24
Nov
08

À memória de Ruy Belo

Provavelmente já te encontrarás à vontade

entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância

tomava sempre o comboio para as férias grandes,

já terás feito amigos, sem saudades dos dias

onde passaste quase anónimo e leve

como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,

que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

 

A morte como a sede sempre te foi próxima,

sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso

ela aí estava, um pouco distraída, é certo,

mas estava, como estava o mar e a alegria

ou a chuva nos versos da tua juventude.

 

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta

página de um jornal trazido pelo vento,

nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,

jornal onde em primeira página também vinha

a promoção de um militar a general,

ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:

isto de militares custa a distingui-los,

feitos em forma como os galos de Barcelos,

igualmente bravos, igualmente inúteis,

passeando de cu melancólico pelas ruas

a saudade e a sífilis do império,

e tão inimigos todos daquela festa

que em ti, em mim, e nas dunas principia.

 

Consola-me ao menos a ideia de te haverem

deixado em paz na norte; ninguém na assembleia

da república fingiu que te lera os versos,

ninguém, cheio de piedade por si próprio,

propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,

te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,

qualquer coisa assim para estrumar os campos.

Eles não deram por ti, e a culpa é tua,

foste sempre discreto (até mesmo na morte),

não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,

não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,

e foste a enterrar numa aldeia que não sei

onde fica, mas seja onde for será a tua.

 

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol.

1978

 

Sobre Ruy Belo…

Ruy Belo, poeta, ensaísta e crítico literário, nasceu em S. João da Ribeira, pequena aldeia do concelho de Rio Maior, em 1933. Cursou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. De partida para Roma, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino. Em Lisboa, viria a frequentar também a Faculdade de Letras, terminando em 1967 a licenciatura em Filologia Românica. Tendo sido, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Para além de actividade no domínio editorial, Ruy Belo foi também professor e leitor na Universidade de Madrid desde 1971. Em 1977 regressa ao país, vindo a falecer de modo súbito no ano seguinte.

Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.

(fontes: Instituto Camões, astormentas.com)

 

 

 

 

 

Notícias da Fundação…

No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado  ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.

A entrada é livre.

 

 

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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