de modo súbito no ano seguinte.

Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.

(fontes: Instituto Camões, astormentas.com)

 

 

 

 

 

Notícias da Fundação…

No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado  ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.

A entrada é livre.

 

 

21
Nov
08

Tavira 1944

As mulheres sentavam-se às portas da noite

as mais novas riam

os dentes eram a sua coroa

ou tremiam ao pressentir os passos dos soldados

as crianças riscavam a cal com os seus gritos

cresciam para a morte com grandes olhos claros

 

ou ramos cegos.

 

20
Nov
08

Espelho

Que rompam as águas:

é de um corpo que falo.

 

Nunca tive outra pátria,

nem outro espelho;

nunca tive outra casa.

 

É de um rio que falo;

desta margem onde soam ainda,

leves,

umas sandálias de oiro e de ternura.

 

Aqui moram as palavras;

as mais antigas,

as mais recentes:

mãe, árvore,

adro, amigo.

 

Aqui conheci o desejo

mais sombrio,

mais luminoso;

a boca

onde nasce o sol,

onde nasce a lua.

 

E sempre um corpo,

sempre um rio;

corpos ou ecos de colunas,

rios ou súbitas janelas

sobre dunas;

corpos:

dóceis, doirados montes de feno;

rios:

frágeis, frias flores de cristal.

 

E tudo era água,

água,

desejo só

de um pequeno charco de luz.

 

De luz?

Que sabemos nós

dessas nuvens altas,

dessas agulhas

nuas

onde o silêncio se esconde?

Desses olhos redondos,

agudos de verão,

e tão azuis

como se fossem beijos?

 

Um corpo amei;

um corpo, um rio;

um pequeno tigre de inocência

com lágrimas

esquecidas nos ombros,

gritos

adormecidos nas pernas,

com extensas,

arrefecidas

primaveras nas mãos.

 

Quem não amou

assim? Quem não amou?

Quem?

Quem não amou

está morto.

 

Piedade,

também eu sou mortal.

Piedade

por um lenço de linho,

debruado de feroz melancolia,

por uma haste de espinheiro

atirada contra o muro,

por uma voz que tropeça

e não alcança os ramos.

 

De um corpo falei:

que rompam as águas.

19
Nov
08

Serenata

Venho ao teu encontro a procurar

bondade, um céu de camponeses,

altas árvores onde o sol e a chuva

adormecem na mesma folha.

 

Não posso amar-te mais,

luz madura, espaço aberto.

Não posso dar-te mais do que te dou:

sangue, insónias, telegramas, dedos.

 

Aqui estou, fronte pura, rodeado

de sombra, de soluços, de perguntas.

Aceita esta ternura surda,

este jasmim aprisionado.

 

Nos meus lábios, melhor: no fogo,

talvez no pão, talvez na água,

para lá dos suplícios e do medo,

tu continuas: matinalmente.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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